Voltar à página inicial

 

NOTAS PARA UM DIÁRIO - 14

 

 

01/10/2006. É um profundo desrespeito aos mortos dizer que eles estão vivos em nossa lembrança.

 

 

02/10/2006. Só deve nos espantar, hoje em dia, o que acontece de acordo com as melhores expectativas.

 

 

03/10/2006. Desconforto era o dos nossos antepassados mais antigos, aqueles que viviam nas cavernas. Mas é preciso reconhecer que nos últimos duzentos mil anos a vida melhorou um pouco.

 

 

04/10/2006. Mais que político, Plínio de Arruda Sampaio é um oxímoro ambulante: diz as coisas mais insensatas com aquele ar de velhinho prudente.

 

 

05/10/2006. Um bom aforista do século XVIII, monsieur Joubert, disse que “o idiota está aquém da verdade, e o louco além.” Antigamente, todo o mundo era louco e escrevia poemas; bastavam um dicionário de rimas e algumas idéias alheias na cabeça. Hoje, todos são idiotas e escrevem teses; bastam algumas idéias alheias na cabeça e um manual atualizado da ABNT. Mas sempre será preferível um poema vagabundo a uma tese medíocre.

Para Joubert, que não escreveu teses e não publicou nada em vida, o ideal era escrever um livro numa página, uma página numa linha e uma linha numa só palavra. Muita análise e pouca síntese: os males das teses de letras são. Mas seu maior defeito é mesmo o tamanho. A partir da vigésima página, no melhor dos casos, o autor já começa a repetir-se. Na centésima, o eterno retorno se transforma em redemoinho, cujo vórtice carrega para todo o sempre o que ainda poderia restar de vida inteligente na cabeça do autor.

A universidade, hoje em dia, vive cobrando taxas. Pois bem: taxa pesada a quem faz tese sem saber escrever. Como julgar? Basta criar uma comissão com gente de fora da universidade. E a universidade deixaria rapidinho de operar no vermelho.

 

 

06/10/2006. Um livro inteiro de ciência política pode caber numa só frase. Ambrose Beirce, no seu Dicionário do diabo, assim define política: “Briga de interesses disfarçada em conflito de idéias.” Sobre a educação, disse o mesmo autor que tanto pode revelar o sábio como esconder a estupidez dos tolos.

 

 

07/10/2006. Na estrada, se tem polícia, não pisco o farol solidário. O que sempre deixa alguma culpa, é verdade, pois acabo beneficiado pelos que piscam. Mas como sempre desconfiei de quem pisca, a consciência logo fica em paz.

 

 

08/10/2006. Todo elogio sem restrição é sempre um pouco suspeito. Sabia das coisas aquele orador grego que, sempre que o aplaudiam, perguntava: “Onde errei?

 

 

09/10/2006. Não sou fã do capitalismo, nem do socialismo, nem da mistura dos dois. Como o mais afinado com a natureza humana me parece ser o primeiro, suporto-o. É mais fácil encontrar um empresário decente do que, entre funcionários públicos, um funcionário do público. # Por falar em funcionário público, quis fazer uma ode ao Lula para comemorar antecipadamente sua reeleição e peguei o dicionário de rimas. Relacionei as que achava mais ligadas ao tema: chula, gula, mula, nula, adula, acumula, dissimula, estrangula, macula. Mas desisti em tempo. Lula não merece uma ode.

 

 

10/10/2006. Descobri ontem à noite: Pelé é um chinês pintado de preto.

 

 

11/10/2006. A principal prova do crime contra os teóricos da literatura é sua absoluta falta de humor. São de uma solenidade insuportável. E aqueles bons poetas que não conseguimos mais ler, pois foram estragados pelo “olhar” da universidade?

Pelo mau olhado, seria melhor dizer.

 

 

12/10/2006. Um poeta consultou Chamfort (o iluminista desiludido) sobre um dístico.

— Excelente — disse ele —, mas muito longo.

                                                                                                                          

 

13/10/2006. Filósofo também reza em hora de aperto:

— Ó Princípio Organizador dos Cosmos, tende piedade do Eu!

 

 

14/10/2006. No boteco do bairro, fétido Brasil em miniatura, há de tudo. Do raivoso americanófobo ao americanófilo mais contundente:

— Nomeio Bin Laden meu bastante procurador. Ainda tem muito prédio alto em Nova York.

— Não fala bobagem. Esses muçulmanos são uns idiotas! Bush neles!

