NOTAS
PARA UM DIÁRIO - 19
31/03/2007. Quatro moças jogando vôlei na
grama. Na verdade, nenhuma sabe jogar, erram com freqüência — mas tudo se
reveste de tal graça e harmonia, que o jogo errado vira balé.
30/03/2007. Toda a atividade ensaística do Carpeaux, enquanto
esteve no Brasil, foi juntar os cacos da “literatura universal” espalhados pela
Europa e pelas Américas, na busca da estátua original. Não se cansava de dizer
que tudo, no fundo, não passava de uma coisa só. Os nacionalismos e
regionalismos fragmentaram a estátua, mas, à maneira da casa demolida de Manuel
Bandeira, ela continua “intacta, suspensa no ar.”
29/03/2007. Quem devia mandar mais no mundo? A
inteligência ou a imaginação? A melhor porta de entrada ao assunto ainda é o Dom Quixote, de Cervantes.
28/03/2007. Juntando a pregação ambientalista
da TV com o calor dos últimos dias, acabei tendo pesadelo com o “efeito estufa”:
o calor era tanto que a geladeira não gelava, o ar vinha quase quente do ar
condicionado e do ventilador, a água saía morna da talha e do chuveiro. Mornos
estavam os rios e o mar. A brisa tinha sido definitivamente expulsa da face da
terra. Acordei banhado em suor — morno, evidentemente.
27/03/2007. Dei as costas ao famoso litoral
catarinense e fui rever Pomerode. Trinta mil
habitantes, mas com cara de três mil: as ruas se espalham irregulares por vales
que ajudam a disfarçar bem o esqueleto urbano. Noventa por cento dos moradores
são luteranos, descendentes de alemães. As ruas centrais já têm ciclovias — dois
metros de largura só para as bicicletas. Nada há mais simpático, no mundo, que
uma pequena cidade com ar civilizado, cheia de árvores. Peguei uma dessas ruas
que pareciam não ter fim, enfiando-se por um vale. Num certo ponto, as casas
tomavam jeito de chácaras, sem muros dividindo terrenos. No domingo, o zoológico
com seiscentos representantes da fauna mundial atrai gente de fora, mas o resto
da semana é sossego e trabalho. Tem algumas fábricas,
garante o folheto turístico, mas a gente não vê. Mais fácil de ver são as
montanhas
26/03/2007. Leituras recentes: Coplas a la muerte de su padre, de Kafka;
Guerra e paz, de Ana Karenina; e Memórias
póstumas de Machado de Assis, de Brás Cubas.
24/03/2007. A paz já nasce grávida de guerra. A
qualquer momento, pode parir de novo o monstro.
23/03/2007. Sugestão de prova inicial para os
concursos acadêmicos de seleção de professor de literatura: responder em público
a pergunta “Você gosta realmente de literatura? Poderia viver sem ela, ou seja,
sem buscar, entre os poemas e histórias ficcionais que o ocidente criou de
melhor, aqueles que mais combinem com sua alma? ”
Prova
eliminatória. E com detector de mentira ao lado.
20/03/2007. No fim de tarde, muitas são as
coisas permitidas. Entre elas, o empregado da construção tentar uma embaixada
com a caixa vazia de azulejos.
19/03/2007. Dos diálogos da sogra e da
nora.
Nora: Como a
empregada trata mal o filho da vizinha!... Basta o casal sair pro trabalho e ela
começa a gritar com o coitadinho.
Sogra (com irônico e socrático olhar): Você
acha justo ela tratar o filho da patroa melhor do que trata os
próprios?
18/03/2007. Dos diálogos da sogra e
da nora.
Nora: Seu
filho deu de deixar a aliança em casa, sogrinha. Tô
meio desconfiada...
Sogra: Se
fosse você, não implicava. Aliança, em mulher, ainda impõe algum respeito. No
homem, é isca pra sirigaita.
17/03/2007. Dos diálogos da sogra e da
nora.
Nora (no telefone, reclamando do pedreiro):
Ele fez um serviço tão porco!
Sogra: Se Deus
só criasse animais racionais, quem faria nossas casas? Não haveria pedreiros.
15/03/2007. Dos diálogos da sogra e da
nora.
Sogra: O gastro me passou uma lista enorme com coisas laxativas (e leu os nomes das folhas, dos legumes, das
frutas, dos cereais e derivados, dos sucos).
Nora (botando a chupetinha no bebê): Tudo
isso, sogrinha?
