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NOTAS PARA UM DIÁRIO - 16

 

 

 

01/12/2006. Para o bem da tua cama e da tua mesa, ama a próxima mais do que a ti mesmo. Pelo menos nos primeiros meses: é o quanto dura um relacionamento sadio. Depois vai atrás da próxima, ou seja, da seguinte. Marques Rebelo disse, uma vez, que o casamento é o estado ideal do homem: devia casar-se todo ano.

 

 

02/12/2006. Todo dia, pela manhã, o baixinho está na esquina. Mulato, careca, quase gordo, está sempre de braços cruzados e vestido como quem vai para o culto. Em geral imóvel, parece uma estátua do Buda. De vez em quando, gira discretamente o pescoço para o lado que melhor solicitar uma resposta automática: uma freada súbita, um avião no céu, um grito de criança. Será a coruja vigilante dos gregos? Quando a gente passa por ele e olha para cumprimentar, ele esboça um sorriso tênue — e mais nada. Se, por capricho, a gente cumprimenta com ênfase, ele responde com superior má vontade.

Deve ser um filósofo — e ainda não fui avisado.

 

 

03/12/2006. Passo rápido pelo carro, mas consigo ler o que estava escrito no vidro traseiro: “Neste carro viaja um anjo — Rodrigo”. Como não ler, se as palavras tomavam quase todo o vidro? Calculo que deve ter só alguns meses de vida. Usa fraldas, certamente. Chorará esgoelado pelas razões mais diversas: de uma reles vontade de comer a uma pungente dor de barriga. Enfim, estamos falando de um bebê. O bebê Rodrigo. Ou melhor, o anjo Rodrigo, que já nasceu público e em público deverá encenar os principais atos de sua comédia humana.

Fico torcendo para que Rodrigo, um dia, recuse tudo isso e feche a porta da privada.

 

 

04/12/2006. Como pôde um comediante tão refinado como Deus ter tido um Filho tão trágico?

 

 

05/12/2006. Paciência de não significa mais nada às novas gerações sem passado. Mas fale-se, por exemplo, em paciência de fila de Bradesco. Quem não receberá na cara, de súbito, o soco do entendimento?

 

 

06/12/2006. Minha mãe ficou nove meses doente de gravidez para que eu nascesse. De certo modo, eu também fazia parte de sua doença. Enfim, nasci; e minha boa mãe sarou. Estou em convalescença até hoje, cinqüenta anos depois.

 

 

07/12/2006. Os formadores de opinião são agora de esquerda, como um dia já foram de direita. Quando o vento ajuda, criam a opinião pública que querem. Hoje, o ideal de leitor que sai dessa linha de produção é o politicamente correto, e as editoras — não, certamente, por escrúpulos “políticos” — usarão esse critério na escolha dos originais (exceto se o escritor politicamente incorreto, cada vez mais raro, já tiver seu pequeno público cativo).

Formar opiniões é o que a literatura menos deseja, preferindo antes abalar convicções apressadas e preparar o terreno da alma para idéias menos comprometidas com o aqui-agora. Quando a literatura fica “correta”, está certamente em agonia.

 

 

08/12/2006. Ligo o rádio para melhor tolerar a paisagem da soja e sintonizo a emissora de uma universidade do norte do Paraná. Entrevista com um cantor/compositor dito alternativo. Tudo para ele era super. Quando tinha uma superinquietação, ou uma superangústia, ficava superinspirado e ficava supergrávido de uma supercanção. Que voz superdelicada tinha o supercantor!

Fiquei superfurioso. Desliguei o rádio e voltei à soja.

 

 

09/12/2006. Se ainda tinha alguma dúvida quanto ao caráter progressista do Paraná, ela desmoronou de pronto quando passei pela ponte do riozinho e lá estava escrito, na placa verde: Rio 119.

 

10/12/2006. Em Puerto Iguazu, o moleque viu meu carro com chapa do Brasil e veio correndo até o sinaleiro para vender doces argentinos. Ajuntei na hora umas palavras castelhanas, de mistura com sotaque caricatural de tango:

— Yo no tengo moneda, niño!

