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NOTAS PARA UM DIÁRIO - 15

 

 

 

01/11/2006. Sempre achei o Cristo um pouco exibicionista. Como todo político, aliás. Sua humildade gostava de subir ao palco. Nunca consegui encaixar direito, no enredo dos evangelhos, a cena da expulsão dos camelôs. Por que não deu a outra face também aos vendilhões? Sua tragédia — um dramalhão de circo para ser representado na Semana Santa.

O verdadeiro Cristo nasceu na Itália, mais de mil anos depois, numa pequena cidade da Umbria. Atendia pelo nome de Francisco, mas não se incomodaria se o chamassem de Chiquinho. Separou-se da jovem Clara para se casar com a senhora Pobreza, a quem amou profundamente. A auto-negação, proposta pelo Cristo, só nele atinge sua realização completa.

Cristo foi o primeiro grande precursor de Francisco. O seu mais imediato profeta.

 

 

02/11/2006. Dia de finados.

Deixemos em paz o pó.

Por que tanto visitar

Os mortos neste lugar?

A morte é uma coisa só.

 

 

03/11/2006. Agora, aos cinqüenta anos, entendo melhor o verso do Drummond: “Na curva perigosa dos cinqüenta...” Se tiver de mudar alguma coisa, que seja agora, quando a adolescência vai comicamente chegando ao fim.

 

 

04/11/2006. Num dos seus últimos filmes, Hollywood ending, Woody Allen faz um diretor que, perdendo repentinamente a visão, é obrigado a dirigir cego. O filme fica uma porcaria, desagrada Hollywood, mas cai nas graças da crítica francesa como brilhante realização do cinema de vanguarda. Douce France!

 

 

05/11/2006. O regime de Fidel Castro tem todos os problemas de uma ditadura “rouge”. Ao mesmo tempo, é uma espécie de museu vivo do comunismo histórico. É e não é. Continua sendo, mas já deixou de ser muito, muito tempo.

 

 

06/11/2006. Na drummondiana e perigosa curva dos cinqüenta, derrapei na mais cruel das evidências: o tempo passa, sim, mas sobre nós.

 

 

07/11/2006. Mais preocupadas com a regularidade do salário e das ejaculações que com a coerência das idéias, as pessoas ditas cultas fazem questão, hoje em dia, de apoiar sua frágil noção de felicidade no marxismo e na psicanálise, base teórica que tem a solidez da espuma e durabilidade do vento: aquela espuma das águas poluídas do Tietê, aquele vento que traz a fumaças das chaminés de Cubatão.

O marxismo, no melhor dos casos, deixa tranqüila a consciência de quem ganha mais. No pior, é puro ressentimento, inveja de quem é mais esperto. E a psicanálise, mais ficção que ciência, administra as puladinhas de cerca das madames, ajudando-as a pecar sem tanta culpa.

 

 

08/11/2006. Descobri que o adoçante ideal da laranjada comum é uma laranja-lima. Uma laranjada docemente incestuosa.

 

 

09/11/2006. Nalgum momento do século passado, a Lingüística fez uma visitinha à Crítica Literária e não saiu mais. Veio para um café, ficou para a janta, pernoitou. Depois, com um pé no traseiro, mandou a dona da casa passear e ficou incomodando a vizinhança com aquela semiótica na maior altura.

 

 

10/11/2006. O reescritor é um Dédalo tentando desemaranhar-se do próprio labirinto.

 

 

11/11/2006. Primeiro, o homem deixou de ser um animal qualquer. Depois aprendeu a calcular. E o animal que calculava passou a atender pelo nome de animal-racional, mantendo da besta o que era necessário para viver e da razão o que lhe permitia sujeitar o mundo.

 

 

12/11/2006. Se for isto o que chamam por aí de pluralismo, engolir a seco a incômoda vizinhança dos milhões de brasileiros que reelegeram Lula, depois de tudo o que foi parar na justiça contra os imediatos do reeleito — se for isto, eu não sou pluralista. De algum modo, o voto secreto torna possível essa vizinhança ignóbil, por mais que ela ameace aquele mínimo de civilização necessária para conviver com quem pensa diferente.

Pensar diferente, tudo bem. Mas sobre uma base comum de resignação às leis que estão aí, boas ou más. Democracia, com todos os seus limites, só funciona assim. Nada contra um político se recandidatar sob suspeita, pois qualquer um pode ser vítima de calúnia, mas daí a ser reeleito nessa condição vai uma boa distância, aquela entre o céu e a terra, cheia de coisas que nossa vã filosofia política ainda tenta entender.

É o maquiavelismo do povo, ainda sem condições de pensar em idéias morais enquanto não enche a barriga de idéias culinárias. É o maquiavelismo dos empresários, de algum modo contentes com a economia do Palocci, referendada pelo próprio Delfim Neto. É o maquiavelismo da parte “ilustrada” da classe média, “formadora de opinião”, para quem só comprando mesmo os deputados da direita para aprovar os projetos redentores da esquerda.

