NOTAS
PARA UM DIÁRIO - 11
01/07/2006.
Solução
perfeita é a que deixa sempre uma brecha para um novo problema.
02/07/2006.
Cada
época com os vícios e virtudes que lhe convêm. Não há pior vício que procurar
melhorar a época, nem virtude melhor que deixar tudo como está. Dos mundos
possíveis, vivemos sempre no melhor. Melhor que isso é impossível. E o que é
pior: é impossível piorar.
03/07/2006.
Paulo
Francis, em entrevista antes de morrer, disse que mais importante que a política
eram as amizades e a experiência estética. "Eu acredito
na grandeza das amizades e penso que posso gostar de pessoas que são
completamente diferentes de mim. O que importa na vida é você gostar das pessoas
e receber afeto, e não a política." "Minha felicidade é ler um grande autor ou
ouvir Beethoven."
Tinha
lá suas aporias, como dizem os filósofos. A diferença é que as expunha, e era
esse um dos principais motivos de sua obra. Gostava também de fingir de mau.
Exemplo: assinava em baixo aquele chiste de Faulkner, para quem um poema de
Keats valia mais que a vida de trinta mil velhotas. É terrível, dizia, mas é verdade.
E
o inquieto Francis, hesitante entre ética e estética, amigo dos amigos e das
obras de arte, morreu estupidamente pelas mãos da política. Uma grande estatal,
vítima freqüente de seus sarcasmos, chamou-o para a briguinha jurídica. Podia
custar muito dinheiro e o coração assustou-se, desativando antes da hora uma das
melhores cabeças do país, antes de escrever o terceiro volume de uma trilogia
que ia chamar-se justamente Cabeça,
depois do Cabeça de papel e do Cabeça de negro.
04/07/2006.
Em
respeito aos mortos, bem que podíamos ser mais discretos em nossa tão efêmera
felicidade.
05/07/2006.
A
verdadeira teoria literária sempre acabava aparecendo nos bons ensaios de
crítica. Eram aquelas reflexões mais gerais que surgiam a propósito das obras
concretas. Quando virou disciplina independente, tocando num extremo a estética
e no outro a lingüística, cada vez mais invadida pelo jargão técnico, reduziu-se
a trampolim na carreira dos acadêmicos e portanto
perfeitamente dispensável para a inteligência.
06/07/2006.
É um bêbado platônico. Basta olhar para o uísque que já fica
alto.
07/07/2006.
Continho
orçamentário.
Rodrigo e Sheila são irmãos. Estudam fora, moram junto. Ele música, ela hotelaria.
— O quê? O Rodrigo quer entrar na academia de ginástica? — perguntou a mãe à filha, num desses telefonemas extorsivos.
O pai, ao lado do telefone, brincou:
—
Ele não precisa de ginástica. Já exercita bastante o grande
músculo...
A
mãe não entendeu direito e disse à filha:
—
Teu pai tá aqui dizendo que ele já é um grande músico. Não precisa de outra
ginástica.
08/07/2006.
Gosto de comer, mas não sou fanático.
9/7/2006.
O Grande Hotel, de Pocinhos do Rio Verde, fica bem no pé da serra. O pinheiro
araucária eleva-se alto e enorme diante da minha enorme e alta janela, alta o
suficiente para deixar entrar a paisagem — que também tende para o alto. Do
quarto, ouve-se a água gelada caindo em bica da alta montanha. Cai num
monjolinho miniatura que, de sete em sete segundos, diz “ploc”. De modo que
parece chover eternamente. Altamente recomendado para
insones.
10/7/2006.
Velho
é obrigatoriamente sábio? Ungaretti, já com décadas nas costas, ainda se dizia
um velhíssimo discípulo da vida. O velhinho de Caldas tinha cabelo e barba
branca. Andava com dificuldade. A molecada mexia:
—
Ô são Pedro! Ô são Pedro!
Até
um são Pedro mineiro perde a estribeira:
—
Vai tomar no meio do seu cu! Vá à puta que pariu!
