SETEMBRO/2011

 

AGOSTO/2011

 

JULHO/2011

 

JUNHO/2011

 

MAIO/2011

 

ABRIL/2011

 

MARÇO/2011

 

FEVEREIRO/2011

 

JANEIRO/2011

 

DEZEMBRO/2010

 

NOVEMBRO/2010

 

OUTUBRO/2010

 

SETEMBRO/2010

 

AGOSTO/2010

 

JUlHO/2010

 

JUNHO/2010

 

MAIO/2010

 

ABRIL/2010

 

MARÇO/2010

 

FEVEREIRO/2010

 

JANEIRO/2010

 

DEZEMBRO/2009

 

NOVEMBRO/2009

 

OUTUBRO/2009

 

SETEMBRO/2009

 

AGOSTO/2009

 

JULHO/2009

 

JUNHO/2009

 

MAIO/2009

 

ABRIL/2009

 

MARÇO/2009

 

FEVEREIRO/2009

 

JANEIRO/2009

 

DEZEMBRO/2008

 

NOVEMBRO/2008

 

OUTUBRO/2008

 

SETEMBRO/2008

 

JULHO/2008

 

JUNHO/2008

 

MAIO/2008

 

ABRIL/2008

 

MARÇO/2008

 

FEVEREIRO/2008

 

JANEIRO/2008

 

DEZEMBRO/2007

 

NOVEMBRO/2007

 

OUTUBRO/2007

 

SETEMBRO/2007

 

AGOSTO/2007

 

JULHO/2007

 

JUNHO/2007

 

MAIO/2007

 

ABRIL/2007

 

MARÇO/2007

 

FEVEREIRO/2007

 

JANEIRO/2007

 

DEZEMBRO/2006

 

NOVEMBRO/2006

 

OUTUBRO/2006

 

SETEMBRO/2006

 

AGOSTO/2006

 

JULHO/2006

 

JUNHO/2006

 

MAIO/2006

 

ABRIL/2006

 

MARÇO/2006

 

FEVEREIRO/2006

 

JANEIRO/2006

 

DEZEMBRO/2005

 

NOVEMBRO/2005

 

OUTUBRO/2005

 

SETEMBRO/2005

 

 

 

 

 

 

 

CONSAGRO-VOS A MINHA LÍNGUA

romance de José Carlos Zamboni

Opiniões sobre o livro

à venda na editora é

 ou na Livraria Cultura - SP

 

 

 

JOSÉ CARLOS ZAMBONI        Notas, rascunhos & outros delitos

A GAVETA TRANSPARENTE

 

ATALHO PARA O BLOG

 

 

16/01/2012. Em geral, todo o escritor conhece de perto o comportamento obsessivo-compulsivo, que pode ou não se transformar em transtorno. Ele é particularmente invadido por pensamentos ou ideias, imagens ou cenas, tão persistentes que até cria, ao longo da vida,  um modo de lidar com eles, fazendo-os desaguar na criação literária. Em vez de inventar comportamentos (ou manias) para neutralizá-los, aprende a cultivá-los nos jardins subterrâneos da criação.

A vida lhe seria inimaginável sem esses probleminhas. Em vez de buscar eliminá-los com outros atos ou pensamentos obsessivos, vítima de um movimento rotativo espiralar e sem fim, trata-os com carinho, pois aprende com o tempo a transformá-los em matéria-prima do jogo literário. Não os sente como estranhos nem intrusivos, mesmo quando causem aumento de ansiedade e até grande desconforto, pois sabe que seus textos lucrarão com eles e, por tabela, ele próprio.

Ao contrário do esquizofrênico, sabe que esses pensamentos vêm da sua mente, embora a tradição grega não descarte a possibilidade de intervenção das musas (“daimons” ou entidades espirituais, que soprariam 1% da inspiração, deixando os outros 99% para o suor e a transpiração do poeta). O escritor cristão, que crê na ação do Espírito Santo, também costuma aceitar a possibilidade do pessoal lá de Cima interferir discretamente no trabalho artístico, como em qualquer outra atividade, dependendo da vontade de Deus de conceder ou não a graça.

Em vez de considera-las coisas sem sentido, embora continue a perceber o caráter irracional das obsessões, pois são desobedientes a seu comando racional, ele aprende, digamos assim, a domesticá-las, e por isso não lhe atrapalham tanto as atividades normais, embora geralmente reconheça que sua vida pessoal e seu relacionamento familiar acabem de algum modo afetados por essas excentricidades mentais.

