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NOTAS PARA UM DIÁRIO - 13

 

 

01/9/2006. Não gosto de zoológico. É tão falso como flor de plástico e garota inflável. Selva tem de ser selvaggia. Num dia desses, fui obrigado a ir — apesar da democracia vigente no país — e acabei fascinado com a jaula dos macacos. Combinei com minha mulher e parentes que ficaria por ali mesmo. Quase em frente, tinha um banco sob uma árvore e fui até lá.

A jaula dos macacos é o lugar mais antropológico do zoológico. O que significa, entre outras coisas, que me diverti a valer com a macacada.

É assim que Deus se diverte comigo?

 

 

02/9/2006. O professor era um homem sábio:

— No mundo de hoje, meus caros, é preciso muita paciência.

— Mais paz que ciência, ‘fessor — gritou lá de trás o aluno, que não era menos sabido.

 

 

03/9/2006. — É pecado escrever aos domingos — me diz o vento entre as folhas. — Quanto aos livros, leia só os que contam “belas mentirinhas coloridas”, como diz o poeta.

 

 

4/9/2006. Que tinha o Nietzsche na cabeça quando quis promover o “bicho da terra tão pequeno” a super-homem?

 

 

05/9/2006. Relendo a Lira dos cinqüent’anos, de Manuel Bandeira, a gente percebe que o amor e a morte são os dois grandes hemisférios da poesia desse mestre insuperável.

Os poemas falam de quê? Da passagem do tempo. Das cidades decadentes. Da tristeza das coisas perdidas. Da consciência da morte. Do absurdo da morte. Das recordações. Da saudade dos tempos de criança. Da solidão do indivíduo nas metrópoles. Da aceitação da vida como ela é. Da nostalgia de Deus.

Mas falam também de prazer. Dos ambientes amados. Da beleza disfarçada nas coisas comuns. Do belo na natureza. Dos mistérios do amor. Do mistério feminino. Da beleza dos corpos desejáveis. Dos desgastes do amor. Da solidão do amante não correspondido, e aqui o segundo hemisfério se liga ao primeiro, e tudo — amor e morte — se transforma numa coisa só: a morte do amor e o amor da morte.

 

 

06/9/2006. A aluna me mostrou o livro que tinha comprado: As poéticas do olhar. Ou qualquer coisa do gênero. Está na moda essa história de olhar: um olhar daqui, um olhar de lá. Numa civilização visual como a nossa, olhar é preciso, viver não é preciso.

— Entre “as poéticas do olhar” e a poesia dos seus olhos, ainda sou mais a segunda — disse-lhe.

A aluna sorriu como a estrela da manhã, justificando plenamente minha opção.

 

 

07/9/2006. É o Brasil do jeito

Que a gente não gosta:

Bandeira fincada

Num monte de bosta.

 

 

08/9/2006. Mulheres — essas flores pensativas. Pensam tanto, e o tempo todo, que nem tem tempo a perder com filosofices.

 

 

09/9/2006. E o arroto cósmico do trovão escapou da boca seca de setembro.

 

 

10/9/2006. Quando meu amigo Hildo era “mineiro” e escondia seu ponto-de-vista, as pessoas se esquivavam dele. Podia ser um conspirador... Um dia, decidiu não esconder mais nada e as pessoas, pelo simples gostinho da contradição, começaram a procurá-lo mais.

— Vivemos numa época malditamente dialética — me disse ele um dia —, queiram ou não os conservadores demitidos do zeitgeist. Acho que é por isso que cansamos tanto. Só de pensar nessa eterna luta livre da tese com a antítese, sabendo que sou parte dela, ainda que contrariado, já boto a língua pra fora.

 

 

11/9/2006. Canção reacionária para o amigo Hildo Rielli

Mas por que ir embora,

Se esperar é que é saber?

Quem sabe espera a hora,

Deixa a coisa acontecer.

 

 

12/9/2006. Devíamos aprender com os bois aquela solene indiferença com que tratam o mundo. Da vida, só esperam água e capim, antes que o matadouro e o frigorífico venham fazer parte do seu currículo. Há mais sabedoria neles que num rebanho inteiro de filósofos dialéticos.

 

 

13/9/2006. Cada homem é uma ilha, sir John Donne. Uma ilha irremediável, que aparece sozinha na linha d’água e sozinha afundará no oceano, quando por ela roçar o grande furacão sem óculos. Há barcos entre as ilhas, âncoras, portos. Há até outras ilhas em volta. Mas todo esse aparato geo-portuário é insuficiente para abolir nossa condição insular. Nenhum arquipélago pode salvar as ilhas de si mesmas, de sua enorme solidão cercada de água por todos os lados.

De que serve a dialética empurrar a história pra diante, quando a minha ilhota não estiver mais na linha d’água?

 

 

14/9/2006. Cantada no cyber-café:

Leptopas com-putar comigo?

 

 

15/9/2006. Essa história de saber até que ponto a literatura brasileira é original em relação às européias é uma grande bobagem. Uma discussão estéril, como se dizia antigamente, quando o controle da natalidade ainda não era moda. Só existe uma literatura, a universal. No mais, o que havia eram indivíduos mais ou menos geniais escrevendo na França, Itália, Inglaterra, até no Uruguai etc., continuando a manicurar os dedos rosados da aurora de Homero.

 

 

16/9/2006. A Gorda da Periferia, rebolante como esses caminhões de amassar concreto, cortou súbito a frente do fusca. A colisão foi inevitável. O motorista foi parar na UTI dos bípedes implumes e o fusca na UTI dos automóveis. Ele não resistiu, evidentemente, e morreu com ferimentos generalizados. A mesma sorte teve o carro, levado solenemente, para o desmanche, como uma premiada instalação pós-moderna. A gorda ficou quase intacta — só uns leves arranhões na banha, pelos quais a magra viúva do motorista foi gordamente processada.