Sogra: Ainda
faltou muita coisa, querida: rock, novelas da Globo, a cara do
presidente...
13/03/2007. Leite desnatado. Café descafeinado. Cerveja sem álcool. Música sem melodia. Poema
sem poesia. Onde vamos parar?
12/03/2007. Comecei a ver um desses
documentários de bichos na TV Cultura. Antes de desligar, fiz uma experiência
nova: tirei o som. Era uma voz tranqüila de locutor, explicando tudo com aquela
objetividade científica que não combinava com os bichos e a rústica paisagem
africana.
A coisa ficou
diferente. Com a imagem em silêncio, parecia ver tudo aquilo da janela de um
trem, ou, mais apropriadamente, de uma desses jipes de
safári.
Desligar a
tevê? Jamais eu faria aquilo. O negócio estava ficando dramático, muito melhor
que os próprios filmes que a Cultura mostra em fins de semana: sobretudo quando
a onça começou a perseguir os veados. A fuga desesperada daquela veadada toda, no meio das árvores, parecia um balé — melhor
que os balés que a Cultura mostra à meia-noite, no Fortíssimo.
Finalmente, a
onça agarrou a presa. De tantos veados disponíveis na praça, ou melhor, na
savana, um teria de ser da onça, obviamente. O que é da onça, outro bicho não
come. E a câmara registrou cruelmente, com detalhes “científicos”, o sacrifício
da esbelta vítima: das mordidas implacáveis às satisfeitas lambidas de beiço do
felino.
Enfim, sem a
voz tranqüila do locutor e sua explicação objetiva, científica, foi muito mais
emocionante que os programas de começo de noite sobre a violência paulistana ou
carioca. O documentário virou reality show.
Moral da
história: sem eufemismos ambientalistas, animal continua animal.
11/03/2007. Dos diálogos da sogra e da
nora.
Sogra: — O
machismo foi uma compensação de Deus pela maior longevidade
feminina.
Nora (trocando as fraldas do bebê): —
Curioso... Sempre achei que fosse o contrário...
Sogra: —
Depende do ponto de vista, querida. No momento, estou pensando pelo meu filho.
Um dia, vai ser com você.
Nora: Mulheres
como a senhora, aliás a maioria, é que retardam a definitiva emancipação
feminina.
Sogra (fazendo festas no netinho): Fala pra
mamãe, fala. Fala que ela é muito maniqueísta. Não existiria campeonato paulista
só com Coríntians e Palmeiras.
08/03/2007. Existe um negócio chamado ciência
da literatura? Até que ponto os produtos da fábrica literária podem ser
reduzidos a “objetos de apreciação metódica e rigorosa”, exigida pela boa e
honesta ciência? Seria a crítica literária um território neutro, um botequim de
todas as idéias, uma espécie de Vaticano ecumênico onde as humanidades se
encontrariam numa boa e trocariam informações úteis a todas as partes?
Rios de tinta,
poluídos ou não, dentro e fora da universidade, já foram gastos para resolver o
problema. Seremos obrigados a consultar essa papelada toda, sempre que a questão
se impuser de novo? Os que têm mais o que fazer na vida — ou seja, ler com
prazer os bons livros —, podem deixar essa tarefa aos frades da
universidade.
Limitar-me-ei
a tecer algumas vãs e desconsideráveis considerações de frade apóstata.
Com uma visita
ocasional à dona Lingüística, os frades podem preparar edições críticas das
obras, investigar autorias duvidosas, prováveis datas de escrita ou publicação
etc. O mesmo vale para os gêneros literários. A teoria da versificação e da
lírica pode catalogar truques e recursos poéticos da história da poesia,
enquanto os frades responsáveis pela narrativa fazem o mesmo com os contos,
novelas e romances, e os do teatro com as peças.
Para quem tem
paciência, nada mais razoável que investigar as fontes temáticas de uma obra,
seus motivos centrais, relações com outras obras do período, dívida para com
obras do passado próximo ou distante, vinculação ou distanciamento da obra com a
época em que foi escrita.