A maioria dos escritores não aceitaria ser curada desses hábitos ou pensamentos recorrentes, obsedantes. A atividade artística ou religiosa seria impensável sem esse mecanismo, que termina por se transformar em caminho por onde podem passar estranhos veículos, que vão desde uma generosa oferta das musas, até uma desconfortável mas espiritualmente produtiva crise religiosa.

Quando o caminho fica por demais intrafegável, o escritor tem todo o direito de apelar para o psiquiatra, que vai tapar os buracos da estrada ou recapeá-lo. Aí deve parar a sua nobre função. Você consegue imaginar um psiquiatra que, para tornar um Shakespeare mais “convivível” com seus parentes e amigos, procure recondicionar suas obsessões, correndo assim o risco de secar a fonte de inspiração do poeta?

Ou então pensemos em Jesus, aquele nazareno cheio de excentricidades, do qual os padres, diariamente, obsessivamente, vivem falando... Vamos até admitir, para facilitar a conversa, que Ele não seja Deus, como dizem os ateus ou os Testemunhas de Jeová; que tenha sido só um homem diferente. Se o tivessem levado a um psiquiatra, quando começaram as suas “manias” religiosas, a civilização ocidental teria sido outra, inimaginavelmente mais pobre... Felizmente, não havia psiquiatria na Judeia.

Talvez a primeira coisa que um jovem psiquiatra devia aprender, ao começar a especialização, é que sua ciência não pode resolver todos os transtornos da mente e do comportamento. Com essa humildade inicial, que qualquer pessoa normal consideraria razoável, acaba-se abrindo espaço forçosamente a outras formas de lidar com problemas desse tipo, concordemos ou não com elas — como, por exemplo, a religião. Por que o psiquiatra, em vez de refutá-la cegamente, não reconhece que ela é muito mais antiga, incomparavelmente mais antiga — nos povos primitivos, o sacerdote e o médico eram uma só pessoa —, e poderia até aprender com ela? Jung desconfiou que Freud tinha sido apressadinho demais em seu diagnóstico da religião e foi atrás dos padres, dos magos, dos deuses. Viktor Frankl, outro psiquiatra de bom senso, afirmava que a repressão do nosso instinto religioso é muito mais maléfica do que repressão sexual.

 

 

15/01/2012. Meu amigo Hildo foi a Ribeirão Preto confessar os pecados, mas não achou padre disponível:

— Quando acabei de subir as escadas da Catedral, logo vi o aviso na folha de sulfite, ao lado da caldeira de água benta, impresso naquele horrível e desbotado tom cinzento de quem quer economizar tinta de impressora: “Confissões só a partir de fevereiro.” Desci os degraus com ira santa e procurei a papelaria mais próxima, comprei um pincel atômico vermelho e voltei à igreja. Esperei uma velhinha entrar, cuidei que não houvesse ninguém me observando, e escrevi debaixo do aviso, com a cor do inferno: “Satanás está de férias.”

 

 

14/01/2012. Na entrevista “O socialismo é uma doutrina triunfante”, publicado originalmente na edição 435 do site Brasil de Fato, Antonio Candido atribui ao socialismo (escondido no capitalismo como um cavalo de Troia) aquilo que outros veem como consequência do próprio capitalismo, em seus estágios mais avançados, quando foi possível ultrapassar a barbárie do início, na revolução industrial, e tratar o operário com mais dignidade. O impulso por justiça, que surgiu entre os trabalhadores, não é visto por ele como algo inerente ao próprio capitalismo, uma dinâmica interna de ação e reação, uma defesa do próprio corpo contra um elemento que poderia destruí-lo, mas como algo de fora, uma poção quase milagrosa que vem dos céus revolucionários para salvar o corpo enfermo da sociedade.

Clara influência gnóstica, maniqueísta, que biparte a sociedade em dois lados radicais, um bom e outro mau.

 

 

13/01/2012. Pensa Antonio Candido que, se for necessária uma suspensão provisória dos direitos humanos para alcançar justiça social, nada teria a opor.

Quem quiser um exemplo, na prática, de como funciona essa antoniocandida suspensão provisória dos direitos humanos, basta ver o belo filme de André Wajda, Katyn, sobre o massacre de poloneses no início da Segunda Grande Guerra, inicialmente atribuído aos nazistas, mas depois restituído ao verdadeiro dono: os russos. Sobretudo a cena final, quando os soviéticos furam o crânio de milhares de polacos à beira da vala comum, recém aberta pela motoniveladora, muito semelhante às que foram realizadas pelo governo cubano.

