NOTAS
PARA UM DIÁRIO - 18
01/02/2007. Se o mundo só tivesse pessoas de
bom senso, que graça teria? Que graça teria o mundo sem efeito estufa,
esqueletos desfilando nas passarelas, presídios construídos em série? Ainda bem
que não chamam o Niemeyer pra desenhá-los: nós, de fora, também sairíamos
torturados.
Falando em
socialista, a alma do seco e moribundo Fidel Castro está se mudando de mala-e-cuia para as confortáveis banhas do Hugo Chaves. Já
vimos este filme.
Que adianta o
socialismo prometer sombra e água fresca a todos? O melhor da água e da sombra
sempre foi de quem chegar primeiro. A maioria acaba ficando com o rabo no sol e
a borra do pote.
02/02/2007. Matéria na Veja com Clint
Eastwood, saudavelmente conservador. Sempre sentiu uma
empatia natural por vítimas de bandidos, os quais, se
escapam vivos, têm direito de ir pra cadeia. E está certo noutra coisa: a
principal obra de um homem são seus filhos. É o material humano que no fundo
conta. O mundo, lá fora, é o que a gente consegue fazer intra muros dos filhos
da gente.
03/02/2007. BÓRIS E
DORES
Luiz Vilela de
livro novo, Bóris e Dóris
(Record, 2006, 94 páginas). Li em duas horas, enquanto esperava a fila do
Bradesco.
Conto longo ou
novela? Nossa tradição editorial, sem a permissão dos professores de teoria
literária, conseguiu rebatizar de novela o que, na verdade, seria um conto
longo, quando editado sozinho e esticado pelas artes da diagramação. A
universidade chia, mas engole a espúria nomenclatura.
Particularmente, gosto desses contos
longos alargados pela editoração, com as páginas menos pesadas de texto,
lembrando livros de poesia. É uma diagramação que ressalta a arte dos bons
escritos. Dizem que as edições de Machado na velha
Jackson — W. M. Jackson INC., pra ser mais exato — não são muito
confiáveis, mas era com grande prazer que eu lia aquelas páginas com poucas
linhas, quase apalpando palavra por palavra, numa espécie de braile mental.
O novo livro
do Vilela lembra um pouco a novela anterior do
escritor, Te amo sobre todas as
coisas: quase a mesma extensão, longo diálogo de casal encrencado, estilo
seco e perfeito. Os namorados do Te
amo agora estão casados, o que faz de Bóris e Dóris, de algum modo, uma continuação da novela
anterior.
O enredo é
tchekhovianamente discreto. Boris, sessenta anos, é
empresário, está em viagem para convenção da empresa e levou Dóris, trinta e sete anos, esposa carente e depressiva.
Quase toda a história se passa no hotel Campestre, durante o café da manhã: é a
conversa de marido e mulher, enquanto ele espera o motorista que o levará à
reunião que, presumivelmente, o consagrará como presidente do grupo empresarial.
Falam sobre
tudo: os negócios, a vida, a morte, a solidão, o casamento já operando
O livro não
tem sexo explícito, nus frontais ou traseiros, sodomizações, como costumava haver em algumas obras do Vilela. Nem uma única trepadinha, pois nosso Boris deixava sua balzaquiana exposta
a uma seca danada. E Dóris ainda não era mulher de se
jogar fora: depois de uma caminhada pelo entornos
bucólicos do hotel, vestia camiseta decotada e short curto, que bem ressaltava o
belo bumbum arrebitado que Deus lhe deu. Era como estava vestida naquele café-da-manhã, pronta para um ataque que não acontecia, pois
as baterias do nosso capitão de indústrias estavam voltadas para outros
horizontes e arrebites.
O efeito dessa
escamoteação sexual é deliciosamente machadiano: a história, com as dores da
mulher desprezada, fica imensamente mais sacana do que se tudo estivesse à
mostra. Algum maldoso diria que Vilela está na menopausa literária. Prefiro
dizer que Bóris e Dóris
é a obra mais erótica e mais madura do contista de Ituiutaba.
Há várias boas
sacadas de estilo. Como isto não é artigo de revista acadêmica, posso citar só
uma: em exatas duas linhas e meia, na página trinta e nove, Vilela mostra uma
alucinação de Dóris: “De repente, as montanhas
mexeram-se, ondularam-se e abriram-se, formando uma boca — uma boca obscena, uma
boca...” É tudo. Quantas páginas não gastaria Clarice
Lispector, genial quando conseguia controlar a verborréia, para obter efeito
parecido?
