Voltar à página inicial

 

   

 

NOTAS PARA UM DIÁRIO -  1

 

 

14 de setembro de 2005. Três da tarde. O pragmatismo é que atrapalha o mundo: a obrigação de tudo o que é pensado dirigir-se rapidamente para a ação, como se pensar, no sentido menos vulgar da palavra, fosse a coisa mais simples que existe. Pensar é difícil. O mundo é complicado. E, entre duas atitudes a tomar, um milênio pode ser pouco tempo para ponderar e escolher. Quem garante que Ulisses alcançará a tartaruga?

 

 

14 de setembro de 2005. Seis horas. Mais um dia de gripe. A filosofia de Aristóteles terá, provavelmente, mais razão. Mas a de Platão é mais bela.

 

 

14 de setembro de 2005. Nove da noite. Nada para ver na televisão. Mas é possível voltar a Sainte-Beuve, um crítico com capacidade de pensar por conta própria, sem muleta metodológica, sem apoio bibliográfico...

Cultura, alguém já disse, é tudo aquilo que fica, depois que se esquecem os autores lidos. O único método é ler bastante, ler com atenção e, depois, expressar-se com clareza, que é sintoma de saúde mental e de boa educação, de respeito ao público. São as grandes lições do crítico francês, das quais o leitor brasileiro é obrigado a ficar distante, porque não possuímos um Sainte-Beuve traduzido em português.

Uma acusação que a crítica posterior sempre lhe faz é a de não ter compreendido seus contemporâneos (Baudelaire, Balzac, Stendhal e até Flaubert). Não é bem assim. Ele só não os aceitou irrestritamente. Como pequena amostra, leia-se o que escreveu sobre Flaubert e acaba valendo para os flaubertianos da “modernidade”, sobretudo o nouveau roman francês:

“Uma qualidade preciosa distingue o Sr. Gustavo Flaubert dos outros observadores mais ou menos exatos que, em nossos dias, se vangloriam de tomar consciência da realidade, o que às vezes conseguem. Flaubert tem estilo. Tem até um pouco demais, e sua pena se compraz em curiosidades e minúcias de descrição contínua que, às vezes, anulam o efeito total.  Nele, as coisas ou figuras que foram feitas para ser olhadas, são um pouco apagadas ou niveladas pelo muito relevo que ele dá aos objetos circundantes.” (“Madame Bovary”)

Além de bom interprete, Sainte-Beuve tinha erudição. Num pequeno trecho do ensaio “O que é um clássico?”, ensina as origens latinas da palavra clássico, no sentido em que é usada em literatura:

“Um clássico, conforme a definição ordinária, é um autor antigo, já consagrado pela admiração e que tem autoridade em seu gênero. A palavra clássico, tomada neste sentido, começa a aparecer entre os Romanos. Entre eles, chamava-se propriamente de clássico, não os cidadãos das diversas classes, mas somente os da primeira, que possuíam um bom rendimento, a partir de certa quantia determinada. Todos os que possuíam um rendimento inferior eram designados pela denominação infra classem, abaixo da primeira classe. No sentido figurado, a palavra clássico se encontra empregada em Aulus-Gelle, e aplicada aos escritores: um escritor de valor e de importância, classicus assiduusque scriptor, um escritor que conta, que tem seu lugar ao sol, que não é confundido com os proletários. Uma tal expressão supõe um bom distanciamento temporal para que haja uma escolha e a classificação dentro da literatura.”

A esquerda mais ingênua deve gostar, pois revela as origens “espúrias” do termo. Também agradará aos que acreditam que a boa literatura vai ser, sempre, coisa de minoria, produto de uma espécie de aristocracia espiritual condenada a ter poucos leitores (ou “receptores”, como prefere nosso pedantismo acadêmico).

Ao contrário do intelectual sectário, quem pensa por conta própria — e mergulha fundo nas contradições individuais, evidenciando-as — tem mais chances de agradar a um maior número de leitores, que se verão de algum modo reconhecidos nesse ou naquele aspecto das obras mais complexas.

Os grandes ensaístas não têm a palavra final. Funcionam como inseminadores do futuro.