Sem falar do voto simplesmente ingênuo, que não é minoria no Brasil.

 

 

13/11/2006. As noivas, vestidas de maio, ignoram as folhas secas do outono, o vento frio nos caixilhos, a massa de ar seco que vem do Atlântico, etc. Compreendo a alegria das mulheres no discreto carnaval das bodas, mas como os ritos são cansativos! Já disse que detesto botar gravata, filha. Não insista, por favor. O padre, com voz de bicha, é o campeão dos clichês. Casamento devia ser um bolo só pra dois, sem platéias com inveja, nem álbum de fotografias congelando o minuto volátil. Os poetas é que deviam oficiar casamentos: sem perguntas constrangedoras, diriam as palavras fundamentais e depois mandariam os noivos para a cama.

 

 

14/11/2006.  Todos tem direito a um ponto de vista. É só não morrer de amores por ele.

 

 

15/11/2006. Seria interessante uma história das coisas que, ao longo do tempo, não podiam ser ridicularizadas. Deviam ser as coisas mais ridículas. Uma história assim seria o mais cômico de todos os livros, mesmo se escrito pelo mais sisudo dos historiadores.

 

 

16/11/2006. De um soneto, à maneira de Antero, que praticamente empacou no primeiro quarteto:

“Com minha alma filtrada de mim mesmo,

Limpo de fatos e de contingências,

Vaguei um século sozinho, a esmo,

No país silencioso da essências...”

Depois tombei, fragorosamente, numa segunda-feira prolixa e braba, sem o menor direito a sonetos e rimas. A poesia é insuportável sem os higiênicos subentendidos da elipse, ao contrário da natureza, essencialmente hiperbólica, pleonástica, disentérica. Um possível fecho foi escrito logo depois da quadra e ainda está esperando pelo miolo, decassílabo nas regras da arte, mas de imagem batida — “Quanto mais denso o breu, mais arde o fogo” —, que tanto poderia sugerir o poder das bimbadas como das idéias.

Quem pode mais? Bimbadas ou idéias?

 

 

17/11/2006. Calor nunca combinou com vida civilizada. Como era possível abanar e ler ao mesmo tempo? Daí o superficialismo dos cariocas. Machado, no fundo, era mineiro. Quando esquentava para valer, o silogismo dos cariocas não ia além da premissa maior. E como não há premissa maior que o mar...

Salve a tecnologia e o ar condicionado.

 

 

18/11/2006. Na época em que os gêneros literários diminuíram de tamanho (minipoema, miniconto, minitudo), só a crítica tomou o caminho oposto. É reflexo do estado real das coisas literárias.

 

 

18/11/2006. Nunca fui a Veneza. Não sei o que é passear de canoa num daqueles canaletos decadentes. Jamais provei um capucino na Piazza San Marco. Desconheço as infinitas nuanças do poente sobre a água do Grande Canal. Só posso ver a ponte do Rialto, os palácios d’Oro e Ducale, a basílica de San Marco, a igreja San Giorgio Maggiore, quando abro um volume da Mirador ou da velha e sebenta Delta Larousse. Ou quando folheio um álbum de pintores da Escola de Veneza. Ou quando digito o nome da cidade, no Google, e clico em imagens: o monitor enche-se magicamente daquelas paredes, daquelas águas, daquelas cores, de mistura certamente com muitos vírus eletrônicos.

 Mas é tanta vontade de ir, que já convivo há muito com uma coisa parecida com saudade. A saudade daquelas coisas que a gente conhece bem só de pensar nelas. Faz tempo que penso em Veneza: desde a infância, quando a bisavó Cesira — que nasceu ali perto — falava numa estranha cidade na qual as ruas eram substituídas por rios. Imagine-se o que a imaginação infantil não faria com uma idéia dessas!  

Qualquer agência de passagens me financiaria Veneza em suaves prestações mensais de Casas Bahia. Por que não largar mão dessas virtualidades ultrapassadas e encarar, de uma vez por todas, a travessia do velho Atlântico?

Medo de avião? Em parte, sim. Mas não acredito que seja só platonismo de segunda categoria — receio de voltar com raiva da cidade real, depois do confronto com a imaginária.

É pura preguiça. Preguiça de brasileiro que não merece a parte de ascendência italiana que lhe coube.

 

 

19/11/2006. Os poetas dizem que as palavras têm vida. E é verdade. Nenhuma palavra alemã parece ir com minha cara.

 

 

20/11/2006. O sujeito parou e levantou a sola do sapato, conferindo se não tinha pisado nalguma dessas obras-primas do rococó, que os vira-latas do Brasil sabem produzir tão bem. Seguramente, com mais engenho e arte que os escultores da Bienal.

 

 

21/11/2006. Francamente, não estou entre os apreciadores do crítico Eduardo Portella. Mas encontrei um velho recorte de jornal, quando ele foi escolhido pelo general Figueiredo como ministro da educação e cultura — não para ser, mas para estar ministro, como ele fez questão de dizer à imprensa —, e lá estava relacionado o segundo escalão do crítico-ministro.

