NOTAS
PARA UM DIÁRIO - 12
1/8/2006.
Conversinha de boteco.
—
Viu o que aprontou aquele deputado? É um filho da puta.
—
Por favor, não rebaixe ainda mais os filhos de uma senhorita tão operosa e
necessária.
2/8/2006.
Aos cinqüenta anos, na drummondiana curva perigosa dos
cinqüenta, bem depois do meio do caminho, a gente já começa a olhar no fundo da
embalagem o prazo de validade do corpo, que infelizmente começa a vencer quando
a alma está mais sabida, mais apta a tocar o barco furado.
O
diabo é que, até a reencarnação seguinte, a alma já esqueceu tudo o que
aprendeu.
3/8/2006.
Tenho mais uma prova da existência de Deus. Bastou-me desistir de vez de levar a
sério o mundo, e Ele me mandou de presente uma extemporânea catapora de moleque.
Quinze dias enfeitado com a bijuteria das perebas, brincando de
Lázaro.
4/8/2006.
Cheguei definitivamente à conclusão de que todo mundo está certo. Nunca fui tão
relativista. Evidentemente, tenho um pouquinho mais de razão que os outros, mas
disfarço bem.
5/8/2006.
Lula deu entrevista na biblioteca do palácio. É cenário sob medida para bajular
a classe média: envolve o protagonista num doce holofote de cultura, que ela
ainda finge respeitar. Biblioteca é uma coisa perigosa: eleva até a faxineira
que só lhe tira o pó.
Atrás
do ex-sindicalista, estavam os bem encadernados volumes que ele sabiamente tem
evitado, pois sua escola — disse mais de uma vez — é o mundão. Para ele, livro e
mundo seriam coisas mais separadas que um corintiano e um palmeirense, com o que
concordariam os técnicos de todas as áreas do governo, porém jamais os leitores
de Homero, Dante, Cervantes, Shakespeare, Tolstoi etc.
Não
consigo prestar atenção no que diz nosso general da banda. É completamente
irrelevante. Fico mais ligado na forma, no estilo da oratória luliana, incrivelmente afinada com aquelas divertidas
correntes de vanguarda do início do século XX: do surrealismo tem o mais
completo non-sense, do cubismo a fragmentação de
pensamento. É só procurar que tem mais. É matéria para tese, de preferência com
um desses candidatos a doutorado que sabem mais desconstruir que escrever.
E
o estilo é mesmo o homem. A certa altura da entrevista, disse
ele:
—
É impossível afirmar que alguém tem culpabilidade antes das provas
aparecerem.
Nosso
presidente na certa queria dizer culpa (delito, ato criminoso, segundo
qualquer dicionário da biblioteca do palácio), em vez de culpabilidade, que é um negócio mais
etéreo. Mas como a etérea culpabilidade é uma maneira de tornar
mais leve a delituosa culpa do PT...
Além do que, as coisas etéreas são mais chiques, soam mais cultas. La musique avant toute chose. Que pode a lógica
diante da música?
6/8/2006.
Não
há tragédia comparável à volta ao trabalho, depois de um mês de férias. As
férias devolvem o indivíduo ao seu verdadeiro estado, o ócio — que pode ser
criativo ou não, dependendo do ocioso. Não é a morte o ócio absoluto, sem
intromissão de despertadores e sirenes?
7/8/2006.
Por
falar em morte, Drummond mandou um e-mail do além:
“Depois
dos ombros suportando o mundo por oitenta e cinco anos, como podia imaginar que
a terra seria tão leve?”
8/8/2006.
Se Deus existe, deve achar de extremo mau gosto as
religiões autênticas. Terá uma discreta predileção
pelas falsas, aquelas que deram emprego a milhares de gênios da pintura e da
música.
9/8/2006.
Deus,
quando fabricava um grande escritor, devia incluir no produto um dispositivo de
proteção contra os maus leitores — algo como o mau cheiro do gambá, afugentando
e intoxicando quem dele se aproximasse. O pessoal das universidades iria viver
na base do desintoxicante.
10/8/2006.
