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NOTAS PARA UM DIÁRIO - 17

 

 

 

01/01/2007. A alma do Natal/ É o cheque especial.

 

 

02/01/2007. Não gosto de pegar bebê no colo: parece que vai dar choque.

 

 

03/01/2007. O Brasil é uma abstração. Quando atravesso a Mantiqueira e piso em Minas, já me sinto no estrangeiro. Mais perto da realidade, somos paulistas, gaúchos, mineiros, baianos etc., que também não deixam de ser categorias abstratas, abstrações para uso geopolítico. Estou quase dizendo que meu país sou eu — e eu... mais súdito que rei d’eu mesmo.

 

 

04/01/2007. Se houvesse eleição para votar em novo hino nacional, juro que votaria no “Samba do crioulo doido”, de Sérgio Porto.

 

 

05/01/2007. Há mais eloqüência num pequeno filme mudo de Buster Keaton que em todos os filmes brasileiros somados e multiplicados.

 

 

06/01/2007. Não sei que graça enxergam nesse João Gilberto. O único disco suportável dele é o Amoroso, graças à orquestra de Claus Ogerman, que completa o que falta na voz do sussurrador baiano. A intimidade da interpretação de J. G. chega a ser anti-higiênica: nalguns momentos, a gente ouve a circulação de saliva na boca.

 

 

07/01/2007. Há cem anos nascia Marques Rebelo. É autor de um livro fundamental, Contos reunidos, com as três obras que deixou no gênero: Oscarina, Três caminhos e Estela me abriu a porta. Fez também alguns romances, o maior deles O espelho partido, romance-rio que ficou incompleto. Já foi muito lido, mas hoje o pessoal prefere outras coisas. Rebelo não era de esquerda, não fazia experiências radicais com a linguagem, embora fosse obsessivo na rescrita, nem se preocupava com as questões ditas metafísicas. Era só um grande prosador, com bom conhecimento da alma humana e uma virtude que hoje parece condenável: sutileza. Temperava pessimismo com humor, na linha de Machado. A universidade o ignora. Quando não, desdenha-o.

 

 

08/01/2007. Salvai-nos dos psiquiatras, senhor deus dos poetas! Folheando o livro de Peregrino Junior sobre as doenças do Machado, descobri que o apego a minha cidade tem nome científico: gliscroidia. Pelos ouriços da palavra, não deve ser coisa muito boa, não. E eu que sempre pensava que fosse filosofia de vida...

 

 

09/01/2007. A velha tia, viúva há alguns anos, não perde um baile da terceira idade. Continua divertida:

— Minha música preferida pra dançar é o “Besame murcho”...

 

 

10/01/2007. — A pessoa que mais amei no mundo foi minha mulher — disse um viúvo perfeitamente normal. — E a que mais odiei também.

 

 

11/01/2007. O nordeste mudou-se para São Paulo? Conseqüência literária: todo escritor paulista acaba de ser automaticamente promovido a escritor nordestino. Pelo menos, tem mais futuro literário, sobretudo na universidade. Só falta um prêmio Carne Seca para o livro do ano ou conjunto de obra.

 

 

12/01/2007. No Paraná e em Santa Catarina a gente ainda encontra aquilo que era marca registrada de São Paulo antes da invasão dos baianogodos: povo frio e cidade limpa (que, cá entre nós, é minha utopia para assuntos geo-sociais). No “vou-me embora” bandeiriano eu botaria Suíça em vez de Pasárgada. Sem remorsos.

 

 

13/01/2007. Essa civilização sulina também está com dias contados: num troca-troca com o governo do Paraná, o Lula fez um presídio de segurança máxima em Catanduvas, povoado perto de Cascavel e Foz do Iguaçu, e inaugurou-a com Fernandinho Beira-Mar, nome de pagodeiro que também é perfeita redondilha maior — tragédia sempre acaba em música. Que aconteceu depois? Os familiares do bandido se mudaram pra Cascavel, comprando várias mansões no bairro mais “nobre” da cidade. Ouvi dizer que mais doze bandidos perigosos do Rio, com a respectiva entourage, já se mudaram pra lá. Com Fernandinho’s family & Cia., Cascavel vai recuperar a peçonha que tinha até a década de quarenta, quando ainda era sertão sem veredas, Mata Atlântica cheia daquelas lingüiças gordinhas com grampeador na boca.

 

 

14/01/2007. Item número um na Lista do Tédio: aniversário de criança.

 

 

15/01/2007. Sogra não gosta de nora porque a história é cíclica: já sabe o que o mulher do filho vai aprontar com o filho da mãe.

 

 

16/01/2007. Em nome da dona Dignidade Humana, o socialismo cometeu as maiores iniqüidades. Em defesa do lobo, o capitalismo fez muito mais pela espécie que anda de pé.

 

 

17/01/2007. Mulher: tropa-de-elite disfarçada de território conquistável. O feminismo foi o fósforo aceso na trincheira, chamando a atenção do outro lado.

 

 

18/01/2007.  Mora na filosofia

Do pensador:

Amor só pode

Rimar com dor.

 

 

19/01/2007. Educar filhos é guerra como qualquer outra. Geralmente os pais sobrevivem, mas com seqüelas.