Pra
quê? Foi então que a molecada mexeu mais.
11/7/2006.
Sou
um epicurista radical. Um escravo do prazer. Um inimigo da dor. Tenho profunda
vergonha do meu hedonismo. A prova mais evidente de minha submissão à vil
matéria é a parcimônia alimentar — sou mais frugal que carnívoro —, que deixa a
digestão rápida e suave, em condições de aproveitar melhor o momento que passa.
Gosto tanto de estar bem, que acacianamente evito o que me faz
mal.
Só
abro uma exceção quando estou aqui
12/7/2006.
Conversa
de vendinha mineira.
—
Nunca matei um animal — disse o homem. — Se eu vejo matar um boi, não como a
carne. Animal não tem maldade. Mas, se precisar, eu mato um homem. Homem é a
pior coisa que existe no mundo.
—
O mundo está mesmo perdido, seu João — comentou a mulher.
Seu
João é rigoroso na semântica:
—
O mundo, não. O povo.
13/7/2006.
Giro
matinal com minha mulher, que é uma menina antiga, também um pouco mineira.
Menina da época dos quintais com sombra, dos passarinhos ligando as coisas
passageiras às mais duráveis. Menina de velhas palavras. Banana-felipa, por
exemplo. Quem ainda fala assim?
14/7/2006.
Julho
é isso aí: um excesso de famílias hospedadas no hotel. Maridos, mulheres,
filhos, tias divorciadas, umas vovós bem viúvas metendo-se em tudo.
Apesar
do frio montanhês, todos entendem-se com todos — férias são pra isso mesmo. Há
um alegre trenzinho puxado a trator que, assassinando o nobre silêncio do
balneário, pára na porta do hotel e convida os alegres hóspedes a uma visita às
fábricas de doces mineiros.
Vão
quase todos.
O
Grande Hotel recupera magnificamente o silêncio.
15/7/2006.
Deus
preparou o cenário mineiro o melhor que pode — altas montanhas cobertas de
árvores, águas cristalinas rolando em cascatas, vacas pastando em silêncio nas
colinas que sobram das montanhas —, esperando pacientemente que os mineiros
cumprissem a sua parte. Felizmente para nós, condenados a nascer
16/7/2006.
Um
dia desses, comecei um poema assim: “Um futuro com jeito de passado/ Com ruína e
bolor antecipado...” Fui autocaridoso e não continuei. Era um poema sem futuro.
O
futuro é uma ininterrupta fábrica de passado. O futuro não tem o menor
futuro.
17/7/2006.
Dona
L. pronuncia a palavra inferno
alongando a segunda sílaba, numa súbita e suicida queda para a região mais
grave da voz. Nunca o inferno foi tão profundo, tão convincentemente infernal. É
a música imitando a vida.
18/7/2006.
Se
não houvesse música no mundo, acho que eu pedia licença pra
sair.
19/7/2006.
O
principal charme do Jornal Nacional,
da Globo — e que o torna maravilhosamente único, insubstituível — não está nas
notícias, quase sempre as mesmas em todos os telejornais, mas no que foi omitido
para não contrariar o governo de plantão.
20/7/2006.
A sociologia, para ter sentido, devia visar uma espécie de eternologia: da
pobreza socio-moral de agora para a miséria humana de sempre.
21/7/2006.
A vantagem de ser roubado por bandido comum, em vez do Estado, é que a gente tem
pelo menos direito a boletim de ocorrência.
22/7/2006.
Livro é alimento sem prazo de validade. Olho as estantes cheias dessa estranha
ração, acumulada durante a vida — evidente que não vou dar conta de tudo. Nem é
preciso. Não era essa a intenção quando decidi formar uma biblioteca.
Se
a vida é curta demais para um grande verso, o que dizer de um grande livro ou de
uma boa biblioteca? Nunca se acaba de ler uma grande obra. Uma grande obra e a
maior boa biblioteca são do mesmo tamanho.
23/7/2006.