Santo Deus! Por que, ao lado das vítimas do capitalismo, continuar imolando um número absurdamente maior de cordeiros, agora em nome de um futuro que Antonio Candido sabe não vai ser glorioso, como ele mesmo disse na entrevista citada? Que estranha necessidade é esta de deixar girando a roda dos sacrifícios per onnia saecula saeculorum?

É nesta hora que deve cair em nossas cabeças caipiras, como jaca madura, a verdade cristã da hora pascal: Jesus, o cordeiro, se deixou morrer para eliminar, de uma vez por todas, o longevo bode expiatório das religiões pagãs, incluindo a socialista. Foi o último bode expiatório, para desarmar para sempre o mecanismo do bode expiatório, na bela interpretação do antropoteólogo René Girard.

 

 

12/01/2012. Na entrevista “O socialismo é uma doutrina triunfante”, disse Antonio Candido: “Tenho temperamento conservador, atitudes liberais e ideias socialistas.” Obediente a seu temperamento conservador, Antonio Candido não usa computador nem internet, mas gosta de televisão. Fiel ao método dialético, jura que a “A televisão é uma praga”, mas logo em seguida “antitetiza” o pensamento anterior: “Eu adoro”.

Mas é dialético só quando lhe interessa. Segundo ele, os meios modernos de comunicação “são muito venenosos (...) A televisão faz um inculcamento subliminar de dez em dez minutos, na cabeça de todos (...) imagens de whisky, automóvel, casa, roupa, viagem à Europa – cria necessidades. E claro que não dá condições para concretizá-las. A sociedade de consumo está criando necessidades artificiais e está levando os que não têm ao desespero, à droga, miséria...”

Esquece-se, porém, de lembrar, dialeticamente, que os socialistas empregados das empresas de mídia, fiéis ao ensinamento gramsciano, há muito tempo usa as mesmas técnicas de propaganda subliminar, e mesmo ostensivas, em sentido que o crítico aprovaria sem hesitar: militância feminista, pró-casamento gay, pró-aborto, ódio racial, luta de classes etc. Estão nas novelas, nos noticiários, nas entrevistas, nos reality show.

Somos obrigados a perguntar: um homem inteligente e informado como ele não sabe que a televisão é um forte aliado da revolução silenciosa? Ele mesmo diz que “O socialismo deu certo onde não foi ao poder. O socialismo hoje está infiltrado em todo lugar.” É provável que sim, que saiba; e, neste caso, estará agindo de má fé, mais como militante do que como pensador.

Tenho o direito de desconfiar que toda aquela casca cordial que envolve o homem Antonio Candido, intelectual orgânico no sentido gramsciano, não passa de disfarce, de uso astutamente intencional, e aqui sim dialético, que ele faz de seu “temperamento conservador” a serviço de sua militância socialista. “O socialismo é o cavalo de Troia dentro do capitalismo”, disse na mesma entrevista. O Antonio Candido conservador é o cavalo de Troia, para uso e abuso de nós todos, cheio de soldadinhos socialistas prontos para invadir os cursos de letras do Brasil.

 

 

11/01/2012.  “Deixa-me contar algumas coisas sobre Adolf Eichmann. Era um homem muito disciplinado. Não bebia nem comia exageradamente. Era inteligente, falava com serenidade e modéstia, muitos diriam até que era uma pessoa encantadora. Gostava de Mozart e de rosas. Planejou a morte de vários milhões de pessoas. Não era caráter o que lhe faltava.” (Michael O’Brien, Padre Elias)

 

 

10/01/2012. Visitei meio a contragosto, por obrigação familiar, as cataratas do Iguaçu. Confesso que são muito espetaculares para minha Weltanschauung caipira. Os corguinhos do sítio do vovô Zezé me emocionavam muito mais.

O show aquático de Iguaçu virou santuário da nova religião panteísta que o ecologismo criou para nós. A gente quase tropeça nos romeiros que descem pelas trilhas limpas e cimentadas — argentinos, paraguaios, chilenos e até baianos. Há pessoas que choram quando diante daquele portentoso efeito cenográfico, produzido pelo acaso das erosões e domesticado pelo governo brasileiro, que cobra caríssimo pelas visitas.

Verdadeiramente bela é a garça que pousou de leve na pedra molhada, lá embaixo. Branca e pura como as hóstias do poeta Alphonsus de Guimarães. Meu Deus, estarei cometendo racismo?