Minha fraude deve ter funcionado, pois me tomou por um dos seus. E me olhou com um sorriso maroto, respondendo, veloz, na mais castiça gíria de Puerto Iguazu. Entendi tudo... Balbuciei um “gracias” muito sem graça e continuei viagem.

Nunca me senti tão lingüisticamente excluído na vida.

 

 

11/12/2006. As cataratas do Iguaçu são tão belas, que os japoneses e argentinos que me acompanham na descida à Garganta do Diabo ficam milagrosamente invisíveis. Não temos tempo para eles. E não só no sentido figurado: a poeira d’água que vem das quedas os envolve numa permanente cortina de seda. Japoneses e argentinos embalados na mais pura seda paranaense...

 

 

12/12/2006. Cascavel, cidade de ítalo-caipira enriquecido, é uma das últimas do oeste paranaense, antes de Foz do Iguaçu. Estudiosos da estética kitsch teriam, aqui, fartura de material. Mas estudiosos só sabem escarnecer do que estudam. E Cascavel é para ser degustada em seus mínimos condimentos.

Se eu tivesse uma filmadora, não perderia a escultura do calçadão central: um grotesco dedo polegar composto de centenas de dedos menores. Faria umas tomadas rápidas de prédios do centro, não poucos, que têm uma coisa em comum: a cor escura. Um deles é todo tatuado de araucárias. Os dois mais altos, um de frente ao outro, o world trade center de Cascavel, têm a cobertura longamente inclinada. Faria depois uma panorâmica da catedral de Nossa Senhora Aparecida, cujo telhado dizem imitar o manto ondulado da santa. E um close na escultura ao lado: um par de mãos, com alguns metros de altura, segurando a imagem da padroeira do Brasil. Tomara que essas mãos nunca se convertam à seita do bispo Macedo.

Outra particularidade de Cascavel: nalgumas esquinas, em rua de mão única, o motorista pode optar por duas modalidades de redução de velocidade: passar devagar sobre grandes tartarugas de cimento ou, ao lado, ziguezaguear entre duas fileiras em “s” das mesmas tartarugas gigantes. Um trânsito democrático, pluralista, multicultural. E da maior liberdade: nunca vi maior desrespeito a essas regrinhas tolas que tanto atrapalham o motorista apressado.

No bairro simples onde fiquei, as ruas são largas e as calçadas não menos. São tão largas que, numa delas, o caminhoneiro ali estacionava o seu gordo caminhão. Os terrenos são de quinze por vinte e cinco metros e as casas, sempre avarandadas, estão assepticamente no centro — ninguém acotovelando ninguém.

Está cercada de soja e milho, depois que a extração de madeira levou embora as árvores nativas da mata atlântica. Milagrosamente, a área urbana está cheia de pequenas matas. A maior delas fica no centro da cidade: foi transformada em parque municipal e é sede do exército. Em volta da grande represa, é possível caminhar seis quilômetros por uma pista cimentada, quase sempre sob árvores e com capivaras tranqüilas ao lado, suportando-nos estoicamente.

 

 

13/12/2006.  — Não se preocupem com as passagens obscuras das obras. O belo deve ser claro — disse De Sanctis.

Com o que Bergson concordou de pronto, levando a conversa para a sua área:

— Qualquer idéia filosófica, por mais profunda ou sutil que seja, pode ser dita na linguagem de todos.

Ortega não deixou por menos:

— A clareza é a cortesia de quem pensa.

 

 

14/12/2006. Errata bíblica: Jacó serviu Lobão.

 

 

15/12/2006. O último herói da esquerda foi Che, o pop-quixote da motocicleta. Faltou-lhe um Sancho para lembrar que o destino das massas operárias, depois da barriga cheia, era a porta automática do shopping. Quem quiser, hoje, morrer por idéias, o que acho pouco recomendável, só se for pelo “espírito” — a única coisa verdadeiramente ameaçada pela época e que o pessoal prefere chamar de “cultura”.

 

 

16/12/2006. Acordei, no meio da noite, com o barulho martelado e eletrônico de alguma festa. Devia ser longe daqui, mas era como se fosse no apartamento vizinho. Impossível dormir com aquilo. Então levantei e liguei para o Dom Quixote. Sancho atendeu e disse que o patrão não mexia mais com essas coisas. Me bateu o fone na cara.