Os animais podiam ter sobrenome: Leão dos Reis, Girafa Torres, Jacaré Ribeiro,
Cavalo Penteado, Camelo da Costa, Bode Cabral, Pombinha dos Santos, Picapau Machado, Garça das Neves.
24/7/2006.
Como
ser patriota em país que tem por princípio não ter nenhum princípio nacional?
Nosso maior escritor é um inglês do Cosme Velho. Os melhores boleros mexicanos
são de Lupicínio Rodrigues. São Paulo é uma síntese maluca deste doido planeta.
E por aí vai.
O
nacionalismo político, cego ao nosso multinacionalismo de base, retardou a
economia do país em mais de um século. Se, no século XIX, os ingleses tivessem
vindo para valer, e depois os americanos, hoje estaríamos bem mais confortáveis.
Dá
para imaginar a obra de Machado sem influência multinacional? Até acho que o
inglês devia ser de direito o que já é de fato, língua oficial do Brasil, junto
com o português. Fico imaginando os boletos bancários e as bulas de remédio em
duas colunas, em inglês e português. Meu neto alfabetizado, ao mesmo tempo, no
idioma de Camões e Shakespeare, perdão, de Lula e Michael
Jackson.
25/7/2006.
Minha
pátria ainda é o Ocidente. O resto é acidente — de
percurso.
26/7/2006.
Primeiro, o homem se deita com a mulher. Depois nascem os filhos. Noventa e nove
por cento dos filhos nascem para assistir ao jogo do alto da arquibancada — e
aplaudir, roer as unhas, vaiar. O homem e a mulher, quando se deitam, jamais
pensam que vão produzir um craque da humanidade, do tipo de um Prometeu,
Sócrates, Cristo, Goethe, Lula da Silva. É uma loteria. A mais difícil de todas.
De
vez em quando, ao cruzar com um bebê no colo da mãe, pergunto-me:
—
Vai ser o novo Pelé ou jamais descerá da arquibancada?
27/7/2006.
O
negócio mais lucrativo para a lua é não ligar a esse pessoal fofoqueiro das
estrelas.
28/7/2006.
Reafirmo sem remorso: um poema de Keats vale mais que a vida de trinta mil
velhotas. Se Faulkner tivesse dito que um poema de Keats valia mais que a vida
de trinta mil velhinhas, eu não concordaria. Velhota é diferente. Ao contrário
das velhinhas, são velhuscas que não se conformam com a velhice e vivem
aborrecendo a todos, crianças, jovens e velhos.
29/7/2006.
A
maior utilidade dos best-sellers é movimentar o mercado livreiro, que, dizem os
otimistas, ficará mais à vontade para investir em obras menos rentáveis.
Não
é verdade. O lucro é para investir em mais best-sellers, que movimentarão ainda
mais o dito mercado, e assim por diante, numa espiral de crescimento que tem
como início e fim o próprio dinheiro. É a lógica do consumo. Alguns clássicos
sempre serão reeditados, pois haverá sempre público, perdão, mercado para eles,
embora reduzido. Investimento em livros ditos literários é brincar com time e
money.
Se
eu fosse editor e pensasse como tal, deixaria meus inéditos mofando na gaveta.
Ou daria a eles uma gaveta transparente na internet, com a vaidade satisfeita e,
o que é importante, sem custos adicionais além do próprio custo da
escrita.
30/7/2006.
Vi
na TV. Mulher grávida de três meses foi autorizada a abortar, pois o feto não
tinha cérebro. Tirou o feto. Fez bem. Já pensou se vira presidente da
república?
31/7/2006.
Tuga me acordou às duas da manhã. Latia forte:
—
Ou, ou!
Outros
cachorros latiam no bairro, talvez em toda a cidade. Uma orquestra sinfônica de
cães, com todos os presumíveis timbres caninos, executando uma atônita sinfonia
de latidos.
Dormi
e acordei de novo. Meu cachorro continuava latindo:
—
Ou, ou...
Agora
só ele. Persistia num solo melancólico, sem acompanhamento, um cansado solo de
tuba que logo foi engolido pelo meu sono.