 

 

09/01/2012. Para-choque de caminhão filósofo, em Maringá.

Feliz foi Adão

Que não teve sogra

Nem televisão.

 

 

08/01/2012.  “Ou você é cristão, ou é alemão. Não pode ser as duas coisas ao mesmo tempo”, disse Adolf Hitler, que nem alemão era.

 

 

07/01/2012. Sempre que vejo, pelas estradas, a placa “Trecho sujeito a neblina”, me lembro súbito dos textos de Martin Heidegger. E quanto tempo perdi tentando decifrar aqueles parágrafos nebulosos do baixinho de Messkirch, esperando que, depois da leitura, a chave conceitual do universo fosse cair magicamente em minhas mãos...

 

 

06/01/2012. No Paraná, tudo é possível. Inclusive um mosteiro carmelita fantasticamente perdido no meio do agronegócio da soja. Quem duvidar, dê um pulo em Campo Mourão — e aproveite para conhecer, nas imediações, o único rio do mundo que, em vez de nome, tem número, como os presidiários de filme B.

 

 

05/01/2012. Quando digo que perdemos, muitos de nós, o respeito pelo crítico Antonio Candido, é preciso explicar que o repúdio não é pelo homem, mas por suas ideias. O homem Antonio Candido o vi de perto, no final dos anos oitenta — e me pareceu ser um homem bom, além da admirável destreza docente.

Primeiro, foi em 1988, ao assistir a uma palestra sua, em Ribeirão Preto, quando ele criou extraoficialmente o Estado da Mogiana — num impulso de criação literária, ele que não é um criador —, reunindo um pedaço de Minas Gerais e outro de São Paulo, compreendendo a área servida, antigamente, pela velha estrada de ferro da Mogiana,  permanentemente obrigada a pronunciar e a ouvir o “r” mais terrível do Brasil. “Estado” ao qual pertence a cidade em que vivo eu, Batatais, em que vive, por exemplo, o escritor Luiz Vilela, Ituiutaba, e em que viveu o próprio Antonio Candido: Poços de Caldas e Santa Rita de Cássia.

Depois o vi num curso de uma semana, em 1989, sobre Romantismo e modernidade, na Unesp em que dou aulas. Tanta gente se inscreveu para ver o célebre professor aposentado, que a única saída foi transferir as aulas para o grande auditório da Faculdade. Nessa oportunidade, creio que no último dia do curso, conheci o seu lado mais interiorano, desapegado do cerimonial acadêmico. Foi quando, ao perceber que descia pelo corredor lateral um velho de chapéu na mão, destoando completamente do perfil  universitário, ele interrompeu as digressões teóricas e saudou alegremente a inesperada visita. Tratava-se de um primo que morava na Alta-Sorocabana e que há muito não via. O ilustre professor obrigou o primo caipira a sentar-se a seu lado, na mesa de conferência, onde ficou até o final da aula.  Tudo ocorreu muito naturalmente, sem que eu pudesse notar no fato nenhum sinal revolucionário de quebra de protocolo.

O poder de sedução do Antonio Candido, pessoal e escrito, é grande. Era de uma época em que os intelectuais ainda não se envergonhavam da erudição, aquela erudição própria dos intelectuais da velha guarda, muitos deles com saber enciclopédico e aquele espírito universal herdado da moribunda civilização judaico-cristã. Os mais íntimos garantem até que, além de melômano, Antonio Candido é um bom tenor. É uma pessoa bem humorada, um gentleman caipira, de discreta elegância, que quase não se vê mais nos meios acadêmicos da dita pós-modernidade (ou hipermodernidade, como quer um certo Lipovetsky). Colegas de faculdade, que foram seus alunos ou que com ele, de algum modo, privaram, são unânimes em atestar a sua gentileza e cordialidade.

 

 

04/01/2012. Obrigado a soldar as obras lidas, se recentes, ao organismo vivo já pré-existente da civilização ocidental; ou nesse mesmo organismo confirmar obras mais antigas, que ele relia e reavaliava, tirando-as do injusto esquecimento ou sepultando-as ainda mais na vala comum das coisas mortas, um crítico literário sério nunca podia ser um gélido resenhista de livros, um mero contabilista no comércio das ideias.

Era, sobretudo, um juiz — permanentemente solicitado a condenar ou absolver autores e obras. Médium entre a tradição e o momento, o perene e o transitório, necessitava de “cultura geral” para a realização desse trabalho reavaliativo: era um homem culto, transitando com desembaraço por todas as ruas e becos das chamadas humanidades.

