NOTAS
PARA UM DIÁRIO - 10
01/06/2006. A
lei de trânsito mais respeitada não está escrita no código: a do menor
esforço.
Mas
sou do tempo das charretes. Não gosto de andar de carro. Andar de carro, entre
outras coisas, é sofrer a lei do menor esforço alheio. A única forma de suportar
o carro é dirigindo.
E
há quem ame os carros... Sem dúvida, é um dos mais vivos sinais de decadência da
nossa época. Nada mais vergonhoso que um marmanjão alisando um monte de lata e
ferro.
No
tempo das charretes, alisavam-se éguas. O espetáculo mais bonito da minha rua
era quando seu João, naquelas velhas tardes de domingo, invariavelmente lavava e
penteava seus dois belos veículos animais: Fineza e Vaidosa. Cuidava das éguas
com zelo quase paterno. Amava-as. Tinha duas só para não judiá-las demais no
trabalho de carroceiro.
Um
dia, seu João ficou viúvo, seu João morreu, as éguas morreram e a casa de seu
João foi vendida pelos herdeiros a um sujeito que tinha carro. Um carro quase
novo, comprado com dinheiro suado, com prejuízo da comida e da roupa da família.
Aliás, o carro também fazia parte da família. E o sujeito do carro, assim como
seu João, também passava todas as tardes de domingo lavando e lustrando seu
monte de lata e ferro.
Amava
o carro, como seu João amava as éguas. Há amor e amor.
02/06/2006. —
Não esquece de regar as plantas do vovô, João Francisco. Elas estão com sede. Se
até os bandidos do PCC tem direito a comida, comida da
boa...
03/06/2006. Os
verdadeiros comentaristas políticos são os chargistas.
Equilibradíssimos.
04/06/2006. Depois
que inventarem a transfusão de felicidade, certamente não haverá mais
deprimidos. Serão todos alegres. Haverá tanta alegria, tanta risada, que acabará
enchendo o saco e as pessoas vão começar a contrabandear do Paraguai umas
tristezinhas simpáticas.
05/06/2006.
A
filosofia precisa fugir do presídio da academia e voltar a sorrir, escarnecer,
indignar-se; expressar-se com a elegância dos verdadeiros poetas, que ainda é a
melhor maneira de contradizer a época do jeans rasgado e das idéias rotas.
Todo
filósofo sério devia se permitir ao menos um minuto de ceticismo por dia. É pena
que uma coisa tão bela como a dúvida esteja para sempre associada a um filósofo
maçante como Descartes... Quem se deixa levar pela tolice da certeza, vira um
profissional da insistência — e quem vive insistindo só convence aos tolos.
Nietzsche, que filosofava a golpes de marreta, acabou chefe de seita. Não posso
acreditar que a defesa da civilização tenha de empunhar pedra lascada, em vez de
sutileza.
06/06/2006.
Enquanto
curtimos as idéias bem sacadas que estão nos bons livros, estamos vivendo como
os deuses — disse Hölderlin por nós. Não importa que essas coisas sublimes logo
se desvaneçam e o Olimpo esteja mais vazio que uma tela de
Hopper.
07/06/2006.
A
velha objeção ao ceticismo, que duvidaria de tudo, menos de si mesmo, não tem o
menor sentido. O bom cético duvida até de si mesmo, considerando sempre a
possibilidade do inimigo estar certo.
O
que me impede de ser um cético completo é a certeza absoluta de que o indivíduo
de bom gosto jamais levará muito a sério a política. Não passa de bom
divertimento, circo de luxo, que ganhou muitíssimo com os telejornais. Hoje
entendo porque o circo de lona decaiu. Como ia competir com o congresso e os
clowns de paletó?
08/06/2006.
Se vivêssemos uma democracia plena, a campanha pelo voto nulo — a única que não
engana — teria o mesmo espaço, na tv, que os partidos
mentirosos.
09/06/2006.
Sonhou
tanto naquela noite que, ao despertar, custou a acomodar-se à realidade —
parecia fictícia demais.
10/06/2006.
Terceto
final de um soneto otimista:
“E,
embora tudo acabe num
segundo,
Fico
pensando como é boa a vida
E
muitas vezes como é bom o mundo.”
11/06/2006.
A mãe tinha tanta dó dos filhos, que vertia rios de lágrimas só ao imaginar o
quanto eles sofreriam com sua morte.
12/06/2006.
O
roqueiro resistiu à voz de assalto e o balearam. Foi o último rock de sua
vida.
13/06/2006.
Consegui
evitar sem muito esforço aquele velho contágio passional da copa do mundo. Acho
que estou remoçando.
14/06/2006.
Não é novidade para ninguém, verdade mais velha que a luz do sol e contemporânea
do caos primordial: há mais crueldade entre dois namorados que entre dois
generais em guerra (que até podem virar amigos e tomar uisque no mesmo balcão,
pois é uma inimizade abstrata, escondida atrás das táticas e estratégias que a
distante soldadesca executará).
Já
dois ardentes namorados nunca serão bons amigos. O amor sexual é o sentimento
mais incivil da face da terra: merecia ser milimetricamente controlado pela
polícia.
15/06/2006.