Voltei para a cama. A barulheira era tanta, que me ocorreu uma solução mais radical: o Bush. Liguei para a Casa Branca e, para minha surpresa, o próprio presidente atendeu (depois do Iraque, nunca mais conseguiu dormir). Expus a ele o problema. Informou que a agenda da América Latina estava carregada demais, com pedidos de socorro da Venezuela e agora da Bolívia. Prometia estudar o assunto com carinho e retornar quando possível.

— Mas é urgente! — implorei. — Um míssil teleguiado resolveria na hora. É um lugar cheio de terroristas, de fundamentalistas.

Disse que a coisa não funcionava assim. Havia necessidade de estudos preliminares, etc.

— Tem poço de petróleo aí por perto? — ele quis saber.

— Ouvir dizer que sim, presidente — me lembrei do Maluf e da Paulipetro. — Vale a pena investigar.

— O pedido está anotado, my friend. Quando houver disponibilidade...

— Mas aí a festa já acabou. Eu preciso dormir agora, presidente.

— Os terroristas farão outras festas, pode ter certeza. Se ficar comprovado que elas ameaçam a segurança do ocidente, não hesitaremos: Bush nelas! Enquanto isso, tenho uma relação de ansiolíticos que podem mascarar o seu problema. Quer anotar aí?

 

 

17/12/2006. Entre outras coisas, a felicidade pressupõe o fim da vizinhança compulsória.

 

 

18/12/2006. (Para o filme mudo das férias). O sujeito arma a rede no quintal com o maior cuidado e, quando deita para ler, os cachorros aparecem. Espanta-os, eles voltam. Espanta-os, eles voltam. Espanta-os, eles voltam, etc.

Entra em casa e pega o spray de passar roupa. Deita-se outra vez. Quando os cachorros reaparecem, aperta o esguichinho. Problema resolvido.

Recomeça a ler.

Mal acaba de entrar no clima do romance, a mulher grita lá de cima:

— Telefone!

Anda quase cinqüenta metros para atender a vendedora de cartão de crédito. Putzgrila, como diria Goethe. Atende, pedindo de cara para a moça o procure na esquina. E desliga. Entenda-se: bate o fone.

Volta à rede. Ou melhor, estava começando a voltar, quando a mulher passa-lhe o maço de cordinha de varal. Ela queria aproveitar bem o sol para secar as roupas úmidas da família, pois fazia tempo que não aparecia um verão tão chuvoso.

Ele estica irritado a cordinha e depois desce ao quintal.

Quando chega, já está batendo sol na rede — e toca pesquisar outra área umbrosa, ou melhor, sombria, pois combina mais com seu estado de espírito. Encontra-a, pois o quintal é grande e cheio de árvores.

Então o sujeito, com o maior cuidado, arma a rede no novo lugar e deita para ler. Mal acaba de entrar outra vez no clima do romance, sente os primeiros pingos da chuva.

 

 

19/12/2006. “É bom onde não estamos”, diz um ditado russo. É para lá que eu sempre quis ir.

 

 

20/12/2006. Papai tinha uma loja e mandava toda a papelada para um escritório de contabilidade. Apesar de úteis para o negócio paterno, nunca vi com simpatia os contadores, sobretudo os que se formavam na Escola do Comércio, que funcionava no prédio do velho Grupo Escolar Washington Luís.

Hoje, para sobreviver no meio de tantos boletos, virei contador de mim mesmo. Só espero não ser espiritualmente influenciado por minha nova atividade.

 

 

21/12/2006. Nunca desprezo um sebo, por mais insignificante. Em Cascavel, oeste do Paraná, passei em frente de um sebo que não prometia nada e entrei, cético e ao mesmo tempo esperançoso. Faz parte do pesquisador de sebos esse ceticismo meio esperançoso.

Encontrei o quê, dessa vez? Na reduzidíssima prateleira de poesia, lá estava, na edição da José Olympio, a versão de Octávio Tarquínio de Souza para o Rubáyyat, de Omar Khayyám (nunca acerto de memória a ortografia). Folheei esse livro na adolescência, em exemplar da biblioteca de Canaviais, e depois o perdi de vista, suficiente no entanto pra sentir que o vinho era bom, e boas as garotas persas do poeta Omar.