Diante dos escritos de um cidadão desses, com tamanha responsabilidade na formação do público, nada mais justo do que o leitor do passado perguntar-se: o que pensa Sainte-Beuve ou Sílvio Romero a respeito de Deus, da ciência ou da política?

— O que pensa o contemporâneo Antonio Candido, guru de todos nós na universidade brasileira, sobre Deus, ciência e política?

Eis uma pergunta que todos temos o direito de repetir, hoje.

 

 

03/01/2012. Muita gente perdeu o respeito pelo crítico Antonio Candido quando, no jornal Folha de São Paulo, início dos anos noventa, abandonou pusilanimemente um debate com Miguel Reale, depois de questionado pelo filósofo sobre sua conhecida ligação com Cuba. Foi o meu caso: passei a dar razão ao Paulo Francis, que nunca caiu no pecado de exagerar a importância do famoso crítico.

Antonio Candido viu, paranoicamente, má fé na provocação do adversário, uma inaceitável descida de nível, e saiu de campo ressentido. O que tinha acontecido com ele? Quem conhece as suas opiniões políticas, sabe que foi um opositor do estalinismo e adepto, desde os anos quarenta, de um socialismo comedido.

Cuba, porém, mexeu com o nosso homem, que depois foi a Havana e gostou do que viu. Na polêmica da Folha, pretendia que a discussão com Reale passasse esquizofrenicamente ao largo dessas questões menores, subindo diretamente ao plano mais teórico do confronto liberalismo versus socialismo, sem esbarrar no pessoal, no existencial.

Ele sabia muito bem que, quando tivesse de atribuir as presumíveis boas obras da revolução cubana ao totalitarismo do regime, ficaria numa tremenda saia justa, e a única saída seria admitir, com a clareza por ele tão respeitada, que a imolação do próximo é plenamente justificável quando o objetivo é “nobre” (transtorno mental e moral devido ao uso imoderado de Marx e Lenin).

Preferiu, porém, não sair mal na foto, e nós, leitores, perdemos a oportunidade de acompanhar um debate que podia tocar nas grandes questões políticas e humanas daquela época. Pelo menos um dos lados da contenda, o de Miguel Reale, estava disposto a isso.

 

 

02/01/2012. Variações sobre um salmo de Davi.

Nada me falta se o pastor é Deus.

Em pastos verdes me faz repousar;

À refrescante fonte os passos meus   

Conduz para o meu ânimo voltar.

Nos bons caminhos Deus é quem me guia.

Mesmo se eu for por tenebrosos vales,

Atormentado por terríveis males,

Não terei medo em Sua companhia.

Meus inimigos viram com tremor

Quando Ele convidou-me para a mesa,

Ungiu-me a testa e transbordou-me a taça.

Para onde eu vá, misericórdia e amor 

Hão de seguir-me com toda a certeza.

Se Deus é o Pai, herdeiro eu sou da Graça.

 

 

28/12/2011. Prezado amigo ateu, se você perceber que sua fé materialista anda meio abalada, tenho a solução para o problema: assista a uma missa em minha cidade, e seu ateísmo estará novamente em forma, pronto para continuar brigando com Deus. Se minha cidade é muito longe da sua, não faz mal. Procure qualquer paróquia católica em sua cidade, que o efeito será rigorosamente o mesmo.

 

 

27/12/2011. O comentarista literário tem todo o direito de usar hipérboles para enfatizar juízos, mas é completamente idiota afirmar o que afirmei na nota anterior: “Juro, pela Santíssima Trindade e a Nossa Senhora, que o maior poeta brasileiro dos últimos dois milênios é o Mário Quintana”. O leitor mais complacente vai botar isso na conta do entusiasmo:

— Como ele gosta do poeta gaúcho!

Já um leitor mais suscetível irá ofender-se com minha tentativa de impor-lhe o meu gosto pessoal, pronunciando em vão o nome de Deus; o que configura pecado grave, mais um na minha longa lista.

Agradeço ao leitor complacente, dou razão ao suscetível, mas não resisto em repetir:

— Acreditem em mim. Mário Quintana é muito bom.

E bom porque é “um poeta enorme, uma alma imensa”, como bem sintetizou Gustavo Corção, o maior prosador brasileiro dos últimos dois milênios.