Mas é aqui que
começam as dúvidas mais interessantes. Os autores foram mesmo beber nas
torneiras presumidas ou tudo não passou de coincidência, ou confluência, como
dizia o Mário Quintana? A idéia principal de uma obra é a mesma para
palmeirenses e corintianos? Quanto à relação com a história dos homens, até que
ponto são as obras devedoras do sistema feudal, absolutista, democrático,
socialista, sócio-capitalista etc.? Como ficam os livros que foram escritos na
contramão da história? Todas as obras bem escritas, que contém a tal “literariedade” dos formalistas russos, são “poéticas” no
sentido croceano, ou seja, tocam em problemas fodidos, vulgo fundamentais, da condição humana? Os
condimentos biográficos são tão desnecessários assim para a digestão da obra? E
as obras literárias que não cabem na caminha de Procusto dos três gêneros? Pra ficar num exemplo doméstico,
Os sertões, de Euclides da Cunha: é
ou não é uma obra de arte literária? Como todos achamos que sim, em qual dos
três gêneros enquadrá-la, já que a classificação está entre os primeiros
mandamentos da santa e honesta ciência? O que fazer com um divertido poema
concretista, que nada contém além de jogo de palavras? Seria mais lógico
devolvê-lo ao departamento do trocadilho, que tem coisas até muito boas, ou
insistir em botá-lo lado a lado com os poemas de Hölderlin, Bauledaire, Montale?
Acabamos de
entrar num mato sem cachorro, como se vê, ou no arraial sem fronteiras das
conjecturas, como disse um deputado. Um congresso de literatura com mil e uma
noites não daria conta do recado, e, no final, Cherazade acabaria degolada.
Mas o imbroglio principal talvez seja outro: o da “leitura” e
“interpretação” de cada obra literária. Dizem que os bons poemas ou romances
foram escritos para aumentar nossa “sabedoria de vida”. Acho que aumentam,
mesmo, é nossa perplexidade. De qualquer modo, arrastam-nos para aquelas zonas
imponderáveis e misteriosas da vida, e cada leitor vai voltar dessa viagem — sem
pedágio usurpador ou risco de acidente — com uma impressão que não é de mais
ninguém, um testemunho só dele: a impressão digital da sua alma.
Enfim, depois
daqueles elementos formais ou estruturais que é possível encontrar na mesma
obra, e que são o dodói da academia, haverá um “resto”, um mais além, uma escada
rolante de possibilidades que nunca chega ao andar superior da objetividade — o
que, por si só, transforma a pretensa “ciência da literatura” em atividade
mental algo suspeita, se o propósito é dar “cientificidade” a tais estudos. A
própria palavra literatura já começa por dificultar sua inclusão no rol das
“logias”: quem teria coragem de dizer literaturologia?
Certos
filósofos já perceberam o problema há algum tempo, e nele incluem não só a
literatura, as artes, como as humanidades de modo geral (naquela época, ainda
não tão humilhadas e ofendidas como hoje). Há certas coisas mensuráveis, diziam
os sisudos pais da matéria, feitas pela natureza e que a gente pode explicar
objetivamente; outras, imensuráveis, feitas pelos homens (e por que não pelos
deuses?) que só podem ser compreendidas, ou seja, virar objetos de uma incerta e
sempre relativa aproximação. É aqui que entra a coisa literária, feita por
indivíduos cheios de incertezas e destinados a indivíduos com tremendas
dúvidas.
Resumindo: a
crítica literária jamais poderá abrir mão de seus imponderáveis e subjetivos
palpites, sob pena de cair num blábláblá formalista, competindo com as tabelas
estatísticas do IBGE, do mais puro e baixo cartesianismo, como gostava de dizer
um amigo. Quem é da área sabe — ou devia saber — até que ponto podemos estar
relativamente de acordo e onde começam os primeiros pigarros da divergência, os
quais, por titica, podem acabar em cuspe na cara. Prova de que não é mesmo
ciência.
A propósito,
será que existe uma história das principais polêmicas literárias do
Ocidente?
04/03/2007. Entre as obras ditas clássicas,
penso que devemos ir atrás das que foram escritas pra cada um de nós, as que
melhor se ajustam ao manequim pessoal. Nem todos os sapatos do nosso número
servem pros nossos pés. Alfredo Panzini, no romance A lanterna de Diógenes, falou e disse:
“Os grandes
poetas têm o instinto da verdade, mas daquela verdade que brilha mais, quanto
mais se distancia no tempo. São semelhantes a faróis do mar: não iluminam por
perto, mas brilham somente na distância, e sua luz tranqüila é conforto no
perigo e na morte. Por isso, as obras dos grandes poetas são como pacotes
selados: cada época só pode compreender o que lhe é
apropriado.”