Nestor
era zelador da escola. Tudo para ele era cachorrada. Se
faltava energia elétrica, cachorrada. Se o Corintians perdia, cachorrada. Se fulano ficava doente,
cachorrada. Era o nome que ele dava à condição humana.
11/8/2006.
Só
me espanto verdadeiramente, hoje em dia, quando alguém comete uma delicadeza.
12/8/2006.
Só
com a cara muito cheia para agüentar dirigir nesse trânsito
surrealista.
13/8/2006.
As mulheres ideais ainda são as Amélias, mas só
mereciam casar-se com gentlemen.
14/8/2006.
Ele começa o domingo com lazer: a missa das nove. E termina com religião: o jogo
do Coríntians às quatro.
15/8/2006.
A pretinha era de parar o trânsito das passarelas. No desfile de moda,
literalmente obscurecia as branquelas, provando que
nem tudo que reluz é louro.
16/8/2006.
Deus pode ser um bom aliado do homem sozinho. As religiões quase nunca. Que
diabo de necessidade é essa das pessoas se juntarem em bando e orar em uníssono?
A massificação é a filha mais velha da religião.
17/8/2006.
Começou a propaganda política na televisão. Temos, enfim, programas diários de
humor.
E
as palavras imitam os homens: algumas trabalham demais, estressam, perdem até
identidade. Política, por exemplo. A
infeliz vai de mal a pior, sofrendo de esquizofrenia, doença a que as palavras
já parecem nascer predispostas: ora pensa que é interesse comum, interesse de
classe, interesse do bolso. Anda merecendo férias de
deputado.
18/8/2006.
Sempre achei que minha pequena cidade fosse um lugar tranqüilo, até o dia em que
um servente de pedreiro perdeu a cabeça e chacinou a família. De lá para cá,
passei a desconfiar mais de mim mesmo.
19/8/2006.
Esses bebês que chegam ao mundo e logo partem — usados pela estatística para
separar os países desenvolvidos dos subdesenvolvidos —, não serão acaso sábios
disfarçados nas fraldas, que preferiram partir enquanto ainda era tempo?
20/8/2006.
Não é com palavras que se faz um poema, mas com entrelinhas.
21/8/2006.
Depois dos quarenta anos, nunca mais passei impunemente por um espelho.
22/8/2006.
Não
tenho nada contra déspotas esclarecidos, desde que não me venham esclarecer
nada.
23/8/2006.
Certamente,
tudo já aconteceu antes. O difícil
não é admitir que possa acontecer de novo, mas com a
gente.
24/8/2006.
Como
não acredito na ordem — e não consigo acreditar mesmo —, só me resta ser
meticulosamente ordeiro.
25/8/2006.
Não,
nunca fui lá. Mas era uma vontade tão absurda de ir, que já andava
experimentando um sentimento muito parecido com saudade.
26/8/2006.
O
principal problema do Brasil não é o menor abandonado. É o melhor abandonado.
27/8/2006.
Vamos fazer uma transfusão de sonhos, minha querida? De vez em quando eu lhe
empresto os meus, completamente sem graça e sem enredo, como um daqueles filmes
chatos da nouvelle vague. E você me empresta os seus,
convulsivamente hollywoodianos.
28/8/2006.
Se a medicina continua neste ritmo, em breve ninguém mais vai morrer antes da
hora.
29/8/2006.
Assim
falou Nietzsche, na aurora do niilismo: humano, demasiado humano, cheio de
considerações intempestivas, com sua gaia ciência
visando além do bem e do mal, sem esconder uma vontade muito grande de poder.
Foi a origem da tragédia desse anti-cristo bigodudo,
que acabou dando bom-dia a cavalo em Torino.
30/8/2006.
Mais despudorado que um artista pornográfico é o artista sentimental. É um sem
vergonha do pathos: não tem pejo de tirar em público a
roupa das emoções mais íntimas. Basta o exemplo do ciúme, que Roberto Campos
chamava de mau hálito do amor. Não é muito mais íntimo,
vergonhoso e humilhante que um pênis exposto?