 

 

21 de setembro de 2005. Seis da tarde. Só agora me lembro que hoje é dia da árvore. Segundo a televisão, é também dia internacional da doença de Alzheimer. No país do Lula, a segunda comemoração faz mais sentido.

 

 

23 de setembro de 2005. Começa a primavera. Da minha sala, na escola em que trabalho, olho para o bosque quase ao lado. As árvores são altas e velhas, muito anteriores ao campus fundado em 1958. No fundo, vejo o prédio da biblioteca. Penso na bela coleção de filosofia, no bom acervo de literatura e história. Aqueles professores de cinqüenta anos atrás sabiam montar uma biblioteca. Mas é uma pena: quase já não há quem leia aqueles bons livros. Nossos alunos foram seqüestrados pela música popular, pelo cinema, pela internet. Se tudo isto aqui, livros e árvores, permanecer de pé depois do furacão de barbárie planetária que assola o mundo, quem sabe um dia volte a ser universidade. Debaixo da terra, minha mísera ossada exultará.

 

 

24 de setembro de 2005. A TV Cultura voltou com a programação de música clássica. Mas na madrugada, para ninguém ouvir. # Acabo de ler na Folha uma pequena entrevista com Harold Bloom. Segundo ele, estamos na Idade da Tela. “As pessoas não lêem de modo profundo e sério. Com isso, não se raciocina bem, pois o pensamento depende da memória e o que iremos lembrar se não lembrarmos o melhor do que foi escrito? Parece que estamos resvalando para o barbarismo, e esse fenômeno é universal.”

 

 

25 de setembro de 2005. Heidegger, em geral, é insuportável: impossível ler algum escrito dele até o fim. Mas, quando acerta, é no nervo. Não consigo acompanhá-lo em suas digressões sobre o ser, mas compreendo sua insistência em falar do ser numa época atulhada de coisas e fatos, imediatamente preocupada com a aplicabilidade das idéias.

 

 

25 de setembro de 2005. Minha mulher passou o final de semana corrigindo provas. Eram provas discursivas, longas. Como ensina para muitas e numerosas turmas — turma, no conceito dos secretários de educação, significa tropa —, havia muitíssimas, numerosíssimas provas. Eu admirava a atenção que ela dava a cada uma daquelas folhas de papel, geralmente preenchidas com desprezo, por alunos que mais ganhariam se aprendessem uma profissão. Escola profissionalizante: é a única saída para a massa que hoje ocupa as salas de aula. E seria uma solução perfeita para a maioria de professores que hoje ensina história, geografia, matemática, português, e que nada sabem dessas disciplinas, mas são boas manicures, cabeleireiras, cozinheiras, eletricistas, encanadores, etc. As pessoas certas, no lugar certo. De vez em quando, vejo minha mulher preparar um belo poema do Mário Quintana para ler e comentar com aqueles moleques e molecas boçais, treinados em rock, pop, rap, sexo, fumo (com as devidas exceções). Não escrevo isso — moleques e molecas boçais — com o sádico prazer de constatar que eles existem, mas com uma indignada piedade do que foi feito dessa gente. Trabalho manual para eles. Não há outra solução.

 

 

27 de setembro de 2005. Agora sei, finalmente, por que Zubin Metha vetou Wagner na Filarmônica de Israel. Não é por antipatia pessoal com a obra do compositor, como certa imprensa noticiou. Ao contrário, Metha gosta de Wagner, como seria normal numa pessoa normal. Em entrevista ontem (gravada em 8 de agosto) ao Roda-Viva, da Cultura, explicou que é respeito aos sobreviventes do holocausto que ainda vivem em Israel. Por que submetê-los à experiência de lembrar-se dos campos de concentração através dos “Coro dos peregrinos”, da Tannhauser, que os nazistas mandavam tocar durante o sacrifício humano? As lembranças, quando vêm pela música, vêm mais fortes. É lamentavelmente compreensível.

 

 

28 de setembro de 2005. Ando, há muito tempo, atrás de silêncio. Um silêncio perto de altas e desabitadas montanhas, talvez em Minas. Longe das pessoas, da televisão, dos automóveis. Longe de tudo. Lá onde começa o nada: um nada que nada tem a ver com Nada. Minha idéia de nada inclui pássaro, árvore, córrego. Eu não quero viajar como turista. Nada é mais abominável que um hotel-fazenda. Não suporto roças de cartão-postal. O que me interessa é uma coisa mais séria. Quero ficar sozinho com meus pensamentos e botar em ordem duas ou três idéias: a vida, a morte, talvez Deus.