 

 

15/10/2006. A insensatez desses velhinhos prudentes! Quando li que o prof. Antonio Candido, com aquele jeito de gentleman, aprovava a suspensão provisória dos direitos humanos em Cuba em nome da virtude à força — “suspensão provisória” que, em linguagem estatística, significava alguns milhares de mortos, “les morts, les morts, les morts quil a fallu pour ces conquêtes”, como no verso de Verhaeren —, tive vontade de pegar os seus livros na estante e trocá-los no sebo mais próximo. Trocá-los por qualquer coisa, até por gibi surrado do Tio (Sam) Patinhas.

Tive vontade, mas agüentei firme: seria fazer o jogo dos que apostam na luta de classes como solução para a miséria humana, aproximando-se de algum modo dos execrados capitalistas, quando matariam por omissão ou exploração.

Não me chamo Maniqueu. Prefiro pensar que, do outro lado, sempre possa haver alguma coisa que interesse ao lado de cá. Por que a história deve ser entregue a essas entidades abstratas chamadas classes sociais, e não a indivíduos concretos que só ocasionalmente se escondem sob elas? Aliás, há muito mais emoção na luta entre as partes discordantes do próprio indivíduo, aquela que o F’rnando P’ssoa mostrou muito bem.

Para quem acha que crítico literário deva necessariamente se interessar mais por esta última, é bom advertir que eles nunca estiveram, como hoje em dia, tão interessados noutros quintais do conhecimento, como sociologia, psicanálise, lingüística, antropologia, mesmo quando dedicam um trecho viçoso de suas análises ao aspecto formal, dito estrutural, das obras. Juram que praticam crítica estética numa modalidade mais madura, segundo a qual os elementos externos — luta de classes, distúrbios de comportamento, etc. — devem ser vistos como partes de dentro da obra, e esta como “homóloga” à estrutura social ou psíquica. Meu Deus, como isso é chato na prática! No fundo, no fundo, só usam a pobre literatura como ilustração de conceitos mais elevados. 

Os livros do prof. Candido continuarão na minha estante, sobretudo aquele sobre a formação da literatura brasileira, que parece resistir. Pena que não seja levado a sério quando diz de nossa literatura, logo no prefácio, que é ramo de galho menor, a portuguesa, na árvore das letras ocidentais. Se soubessem disso, será que seus discípulos, que hoje mandam no Mistério da Educação e em várias secretarias de educação estaduais, eliminariam do currículo ginasial essa tola exclusividade das literaturas vernáculas, que dificultam os adolescentes de lerem na escola os verdadeiros clássicos?

Não sei se o simpático professor aprovaria, hoje, o próprio conceito. Em época multicultural, de nivelamento por baixo, não convém a um bom socialista fazer restrições desse tipo. Só um estado com boas intenções, como Cuba, teria o direito de ser hierarquizado: Fidel na cumeeira e o resto no chão, quando não em cova rasa.

 

 

16/10/2006. Na guerra de todo dia, a principal batalha é contra si mesmo. Mas quase ninguém vence. É muito mais fácil dominar os outros.

 

 

17/10/2006. O principal objetivo da crítica estruturalista, pós-estruturalista, desconstrucionista, é ser profundamente superficial.

 

 

18/10/2006. A vingança do casamento — quando ele dá certo, obviamente — é transformar a boa parceira de uma noite em doce inimiga vitalícia.

 

 

19/10/2006. Os filhos jamais irão entender que suas ótimas mamães ou papais possam ser exatamente o contrário como maridos e esposas.

 

 

20/10/2006. Uma bela mulher que entrava para o convento, isso sim era um milagre. O espantoso milagre de alguém que decidiu fugir da cadeia natural, quando tinha tudo para ser uma boa funcionária da espécie.

 

 

21/10/2006. Crítica literária: curiosa modalidade de fofoca exercida ora no tom solene dos tribunais, ora com a neutralidade dos exames de laboratório. Nos dois casos, quem vai preso ou fica doente é sempre o leitor.

 

 

22/10/2006. Nos últimos quatro mil anos, houve alguma mudança essencial no ser humano? Parece que não. Estamos autorizados a pensar, portanto, que nos próximos quatro mil nada de substancial acontecerá.

Ao contrário da tecnologia. Como estará ela daqui a cinco mil anos, se não houver nenhum grave acidente de percurso? Completamente science-fiction. E o ser humano provavelmente na mesma.