Como secretário geral, João Guilherme de Aragão, que escreveu Os passos do escolhido, um bom romance; assessor especial, o ensaísta Vamireh Chacon; assessoria técnica, o contista carioca Ary Quintella; para o Instituto Nacional do Livro, o romancista Herberto Sales (que já vinha exercendo o cargo e escreveu Cascalho, Além dos marimbus, Dados biográficos do finado Marcelino, etc.); para o Conselho Federal de Cultura, o romancista Adonias Filho (de Corpo vivo, Memórias de Lázaro); para a Rádio MEC, o romancista José Cândido de Carvalho (de O coronel e o lobisomem); para a Funarte, o poeta Odylo Costa Filho.

Não sei quanto gols fez o time, nem se ganhou o campeonato. A gente podia discordar desse ou daquele nome, ou até da maioria, mas era inegavelmente um grupo formado por pessoas do ramo, mais ligadas ao livro que ao disco, como sói acontecer na Lulândia.

 

 

22/11/2006. Do modo como entendo a formação universitária em letras — e o mestrado ainda faz parte dela (cá entre nós, do jeito que a coisa anda, até o doutorado e o resto...) —, o aluno devia se preocupar menos com especializações e mais com a assimilação horizontal das grandes obras. O mesmo vale para a iniciação científica na graduação, que é um bom dinheirinho no bolso do candidato a especialista, mas tempo perdido para aquilo que verdadeiramente conta.

O que conta, neste momento, é ler o que há de melhor em literatura, filosofia, história. Não há exercício mais recomendável para musculatura mental do que a leitura dos clássicos. Sobre tal base, o aluno vai poder levantar com mais firmeza a sua esbelta torre Eiffel, sem o risco de sofrer a escoliose lombar de Pisa. Ou, o que é mais vergonhoso, erguer dois ou três metros de uma Babel fajuta, que logo vai virar poeira, fumaça, nada.

 

 

23/11/2006. Uma grande personalidade histórica acaba se transformando em personagem literário, tamanha é a discórdia entre as visões e interpretações pessoais que ela provoca. Diferente do peixe que, fisgado de vários pesqueiros, continua o mesmo peixe, salvo uma escoriação maior ou menor no beiço, a diversidade dos barrancos influi na imagem que fisgamos do Hitler, Mussolini, Stalin, Napoleão. A “coisa em si” dessa gente é inapreensível. Por maior que seja o esforço para reduzir Napoleão a uma unidade, ele está condenado à condição de leque: você abre e as versões se sucedem, dos historiadores profissionais ao próprio Memorial de Santa Helena; do Guerra e paz, de Tolstói, às várias passagens em obras de Stendhal. Enfim, o baixinho saiu da história e entrou no mundo do possível, que Aristóteles chamava de literatura.

 

 

24/11/2006. Se os personagens históricos acabam virando personagens literários, acredito que os melhores personagens literários não existiriam, se os escritores não fossem plagiadores descarados da realidade. É freqüente, na criação de personagens, o método da combinação ou fusão de traços de duas ou mais pessoas “reais”, que o próprio autor conheceu, como contou Mark Twain no prefácio que escreveu para As aventuras de Tom Sawyer, recordando um processo semelhante em arquitetura, em que há numa mesma obra a mistura de elementos de vários estilos.

Disse o escritor americano: “A maioria das aventuras narradas neste livro realmente aconteceram. Uma ou duas foram tiradas de experiências minhas, as demais ocorreram a rapazes que foram colegas meus de escola. Huck Finn tirei da vida. Tom Sawyer também, só que, em seu caso, usei de uma combinação de três rapazes que conheci.

 

 

26/11/2006. O rapaz distribuía folhetos de propaganda no semáforo da Farmácia Lourdes. Era um bom ator de circo, desses que quase piruetam para agradar o público. Agora, serviço terminado, é o melancólico ator sem a máscara, cabeça baixa, de mal com a vida, pedalando a velha bicicleta para o bairro distante — onde vai esperar, até o dia seguinte, pelo momento de retomar seu alegre posto no semáforo. Não há realidade mais real, para ele, do que aquela de faz-de-conta, com a vantagem extra de ainda ganhar uns trocados com ela.

 

 

27/11/2006. Preenchendo formulários, no campo da “nacionalidade”, ele sempre escrevia “brasileiro” e — acima, ao lado, embaixo, onde coubesse — ajuntava: “sem fanatismo”.

 

 

28/11/2006. Ventou tanto ontem à noite, que as estrelas mudaram de lugar.

 

 

29/11/2006. Ninguém é mais egoísta que as mães. Botam no mundo aqueles bichinhos complicados por puro divertimento. As mães são lúdicas por excelência, até quando parecem excessivamente pragmáticas.

 

 

30/11/2006. O principal defeito do domingo é estar muito perto da segunda-feira. É a velha história do “diga-me com quem andas”.

 

 

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