04/02/2007. Se beco sem saída tivesse direito a
uma saída ocasional, seria certamente para outro beco sem
saída.
05/02/2007. Primeiro round, resultado parcial:
Cristo expulsou do templo os camelôs. Último round, resultado definitivo: os
camelôs expulsaram Cristo do templo.
06/02/2007. Chegou brilhando essa
jóia...
Antes nem
tivesse chego:
Foi meu
presente de grego
Vindo em
cavalo de Tróia.
08/02/2007. No meio do ano, vai ter congresso
de literatura, na Argentina, sobre “narratologia”.
Quem ousou cometer pela primeira vez esta palavra assombrosa? E quanta gente
indo em cana por crimes bem menos
hediondos!
15/02/2007. O cinema substituiu o romance por
uma razão bem prática: poupa tempo. Por que levar um mês pra conhecer o final da
história? Mas ainda há os que — minoria — preferem razões mais puras e não tem
tanta pressa do desfecho. Esses vão continuar, vagarosamente, lendo romances;
com a vantagem, hoje, de poder assistir bons filmes entre um capítulo e
outro.
17/02/2007. Diálogos da sogra e da
nora.
Sogra: Por
mim, haveria pena de morte no Brasil.
Nora: A
senhora teria, pessoalmente, coragem de soltar a
guilhotina?
Sogra: Eu não.
Mas há pessoas que sim.
Nora: Só se
for outro bandido. Só um bandido conseguiria, a sangue frio, matar um ser
humano.
Sogra: Esses
bandidos atrozes são seres humanos, minha querida?
Nora (embalando o bebê): Fala pra vovó, fala.
Fala que eles poderiam ter sido seres mais humanos. A culpa é
nossa.
Sogra: Minha é
que não é, posso garantir. Que culpa tenho pela escolha errada de um outro
indivíduo? Bastam minhas culpas, que não são poucas.
Nora (de si pra si mesma): Ainda bem que a
bruxa reconhece...
18/02/2007. Quem não gosta de árvore, sombra,
água fresca e um bom romance, bom sujeito não é.
19/02/2007. Apesar de estudar Letras nos anos
setenta, mergulhado até o pescoço na matéria fecal dos estruturalistas, nunca
tive dúvidas sobre a superioridade da cultura ocidental em relação, por exemplo,
à dos nossos simpáticos e barrigudos indígenas. Mas quando estico minha suave
rede entre o cedro e a aroeira, e depois me ajeito com o romance do Manzoni pra continuar a história de Renzo, de Lucia, da senhora de Monza e do Inominado, fico
pensando como essas culturas inferiores podem ser absolutamente geniais em
certas invenções.
20/02/2007. Barra pesada ficar longe das minhas
cinqüenta árvores, espremidas nos mil metros quadrados do meu quintal. Dois ipês
roxos secaram e, com a chuvarada dos últimos meses, ressuscitaram. A suinã, toda defendida de espinhos, resolveu espichar de
repente. O mogno já ganha do poste da calçada. Tenho pena do jequitibá-rosa,
sufocado pelo abraço do pau-jacaré. A peroba-poca dá
uma de torre de Pizza pra se desviar da pitangueira. Um galho do angico-branco —
rei do quintal e suplício do vizinho — na última poda caiu sobre o araçá e o
mandou direto pra UTI das árvores. Não deu outra: também se salvou e soltou os
primeiros brotos no tronco mutilado.
21/02/2007. Quem não tem praia, se vira com
quintal. Particularmente, não troco um quintal à antiga pela praia mais
paradisíaca. A rede balança de leve. Levanto a cabeça do romance de Manzoni e olho o céu. O vento maneiro, como quem não quer
nada, na calada da sua mágica invisibilidade, vai tangendo toneladas de nuvens
pelo azul.
22/02/2007. Diálogos da sogra e da
nora.
Nora: Ai!
como suja o meu chão
Essa árvore do
vizinho!
Sogra: Mas,
querida, o teu pulmão
Fica um pouco
mais limpinho...
23/02/2007. A velha discussão sobre se Deus
existe ou não, francamente não me interessa mais. Tendo a não crer, mas invejo
bastante os crentes. E arrisco uma hipótese: o homem jamais estará
suficientemente maduro pra se emancipar de outra hipótese, a de
Deus.