 

 

25/12/2011. Juro, pela Santíssima Trindade e a Nossa Senhora, que o maior poeta brasileiro dos últimos dois milênios é o Mário Quintana. Ninguém foi mais inspirado, cantasse as suas humanas dúvidas de Deus ou se atirasse crédulo aos pés do Menino Jesus. O poeta que melhor nos ensinou a sorrir: um homem que, quando sorria, sentia gosto de estrela na boca... Não rangia como Drummond e as máquinas velhas. Não derramou o cálice bento como Schmidt. Não gaguejava como Cabral, envergonhado da própria ligação  direta com as musas. Não constrangeu as virgens puras como Vinícius. Não foi tão inacessivelmente etéreo como Cecília e, graças a Deus, não abusou de Deus como Jorge ou Murilo. Conseguiu levar às estrelas mais distantes aquilo que, por demais preso ao contingente, no velho Bandeira mal tinha começado a levantar vôo (vôo escrito assim mesmo, com passarinho circunflexo, desobediente à última reforma ortográfica e de um jeito que o Quintana certamente aprovaria). Ousou fazer o infactível: aquela poesia simples e profunda que somos obrigado a compartilhar com os leitores mais simples sem que isso nos envergonhe um só milímetro. Não se casou com nenhuma prenda de Alegrete ou Porto Alegre, nem teve filhos matriculados em clubes de tradição gaúcha. Um invejoso dos pampas chamou-o de assexuado, quando podia tê-lo classificado entre as ordens dos Anjos sem que houvesse um único pio de discordância Lá em cima. Quando morreu, no dia 5 de maio de 1994, ofuscado pela morte mais famosa de um ídolo das massas, foi imediatamente admitido no coro angélico mais próximo de Deus, contrariamente à sua humilde vontade de permanecer para sempre no Purgatório, como um Tântalo resignado, eternamente sonhando com os frutos do Paraíso.

 

 

24/12/2011. Glosando o Quintana.

No mundo milagroso que o Senhor nos deu,

Onde o próprio milagre parece normal,

Só há uma coisa sobrenatural:

O ateu.

 

 

23/12/2011. O cinema é a arte da época? Poderia ser, se os bons assuntos tivessem mais chance de chegar aos filmes. Por enquanto, de Hollywood à Globo, só lixo. Bons assuntos são politicamente incorretos, não agradam ao público educado pela pedagogia maquiavélica da Unesco e, portanto, não pagam dívidas. Resta ao conto, à novela e ao romance continuar fazendo o dever de casa, ou seja, dando o testemunho do circo enquanto pega fogo. O escritor faça a sua obrigação, e registre — com raiva ou serenidade —  esta maldita hora presente que nos tocou viver, sem se importar com a quantidade de leitores. Stendhal não se contentava com cem? Ao personagem defunto do Machado não bastavam cinco?

 

 

22/12/2011. Alma Mahler, que pretendeu ser compositora, mas entrou mesmo para a história das artes como colecionadora de celebridades masculinas, passava pela cidadezinha de Lourdes, França, com seu último troféu, o poeta e romancista judeu Franz Werfel, quando testemunhou uma estranha promessa do seu mais recente marido: jurou escrever um livro sobre santa Bernadete e os milagres da Virgem, se escapasse dos cachorros enfeitados de suástica.  

Escapou. Foi parar nos States. E cumpriu a promessa, pois promessa dessa espécie é dívida com Deus. Escreveu e publicou, em 1941, o famoso romance A canção de Bernadete, que, para o desespero de outro refugiado, Otto Maria Carpeaux, acabou atingindo o grande público e logo virou filme, dirigido pelo competente Henry King, comovendo merecidamente todos os católicos do mundo, ao mesmo tempo em que botou para funcionar todas as fabriquetas de explicações materialistas.

Se um dos riscos do crente é imaginar demais, o que mais compromete o materialista é imaginar de menos. No ateu, haverá sempre alguma desconfiança em relação à poesia, que lhe parecerá coisa de criança; e, quando há espírito poético nalgum ateu, pois tudo é possível neste mundo, saem poemas muitas vezes comprometidos com a mão forte do Estado ou com os futuros vermes que roerão nossos cadáveres; saem aqueles textos gagos e tortos de um João Cabral de Melo Neto ou o lirismo anêmico de um Mallarmé. A maior injustiça da literatura contemporânea foi aquela profusão imagística do Neruda ter sido gerada pela mesma cabeça de jerico que apoiava o comunismo.