Pelo menos metade desse tempo, a espécie eleita gastou sonhando com o fim das tiranias, a liberdade individual e a restrição desta mesma liberdade, que provocava novas tiranias, etc., repetindo o ciclo muitas vezes. O grande encontro do futuro próximo — que acho inevitável — será entre o capitalismo esquerdizado e a esquerda cada vez mais seduzida pelo mercado. Na prática, todos serão de direita. Na teoria, de esquerda. Como a tendência da tecnocracia é o centralismo, visando o governo planetário, e a tendência de Narciso é inchar-se até não caber mais no espelho, o briga dos próximos tempos será por reduzir essa discreta contradição...

 

 

23/10/2006. Se a gente passar numa peneira a filosofia contemporânea, o principal que fica é a idéia do homem ser um animal relativamente racional e que a razão está sempre a serviço de alguma paixão. Se as emoções tem certa base genética, a conclusão desalentadora é que jamais vamos entrar num acordo que não seja efêmero. Dependendo da paixão, pode o animal racio-passional se transformar em monstro ou anjo.

 

 

24/10/2006. Minha cozinheira é discípula radical de São Francisco de Assis: não implica com os irmãos mosquitos que pousam na comida.

 

 

25/10/2006. Na outra encarnação, não vou dar aulas de literatura a alunos que não querem saber de livros. É como falar de coisas íntimas a estranhos. Quem gosta de literatura, devia ensinar técnicas de contabilidade ou geometria diferencial.

 

 

26/10/2006. Acho que congressos de literatura são perda de tempo. Digo acho pois nunca fui a nenhum. Acho com toda certeza... Em vez de ouvir palestras dos coleguinhas, fico em casa lendo um clássico. Não é uma boa troca? Ao contrário do que acontece nas áreas técnicas e científicas, progresso em literatura é sinônimo de tradição.

 

 

27/10/2006. O coordenador da campanha petista, um cientista político, criticou boa parte da imprensa por estar dissociada da Opinião Pública. Na hipótese da Opinião Pública se equivocar — o que é perfeitamente normal, pois é coisa humana —, ainda assim a gente deve se associar a ela, pois é preferível errar com o povo a acertar com as elites. Voz do povo, voz de Deus — é a máxima que fundamenta a doutrina do coordenador da campanha petista. A ciência política, a serviço do poder, sempre acaba retornando à mitologia.

 

 

28/10/2006. Fala com profundo conhecimento de causa sobre o que não sabe. Teria ajudado o vigário e o barbeiro a botar fogo nos livros de Dom Quixote. Anda freqüentemente em má companhia, para que a gente não tenha nenhuma dúvida sobre quem ele de fato é. E vai ser reconduzido ao pódio.

Tapo o nariz da memória e me permito até alguma saudade de antes, quando um bando de generais mal-humorados escolhiam entre si o déspota de plantão. Preferível quem tenha passado pela Escola Superior de Guerra e folheado alguns livros da Biblioteca do Exército. Também nunca pensei ter profundas saudades do sociólogo FHC, que citou mestre Caetano em seu discurso de posse e depois botou um cientista político à frente do Ministério da Cultura por oito anos.

 

 

29/10/2006. O padeiro, disse Adam Smith, não capricha no pão para entregá-lo de mão beijada à manteiga do cliente. Visa unicamente à prosperidade do seu negócio. Os motivos que alimentam a barriga da ambição nunca foram os melhores. Mas como, infelizmente, esta fogosa humanidade não pára de crescer, o capitalista vai correndo risonho atrás dela.

A uma certa distância, evidentemente. O capitalista mantém-se prudentemente ao abrigo das exalações populares, no gabinete da empresa, onde vai abrindo vagas para os pobres dos quais tanto necessita. O capital é como um remédio cheio de efeitos colaterais, mas necessário para a eliminação da pobreza que, de fábrica de marginais, se transforma em mercado consumidor, diminuindo de algum modo a produção de bandidos pobres. De outro lado, é esse mercado cada vez maior que realimenta a riqueza e a ambição do empresário, o qual, é bom não esquecer, freqüentemente esbarra na linha divisória que separa a lei e a contravenção.

 

 

30/10/2006. Amor-próprio demais produz mais vítimas que o próprio ódio.

 

 

31/10/2006. Não há vagabundos. Não há horas vagas. Todas estão ocupadas com alguma coisa mental: lembranças, remorsos, planos de guerra, mulheres do próximo, embrião de poemas, etc. Vagabundagem é ponto de vista de quem furou o olho de dentro.

 

 

1