Mas já o tinha reencontrado alguns meses antes, neste mesmo 2006, quando comecei a ler, por gentileza do autor, a tradução que o poeta Luiz Antonio de Figueiredo fez da célebre tradução inglesa de Edward Fitzgerald.

Com as sábias lições omarianas, entro mais confiante em 2007.

 

 

22/12/2006. A memória é uma das principais qualidades do homem. Talvez a mais importante, só perdendo mesmo para o esquecimento.

 

 

23/12/2006. O filme pode ser mais emocionante que o romance, mas um bom romance é sempre mais inteligente que um bom filme. Que camera-stylo conseguiria estudar o maquivelismo amoroso como fez Stendhal em O vermelho e o negro?

 

 

24/12/2006. Para a universidade, quase não há mais escritores, mas produtores de textos. É sério! Basta entrar numa sala de aula e conferir. Inventou-se até uma disciplina com o nome de “leitura e produção textual”. Logo os teóricos da literatura vão falar em linha de montagem, automação da produção, e em vez de, por exemplo, História da Literatura Francesa, teremos uma espécie de Sucatão da Produção Literária Francesa, onde se aglomerariam velhas máquinas enferrujadas da marca Rabelais, Racine, Molière, Voltaire, Stendhal, Balzac.

 

 

25/12/2006. A verdadeira misantropia só pode ser plenamente exercida pelos ricos. Jobim visitou Sinatra no sítio do cantor e gostou muito. Quis saber o segredo da beleza e do sossego. O Nelson Gonçalves dos americanos (maldade do Tinhorão) respondeu:

— Chamei um corretor e lhe disse que queria um lugar perfeito, nem quente nem frio, com muitas árvores e de onde não se avistassem os vizinhos.

Beethoven também preferia árvores a seres humanos. Dá pra contestá-lo?

 

 

26/12/2006. O “amai-vos uns aos outros” é um belo projeto moral, mas utópico. Mais perto da realidade seria “respeitai-vos uns aos outros”, praticável quando todos estiverem armados até os dentes, de preferência com leis.

Perto de casa há um serralheiro ilegal, embora o bairro seja pra morar e a lei bastante clara. Vi sair ontem de sua oficina um enorme e pesado portão recém fabricado, desses imponentes e horrorosos portões de garagem, de chapa grossa de ferro, com duas estrelas vazadas em pontos simétricos e com a costumeira tinta vermelha de fundo (que costuma provocar enxaquecas na vizinhança).

Foi uma saída verdadeiramente épica: tinha a voz de comando do serralheiro, braços operários obedecendo à voz, e o treco majestoso ganhando lentamente a rua, onde era aguardado por uma soberba carroceria de caminhão.

Merecia um painel de Siqueiros ou uma abertura de Verdi tocada por banda da praça.

 

 

27/12/2006. Depois de Kierkegaard e Fernando Pessoa, ninguém precisa corar com as próprias contradições. Acredito seriamente que as canções populares que permanecem são as que o povo continua cantando, as perfeitamente certinhas e redondas, como “Luar do sertão”, “Maringá”, “Carinhoso” (que na época foi até acusada de jazzística). Não confundo povo com povão, que é grotesca caricatura daquele. “Chega de saudade” é música de intelectual, para ser ouvida em ampla sala à Niemeyer, decorada por Mondrian (o que, confesso envergonhado, tem lá o seu charme). Do Jobim, de sua lista de cantáveis, meu lado popular vota em “Se todos fossem iguais a você”.

 

 

28/12/2006. Na natureza não existe mal, que é subproduto muito criativo do livre-arbítrio, junto com o bem.

 

 

29/12/2006. Compro no sebo uma tradução de Os noivos, de Manzoni, feita por um certo Raul de Polilo. Não conheço o cidadão. A edição é da velha Jackson, famosa por estropiar Machado. E machadiana é a própria tradução, no sentido menos recomendável da palavra: mais rococó que clássica. Só Machado conseguiu a proeza de ser um bom machadiano, e mesmo assim quando o foi.

 

 

30/12/2006. Se árvores falassem, xingariam toda vez que um carro estacionasse em sua sombra.

 

 

 

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