 

 

21/12/2011. Quem zomba da Virgem de Fátima, por ter dito “Eu sou a Nossa Senhora”, em vez de “Eu sou a Vossa Senhora”, tem todo o direito de não acreditar em virgens imaculadas, mas não de corrigir o português da santa.

Culpado pelo deslize gramatical foi o governo esquerdista de Portugal, precursor dos totalitarismos que deitariam e rolariam pelo século XX afora. Dizendo-se amigo íntimo do povo simples e já há mais de cinco anos no poder, se esquecera completamente de alfabetizar e educar a pastora Lúcia.

Foi ela quem trocou nosso por vosso. O filho famoso, que a torna poliglota quando necessário — Maria já falou latim, espanhol, inglês, croata, japonês, francês, italiano e, milagres dos milagres, até português —, não deixaria que fosse humilhada pelos burocratas da gramática. Um milagre desses na boca da humilde nazarena seria fichinha. Quem manda em todas as leis da física e pôde produzir o belo, terrificante efeito cenográfico da Dança do Sol, diante de milhares de crentes confirmados na fé e milhares de incréus sujando as calças, não ia deixar a própria e imaculada mãe macular a última flor do Lácio, mesmo quando se dirigisse ao pessoal rústico da Cova da Iria.

 

 

20/12/2011. Na época em que adolescentes gostam de fazer a experiência de botar Deus abaixo de todas as coisas — e eu fui um desses idiotas, na virada dos anos sessenta para os setenta —, li no Otto Maria Carpeaux umas linhas que me marcaram profundamente. Eram sobre um certo escritor (não me lembro quem, nem em qual livro do ensaísta está), que se dizia ateu, mas continuava respeitando os dez mandamentos e a maioria das lições da Igreja. Um ateu, portanto, católico.

Eu, na época, achei aquilo perfeito para o meu cirquinho pessoal e decidi transformar-me, dali por diante, num ateu católico! Carpeaux, que sempre escreveu com muito respeito sobre assuntos da Igreja — o único livro que levou consigo, na fuga precipitada de Viena, foi o seu missal, além da correntinha de são Bento que jamais tirou do pescoço (v. correspondência de dona Helena Carpeaux com Alceu Amoroso Lima, no site http://www.alceuamorosolima.com.br) —, me impediu de dar o passo decisivo para o buraco, pois foi aquele aparente paradoxo que me guiou no caminho que comecei a aplainar para meu uso e extravio pessoal, na noite escura da alma.

Perdi a fé, mas permaneci na barra da saia da Igreja. Mais do que as centenas de livros e autores que fiquei conhecendo através de seus livros, devo a Carpeaux aquele lembrete espiritual (podíamos negar Deus à vontade, mas não andaríamos um milímetro sem topar com alguma consequência de Deus no mundo), numa época em que os padres já estavam congelando a fé e desistindo de ajudar seminaristas em dúvida.

Conheci padres bem de perto. Padre C., claretiano basco, sempre trazia terços e crucifixos para meu pai consertar, e ficavam horas de conversa fiada. O sisudo e entediado Monsenhor M., vigário da Matriz, também gostava do meu pai, que era Congregado Mariano e lhe consertava de graça a perua Kombi quase caindo aos pedaços. Certa vez, junto com o barril de vinho canônico que mandou vir de Jundiaí pelo trem da Mogiana, veio outro, de vinho tinto seco, encomendado por meu pai a instâncias do padre. Lembro-me de uma carona que me deu ao seminário, num final de domingo, em que durante a meia hora que passei a seu lado, no banco da frente da Kombi, comigo não trocou uma única e mísera palavra. Estranha figura a daquele Monsenhor, cuja talvez principal virtude foi ter implicado com a Via Sacra expressionista que o Portinari tinha pintado para a sua igreja; considerava-a imprópria para o culto, no que tinha toda razão.

Acredito que saí do seminário por não ter visto, ali, nenhum padre que se parecesse com padre. Padre N. ensinava educação física e era responsável pela Comunidade dos Menores, à qual eu pertencia, mas jogava futebol bem melhor do que rezava missa. Padre I., o reitor, era ótimo professor de boas maneiras, e nada mais. Padre X. era boa gente, porém andava mais interessado em proezas parapsicológicas do que em teologia. Houve até um padre, famoso pelo mau humor e de cujo nome me esqueci, pois chefiava a Comunidade dos Médios — saí do seminário, felizmente, antes de chegar à Comunidade dos Médios... —, que preferia praticar um esporte que tanto envergonharia a Igreja atual e tanto alegraria os seus inimigos: preferência sexual por adolescentes mal saídos das fraldas.