24/02/2007. Rodriguinho é espírita. Na próxima
reencarnação, quer voltar grande empresário, um “capitão de indústria”, como
gosta de dizer, pois nesta mísera existência não passa de um executivo só muito
bem sucedido. E, seguindo o receituário kardecista,
toca exercer filantropia compulsória: alistou-se numa ONG que forma psicanalistas para favelados. Comprou pela internet
algumas dezenas de livros de Freud, Jung, Melanie
Klein, Reich, Lacan... Que importavam as tendências, já que não eram mesmo pra
ler? Se lesse, não pescaria nada: não só por Rodriguinho entender exclusivamente de economia e
administração, mas porque psicanálise não foi inventada pra ser compreendida,
mas acreditada. E todo domingo, nosso kardecista de
luxo pegava o caminho da roça, ou melhor, da periferia e submetia desesperadas
mães de drogados e traficantes a meia dúzia de perguntas altamente inteligentes.
Não entendia nada do que dizia, elas muito menos, mas
ficavam felizes pois tinham falado com um doutor cheirando a Boticário ou
Natura, vestido e calçado com as melhores grifes do pedaço. Na verdade vos digo:
ele saía ainda mais feliz que elas, pois cada barraco visitado era um degrau a
mais no seu sucesso espiritual.
25/02/2007. Nietzsche anda muito endeusado. Hora
ideal pra assassiná-Lo... Não foi ele mesmo que deu o
exemplo?
26/02/2007. Diálogos da sogra e da
nora.
Nora: Mário
Quintana é muito apolítico pro meu gosto. Sou mais Drummond ou
Cabral.
Sogra:
Política, meu bem, acaba com o artista. Ele só deve fazer política no sentido
lato, ou seja, mostrar o mundo como ele é. Um “como ele é” não do jeito que
aparece no realismo, que não vai além da casca do ovo. O verdadeiro artista
quebra o ovo e exibe a gema: o sol da verdade...
Nora (dando de mamar ao bebê): Fala pra vovó,
fala. Fala que ela anda muito metafísica...
27/02/2007. O passarinho morria no pátio da
garage. Deitado de costas, tremia com incrível velocidade as patinhas: era o
velho hábito das asas transferido para o lugar errado. A morte muda todas as
coisas de lugar.
Diabo! Era
justo que houvesse uma UTI dos passarinhos. Se até os bandidos mais bestiais,
quando mortalmente baleados pela polícia, têm direito a unidade de tratamento
intensivo...
Fico
imaginando, neste último caso, a vontade dos médicos de dar uma relaxadinha na
coisa, tratando a fera humana com um pouco menos de intensidade. O mundo não
sentiria nenhuma falta do incidadão; só o médico
plantonista — na hipótese de não ser bandido também — é que carregaria pelo
resto da vida o peso pesado do remorso. Oceanos de Johnny Walker não resolveriam o problema
do infeliz.
Este é o maior
mistério do mundo: qualquer pessoa é
gente, e o animal mais gente-fina continua animal.
28/02/2007. Triste fim teve o Benício. Era o policial mais durão da cidade. Certa vez,
quebrou os dentes do promotor, que vivia implicando com seu descaso pelos
direitos humanos dos ladrões de galinha, únicos bandidos da época.
Tinha um
pastor-alemão e com ele passeava sempre pelas ruas de Canaviais: foi pioneiro na
moda atual de dar voltinhas com cães.
Temido por
todos quando de farda, desfardado era a mais dócil das
criaturas. Sei disso, pois fui seu colega de curso ginasial no Instituto
Educacional José Olympio — eu com quatorze ou quinze anos, ele com mais de
trinta. Tinha enfiado na cabeça que ainda seria juiz de direito, certamente pra
olhar de cima o promotor que o perseguia. Pegou o diploma ginasial, com muito
custo o colegial e parou por aí mesmo: não tinha grana pra cursar direito em
Sapatópolis.
Como não vivia
fardado o tempo todo, sobretudo em casa, foi um dia socado pelo casamento. A
mulher o trocou por um alfaiate de Fornópolis e ele
ficou sozinho com o pastor. Não houve farda que desse jeito nos cornos, nem
punho de aço que quebrasse os dentes da solidão.
Virou
colecionador diário de litros de aguardante. E era
inevitável: o pobre Benício acabou nocauteado por um
processo administrativo. Hoje vive da aposentadoria por invalidez e morre
lentamente de cirrose no Asilo São Vicente de Paula.