 

 

20/01/2007. Sou máquina muito imperfeita. Exemplo: não consigo acreditar em Deus.

 

 

21/01/2007. Do jeito que anda o futebol, mais interessante acompanhar as brigas internas dos clubes que assistir às partidas.

 

 

22/01/2007. O piano de Debussy

Só um pouco desafinado

Me incomoda muito mais

Do que um rock bem pesado.

 

 

23/01/2007. Estoicismo: aceitar serenamente a dor... alheia.

 

 

24/01/2007. Exijo, como bom brasileiro, o direito de votar pra presidente dos EUA.

 

 

25/01/2007. Woody Allen faz humor inteligente: tira um sarro legal do existencialismo, da psicanálise, do marxismo, do capitalismo etc. Os irmãos Marx estão além da inteligência: praticam a irreverência pura, sem necessidade de justificar-se além da própria condição humana.

 

 

26/01/2007. Língua de trapo era o Eduardo Frieiro. Seu Diário é leitura divertida e edificante, apesar do humor capenga. Não poupa o Ciro dos Anjos e o Marques Rebelo, por tirarem vantagens pessoais da fama literária e da amizade com políticos. Este último, meio amulatado, sofre mais na unha do diarista.

 

 

27/01/2007. Ciro dos Anjos era escritor confessional. Conjugava melhor a primeira pessoa do singular. Dos três romances que escreveu, só dois valem a pena: O amanuense Belmiro e Abdias, onde os protagonistas são porta-vozes do escritor. Montanha, em que tentou sair de si mesmo para o painel de época, fracassou, salvando-se o livro pelo diário íntimo de uma personagem feminina.

Liberal em política, cético em religião e filosofia, Belmiro era uma machadiano, não poupando o marxismo e o tomismo. O ceticismo leva ao absenteísmo, e era natural que o personagem fosse cada vez mais isolando-se, até chegar às belas páginas finais do romance, em que a solidão parece adquirir aspecto alegórico: como não isolar-se numa época de partidos e de indivíduos partidos?

 

 

28/01/2007. Prefiro a pintura que hesita entre o figurativo e o abstrato. Uma certa sugestão de realidade, física ou psicológica — e um bom tanto de liberdade na textura, na paleta, na composição. Sem cair no caricaturesco, que é coisa de gibi. Nesse sentido, Turner está na ordem do dia. Por que não Corot? O tempo passa, mas Cézanne nunca envelhece. No Brasil, meu gosto vai em primeiro lugar pra aquelas marinhas quase abstratas do Pancetti, que estão entre as coisas mais bonitas que já vi na vida — se ganhasse sozinho na loteria em que nunca aposto, ia correndo atrás de todas elas.

 

 

29/01/2007. Saio hoje do meu quintal, no nordeste paulista — cada vez mais parecido com o outro nordeste, o das vidas secas —, para recomeçar o exílio a trezentos e cinqüenta quilômetros daqui, no oeste do mesmo estado. Meu quintal tem um angico branco onde berra a maritaca — mas juro que os outros passarinhos daqui gorjeiam melhor que os de Assis: a terra da gente tem uma acústica mais favorável, que começa no meio ambiente e termina na alma.

Sou exilado voluntário, ninguém me obriga a isso.

Mas também não vejo mais diferença entre a cidade onde tenho meu quintal e aquela aonde vou trabalhar, se é que este verbo solene serve pra indicar a modesta ação dos que falam de literatura a sonolentas turmas de moças casadoiras que mal sabem escrever o próprio nome.

Aliás, a cidade do exílio até leva alguma vantagem sobre a do meu quintal, pois é nela que, funcionário público, abasteço regular e mensalmente a conta bancária. Pelo menos o denominador comum das duas cidades já é o mesmo: bandidagem no sentido lato.

Sempre haverá razões nobres pra alguém exilar-se. A minha razão está entre as mais nobres de todas: dinheiro. Sem ele, como comprar livros?

 

 

30/01/2007. No entendo porque a maioria prefere os extremos: o caminho do meio sempre foi mais gostoso.

 

 

31/01/2007. Não tenho mais cidade. Tenho um quintal. Na cidade do meu quintal choveu o mês inteiro. As almas ficaram úmidas e emboloradas. Agora sei o que é prisão domiciliar. Reli Vidas secas só pra consolar da chuva — e consolou. Invejei sinceramente o conciso Fabiano, a caatinga enxuta, o céu azul de vidro. De romance de denúncia, Vidas secas passou a romance utópico.

Finalmente cheguei na cidade do exílio, e faz um sol estupendo, desses de rachar mamona. Estendi depressa a alma ao sol pra secar.

“Céu nublado, em terra da gente, brilha bem mais que sol de exílio”, eu poderia dizer, se quisesse continuar mentindo em versos. Mas já estou um tanto crescido pra isso.

Viva o sol. Viva o exílio. Viva, enfim, o ansiolítico que torna mais suave a transição do quintal de Batatais, com minhas cinqüenta árvores, para o apartamento de Assis — de onde avisto toda noite o presídio da cidade e suas luzes delituosas.

 

 

 

 

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