Democracia
é a mais universal das políticas: um governo em nome dos pobres, exercido pela
classe média e visando mais lucros para os ricos. O lucro material é quase só
dos ricos. Para os pobres, basta um certo lucro nominal, jurídico: viver com a
sensação de que são iguais aos donos do dinheiro, como se igualdade fosse um bem
mais natural que conquistado.
Para
a massa democrática, que mal aprendeu a soletrar e já compra livros, Paulo
Coelho é superior a Machado. Se eu fosse crítico literário, juro que seria
impressionista. É, de longe, o melhor método. Mas impressionismo tem limite. Ser
igual, na maioria das vezes, é falar com autoridade do que não se entende. É a
arrogância democrática substituindo a velha arrogância
aristocrática.
Ninguém,
na imprensa ou na universidade, dá um pio contra, pois não é democrático
condenar o gosto alheio. Mau gosto já não existe mais: só gosto alheio, que deve
ser respeitado. O que, no fundo, é só respeito pelo mau gosto alheio, baixo
relativismo, geléia geral.
Arrogância
deixou de ser atributo dos endinheirados. Mas juro que ainda não sei qual
arrogância é pior: a dos ricos, que têm o poder, ou do populacho, projetiva e
mimética, baseada na inconfessável vontade de poder.
16/06/2006.
A
sutileza a que chegou o violão de Luís Bonfá, no fim da vida do compositor, é
mais um desses milagres da música. Nada de unha ferindo agressivamente as
cordas: só a pele da falange roçando-as, acarinhando-as. Coisa de alma para
alma. Pura introspecção. A maior prova de que a anatomia não explica a alma é
que, depois de conhecido o mecanismo, o milagre da alma continue
presente.
17/06/2006.
Os
técnicos são os estupradores impunes da língua.
18/06/2006. Aluno pelo menos
sincero:
— Professor,
entrei na universidade só pra puxar em paz o meu fuminho.
19/06/2006.
Nós,
do lado errado, só com toneladas de paciência para tolerar essa irremediável
guinada do mundo para o lado certo. Paciência de Jô. Paciência de Sísifo.
Paciência de fila do Bradesco.
20/06/2006.
Antigamente,
quando os brasileiros demoravam semanas para morrer de morte súbita, havia o
chorinho. Era serelepe e veloz. Só funcionava bem por isso mesmo: porque tudo em
volta era muito devagar. Ou seja, a vida tinha ritmo. Ritmo é um pouco de cada
coisa na predominância das outras coisas.
21/06/2006.
Passo
pelo caminhão de sucata. A carroceria vai cheia de latinhas de cerveja. Nunca vi
tantas — de todas as cores. E me vaiando em coro.
22/06/2006.
Não
preciso ter saudades
Dessas
coisas que já estão
Guardadas
a sete chaves
No
fundo do coração.
23/06/2006.
Por
que preocupar-se tanto com o futuro da espécie? Filosofia não é ficção
científica.
24/06/2006.
Fico pensando no prejuízo que a finada União Soviética causou à literatura
russa. Deve ser incalculável. No entanto, no país que deu Dostoiévski, Gogol,
Tolstói, Turgenev, Gontcharov e Tchekhov, é sempre possível explodir algum poço
de petróleo literário póstumo, nos dezessete milhões de quilômetros quadrados
entre o Mar Negro e o Estreito de Bering: os talentos que os comunistas não
deixaram aparecer.
25/06/2006.
E a velha França? Onde estariam escondidos os autênticos descendentes dos
Balzac, Stendhal, Flaubert, Maupassant, Proust, Gide? Talvez o melhor escritor
francês vivo seja o tcheco Milan Kundera, que vive na França e agora escreve em
francês.
Phillipe
Sollers parece um sujeito inteligente. Li dele, pela internet, alguns ensaios
recentes publicados no Le monde. Mas
não engoli o ficcionista, que começou nouveau-roman e parece ter retornado aos
velhos moldes. Foi casado com Julia Kristeva. É possível passar impune por Julia
Kristeva?
26/06/2006.
Primeiro, Deus inventou o mundo. Depois,
o Diabo inventou os problemas do mundo. Em seguida, Deus contratacou com a
solução dos problemas. Até surgir o homem, que transformou a si mesmo no
primeiro problema sem solução.
27/06/2006.
Encontro com um amigo poeta que não faz mais versos e quase não sai à
rua.
—
E aí? — perguntei-lhe. — Anda sumido...
—
É verdade. Fico em casa bebendo sozinho. Bebo toda a garrafa e depois entro
nela, onde fico preso pelo resto da noite.
Meu
amigo continua poeta, como se vê.
28/06/2006.
Se
só tivessem direito à liberdade os que não incomodassem o próximo, o planeta
Terra seria um enorme presídio azul girando cheio de grades em torno do
Sol.
29/06/2006.
Num mundo que vai mesmo de bem a melhor, em que de hora em hora tudo melhora, os
pessimistas ficam completamente desnorteados. Basta eles inventarem o problema
mais criativo, que vem alguém com números irrefutáveis e uma bela solução
definitiva. É frustrante.
30/06/2006.
Obrigado a viver na época em que as pessoas preferem fazer outras coisas, mais
que nunca o artista tem hoje condições de ser herói. Quem tem coragem, por
exemplo, de escrever um quarteto de cordas para ninguém tocar, ou, se tocar,
ninguém ouvir, ou, se ouvir, suavemente adormecer?
É
abnegação no sentido mais nobre. Platonismo total.