 

 

17/9/2006. O povão, mesmo passando a léguas de O príncipe, também sabe ser maquiavélico: quando vota, por exemplo, no ilustríssimo candidato Rouba-Mas-Faz.

 

 

18/9/2006. Meu avô, nas cenas mais emocionantes das novelas da Tupi, defendia-se invariavelmente com a mesma arma:

tudo combinado!

Nudez feminina, em revistas e filmes, também sempre me deixa com a sensação de que estou sendo enganado. Como fã de são Tomé, só acredito em mulher pelada a alguns palmos da retina.

Para filmes e revistas, sou mais pervertido: prefiro uns vestidinhos desonestos.

 

 

19/9/2006. Haiconto 1

O sujeito era hipocondríaco

E colecionava bulas de remédio.

Um dia mandou encadernar.

 

 

20/9/2006. Sempre desconfiei que meu pessimismo fosse literário demais para ser verdadeiro. Nada a ver com o “quanto mais poético mais verdadeiro” de Goethe (algumas vezes, poético e literário podem até ser antônimos). No fundo, sou um otimista bastante constrangido e envergonhado, desses que esperam viver quatrocentos anos, mas se disfarçam de hipocondríacos que vão morrer amanhã de manhã.

Vou assumir, de uma vez, o meu otimismo recalcado. Posso até virar escritor de auto-ajuda e começar a ganhar dinheiro, coisa impensável com o pessimismo. Para não parecer idiota, continuo fingindo que a vida não presta, até chegar a hora em que finalmente serei obrigado a botar de bruços, na relva, a taça vazia (conforme a bela imagem de Omar Khayyám, na tradução do amigo L.).

 

 

21/9/2006. Certos absurdos, desde que não afetem nossa vidinha prática, são perfeitamente toleráveis. O absurdo da crença em Deus, por exemplo. Ou da descrença, na visão do outro lado. Convivo diariamente com católicos, que olham complacentes para minha insuficiência religiosa e me deixam passar. Ninguém deixou de me vender ou comprar alguma coisa, porque sou um homem absurdo.

Este intercâmbio de absurdos é impossível com os muçulmanos. Apesar da truculência, como são delicados! Não se pode tocar num átomo do Maomé.

 

 

22/9/2006. A semente é feita

Pra perder a vida.

Mas bastou morrer,

Já é recém nascida.

 

 

23/9/2006. O principal objetivo do crítico formalista, ao desmontar a “mosca azul” do poema, é vingar-se do milagre que não consegue realizar: a criação poética. Em vez da humildade da leitura, só é capaz do ressentimento da dissecação.

 

 

23/9/2006. O principal objetivo do crítico formalista, ao desmontar a “mosca azul” do poema, é vingar-se do milagre que não consegue realizar: a criação poética. Em vez da humildade da leitura, só é capaz do ressentimento da dissecação.

 

 

24/9/2006. Estoicismo não é uma doutrina seqüestrada pelos manuais de filosofia: é uma obrigação da inteligência, diante da possibilidade de mais quatro anos de Lula da Silva como general da banda (podre).

 

 

25/9/2006. O principal inconveniente de ser chefe é não poder gozar, em sua total plenitude, o maravilhoso desânimo da segunda-feira.

 

 

26/9/2006. E o frio, que nos últimos anos tem sido mais funcionário público que privado, pro-forma, para inglês ver e invejar, neste setembro resolveu arregaçar as mangas e esfriou pra valer, depois de chegar atrasado à repartição (quando já devia estar de malas prontas para o outro hemisfério).

 

 

27/9/2006. ....e as andorinhas, fazendo festa

enquanto a chuva monta o cenário,

parecem folhas que o deus do inverno

soprasse longe — espalhando no ar...

 

 

28/9/2006. A teoria do fluxo e refluxo, de Vico, está hoje mais viva — “Vico vivo”, diria o Carpeaux — que os esforços posteriores da filosofia da história de insistir na idéia do fluxo contínuo, como fizeram Comte, Hegel, Marx, coroando o final da escada com um degrau que se queria definitivo:  o estado positivo, o espírito absoluto, o comunismo.

Na época do Anatole France, o livro era o ópio do ocidente. Felizes anos aqueles, que os historiadores chamam de “época do equilíbrio europeu”, e que deu a melhor literatura, a melhor música, a melhor pintura, a melhor filosofia, o melhor tudo.

Agora, na época do desequilíbrio planetário, caótica e rebarbarizada, o livro é um mero sonífero sem contra-indicações, uma “valeriana” encadernada. Quanto melhor o livro, maior sua eficácia sonoterapêutica. E temos a pior literatura, a pior música, a pior pintura, a pior filosofia, o pior tudo.

 

 

29/9/2006. Não sei. Acho que não creio em Deus. Mas de vez em quando deixo escapar um suspeito e suspiroso “graças a Deus!”, entre exclamações mais laicas, como “ainda bem!” e “felizmente!”, que no fundo são outros nomes do Deus perdido.

Não sou um ateu profissional. Por que viver botando grampos telefônicos na consciência? Quem sabe, de tanto falar o nome Dele em vão, recupere a velha crença (que aliás só fazia bem, sem tomismos, neo-tomismos, tristões de ataúdes, leonardos bofes), antes que Nietzsche & Cia. viessem botar minhocas explosivas em minha cabeça.

 

 

30/9/2006. Há ex-marxistas que adotam o liberalismo, mas não perdem o espírito de guerrilha. Continuam no ataque. Mudam do time que perde para o que está ganhando o campeonato, mas continuam jogando sozinhos na frente.

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