 

 

29 de setembro de 2005. O calendário não pára. Arrasta-nos sem dó para o abismo. Escrever dá uma certa ilusão de permanência, mesmo que ninguém leia o que escrevemos. De qualquer modo, é um testemunho do circo. Provavelmente, não viveremos outra vida. Essa suspeita faz com que alguns indivíduos, que por acaso aprenderam a juntar palavras em papel, sintam uma absurda necessidade de confindenciar sua experiência do circo a um hipotético e grande olho cósmico, como se houvesse um invisível olho cósmico espiando-nos de longe. Aparentemente, decide-se a escrever um diário porque há o que dizer a si mesmo, e, quando o diário é público, pressupõe-se que seja por haver o que dizer aos outros. Prefiro pensar que o destinatário das mensagens, ou o desejável receptor — como gostam de dizer professores de literatura — é o grande e invisível olho cósmico que nos ensinaram a imaginar desde crianças. Para resumir numa só palavra, muito maltratada por Nietzsche: Deus. Quem escreve é, por natureza, um exibicionista, mas é também um inconformado com a transitoriedade das coisas. Mesmo oficialmente ateu, faço de conta que Deus existe — um Deus muito mais leitor do que ouvinte — e está lendo minhas lamúrias de insatisfeito. “Só um Deus pode nos salvar”, disse certa vez Heidegger em entrevista, obrigado a falar com clareza. E que clareza!

 

 

30 de setembro de 2005. Gosto de escrever e faço-o, compulsoriamente, desde os quinze anos. Tenho quase cinqüenta... Trinta e cinco deles, portanto, foram gastos com literatura. Dos livros que escrevi — e continuo reescrevendo —, publiquei dois por minha conta. Arrependi-me, mas me consolo ao lembrar que as tiragens foram insignificantes e poucas pessoas tiveram notícia das duas catástrofes.

Ausência de amor próprio, ou de auto-estima, como se prefere dizer hoje? Não acredito. Disse o badaladíssimo Mário de Andrade que se o escritor mostra, é por vaidade. Se não mostra, é vaidade também. Nessa linha de raciocínio, tinham alguma razão os comunistas quando grunhiam que literatura era masturbação intelectual. Mesmo que o “vício impune” da literatura revele alguma incompetência para a vida normal, ninguém passa a vida inteira escrevendo por ódio a si mesmo, como uma forma de suicídio sublimado.

Quando tento definir minha situação, concluo sem muita dificuldade que sou um diletante. De preferência, no sentido etimológico da palavra: aquele que gosta de certa atividade e a pratica sem outro fim que ela mesma.

Não sou escritor profissional, dependente de público e editores, o que pode não ser tão bom para o ego, mas tem a vantagem de me deixar mais livre para o mundo da lua, sem nenhuma pressa de chegar ao ponto final. Um escritor famoso, Philip Roth, mais de uma vez falou irritado sobre os inconvenientes do êxito e da fama, embora tenhamos o direito de achar que ele não trocaria a fama inconveniente pelo anonimato diletantesco. É a mesma história da morte como descanso. “Prefiro viver cansado”, diz o senso comum.

Se minha papelada literária tiver algum valor, coisa que até acho provável, o que representará para a vida literária? A literatura, hoje, pode se dar ao luxo de dispensar os vales e viver só dos cumes que já produziu. Mesmo assim, o leitor mais longevo ainda não dará conta de os ler. Presentes e futuros escrivães, por mais esforçados que sejam, cercados de gráficas por todos os lados — nunca foi tão fácil imprimir um livro —, podem perfeitamente contentar-se com a gratuita internet.

Navegar é preciso, escrever também. Depois da perda de fé em Deus e nas orações da Igreja Católica, a literatura os substituiu para mim. É uma atividade quase religiosa, exercida por um ateu permanentemente inconformado com a inexistência de Deus. É uma forma compensatória de transcendência sem absoluto.