Outro “melhor
abandonado”, Sainte-Beuve, no ensaio “O que é um
clássico”, dá certas informações eruditas que geralmente o pessoal
desconhece:
“Um clássico, conforme a definição
ordinária, é um autor antigo, já consagrado pela admiração e que tem autoridade
em seu gênero. A palavra clássico, tomada neste sentido, começa a aparecer entre
os Romanos. Entre eles, chamava-se propriamente de clássico, não todos os
cidadãos das diversas classes, mas os da primeira somente, que tinham um
rendimento a partir de certa quantia determinada. Todos os que ganhavam menos
eram designados pela denominação infra classem,
abaixo da classe por excelência. No sentido figurado, a palavra clássico se
encontra empregada em Aulus-Gelle, e aplicada aos
escritores: um escritor de valor e de importância, classicus assiduusque scriptor, um escritor que conta, que tem seu lugar ao
sol, que não é confundido com os proletários das letras. Uma tal expressão supõe
um certo distanciamento no tempo para uma justa apreciação e classificação na
história da literatura.”
Quanto a mim,
soldado raso da literatura, há pouco tempo tentei ler Gargântua e Pantagruel, de Rabelais. Não
passou pela goela mental. Fiquei frustrado, evidentemente, pois fazia tempo que
esperava por aquele momento. Talvez ainda não fosse a hora; quem sabe não
passasse de preconceito, pelo fato de ser obra muito queridinha da modernidade,
depois que foi laçada e estripada pela famosa carnavalização do Bakhtin, cidadão
que também nunca desceu pela minha goela impressionista.
Podemos ficar
sossegados, disse o H. Bloom, um crítico literário que
também foi melhorando com o tempo: há tantas obras-primas esperando pelo
movimento de nossa mão a caminho da estante, que ler todas elas significaria não
fazer outra coisa em cada minuto da vida. São tantas, e presumivelmente boas,
que necessitaríamos da longevidade de Matusalém. E, como podemos embarcar no
Caronte logo amanhã de manhã, a solução mais prudente
é escolher o sapato que melhor se ajusta aos pés de hoje.
Em 2006,
depois de tentar vários desses medalhões geniais, passei as melhores horas do
ano com A cartucha de Parma e O vermelho e o negro, de Stendhal. Pra
completar o ciclo napoleônico, só faltou Guerra e paz, de Tolstoi, pois o
calhamaço foi seqüestrado pela esposa. Mas foi como se tivesse lido, pois
conversávamos todo dia sobre aqueles nomes próprios russos, seus feitos,
defeitos e virtudes: Natacha, Pedro, czar Alexandre,
princesa Maria, príncipe André, conde Nicolau, general Kutuzov, e, evidentemente, o próprio Napoleão.
03/03/2007. Com chuva ou sol, as araucárias do
Paraná vivem sempre de guarda-chuva aberto. Diminuí a velocidade quando avistei
as “ruínas” de Vila Velha e cheguei, enfim, em Curitiba às oito da noite. Segui
as placas indicando Centro Cívico, onde ficava o quarto de hotel que reservei.
Girei como barata tonta atrás da simpática rua Mateus Leme. Mas cidade grande é
sempre cidade grande: o mesmo labirinto pra capiaus.
E na manhã
seguinte o capiau de Canaviais levantou bem cedo e abriu a cortina do quarto de
hotel: só viu prédios. Prédios e céu branco, do branco assustador da baleia de
Melville. Parecia um céu londrino.
“Curitiba,
favela do primeiro mundo”, escreveu há alguns anos Dalton Trevisan (que àquela hora já devia estar de pé em sua casa,
não muito longe dali, preparando-se para escrever mais um conto de sacanagem). É
pena um grande prosador como ele, hoje talvez o melhor do país, desperdiçando
tanta tinta com sexo escrito. Lugar de sexo é na cama ou locais congêneres. “Só pensa naquilo”, como dizia a atriz
cômica da televisão.
Num dos
prédios que via dali do hotel, devia morar o último crítico literário do Brasil:
Wilson Martins. Pela quantidade de coisas que escreveu e continua escrevendo,
era presumível que também já estivesse em sua mesa de trabalho.
02/03/2007. No dia 20 de fevereiro, escrevi
torre de Pizza, no lugar de Pisa. É que eu estava com uma puta fome naquela hora.
01/03/2007. Que mundo apressado, sô! Sugestão
ao Ministério da Saúde: além de cloro e flúor, exigir ansiolítico no tratamento de água.