 

 

19/12/2011. A lei moral está inscrita na consciência do homem, desde que o homem é homem. Haverá, certamente, representantes muito antigos da nossa raça — homens perdidos e salvos de quinhentos mil anos —, seja no Inferno como no Céu. No filme Apocalypto, de Mel Gibson, os índios pré-colombianos, antes de conhecerem a fé cristã, são submetidos a um rigoroso exame de consciência moral, e alguns são aprovados, outros não. A pequena tribo, que é destruída e escravizada pelos maias, não oferecia a seus deuses os próprios semelhantes, ao contrário daqueles outros, que usavam e abusavam do sacrifício humano.

Mel Gibson, com a mesma coragem que mostrou em Paixão de Cristo, desagradando a gregos e troianos do politicamente correto, nesse filme de 2006 provocou com vara curta a onça do estruturalismo lévy-straussiano e do multiculturalismo relativista, ao revelar a crueldade daqueles bons selvagens, que respingavam sangue por todo o lado na exuberante paisagem dos trópicos: matavam e escravizavam como o faria qualquer filho do Cão, antes ou depois da passagem de Cristo pela Palestina.

A sabedoria do diretor foi, depois de duas horas da mais primitiva violência, encerrar o filme com a chegada das caravelas espanholas, empunhando a Santa Cruz que, logo mais, no filme seguinte da História, começaria a botar ordem no barraco. Gibson soube transformar a conquista europeia naquilo que ela sempre foi: a chegada do mocinho (também sujeito a bandidagens) na terra do bandido (que também tinha gente boa).

Apesar de suas inevitáveis concessões a Hollywood, é excelente filme para mostrar aos aluninhos do ginásio, logo na primeira aula de história das Américas, no momento em que suas cabeças adolescentes começam a sofrer aquela formidável lavagem cerebral que todos conhecemos.

 

 

18/12/2011. Carlos Fuentes, escrevendo sobre o Nazareno, disse que “a hipocrisia, o farisaísmo e a  simonia (…) mancharam a Igreja criada em seu nome” (Carlos Fuentes, En esto creo). Tudo bem. Quem poderia negar? Mas a Igreja que não soube manter-se à altura de Cristo — cazzo! que instituição humana o conseguiria?! —, foi responsável por manter vivas, por quase dois mil anos, as suas palavras e obras eternas. Uma coisa compensou quase infinitamente a outra. Só um adolescente birrento e mimado para, só por isso, condenar definitivamente o nosso velho e demasiado humano Vaticano.

 

 

17/12/2011. Grato, Luiz Vilela, pelo livro que você mandou (Perdição, Record, 2011, 400 p.). Chegou anteontem, folheei aqui e ali. Sua frase continua límpida, com a absoluta redondez de sempre, discretamente elegante, daquela elegância simples do pobre de antigamente que, aos domingos, botava a roupa de ver Deus e ia à missa.  O paletó e gravata estão bem arranjados, a calça bem cortada e bem dado o laço nos sapatos. Tudo muito limpo; até os palavrões e obscenidades estão alvejadamente limpos aqui.

Mas essa prosa de ver Deus agora não vai à missa, mas ao culto evangélico. O romance Perdição — e não há nada mais atual — é a história de um cidadão que vira pastor e depois desvira. Em breve, vou lê-lo de verdade.

 

 

16/12/2011. No momento em que Satã

Limava o fio do forcado

Pra virar chefe de Estado

Da velha Rússia cristã,

Os três pastores da Iria,

Jacinta, Francisco e Lúcia,

Escutaram de Maria:

— Consagrem a mim a Rússia!

Mas ninguém a consagrou.

Os papas do Vaticano

Preferem entrar pelo cano,

Que desagradar Moscou.

 

 

15/12/2011. O terapeuta perguntou ao cliente:

— Quais são os seus pecados, meu filho?

E o cliente, pouco à vontade no confortável confessionário de couro:

— Cometi fantasias incríveis com a mulher do meu melhor amigo. Pratiquei dois atos falhos bastante comprometedores. Tive um sonho edipiano com a bisavó que não conheci. Matei um pernilongo com uma crueldade de oficial da Gestapo. Submeti minha querida esposa a um interrogatório estalinista.

— Está arrependido dos seus pecados, meu filho?

— Mais ou menos, doutor.

— Assim está ótimo. Como penitência, leia cinco poemas politicamente corretos de alguma feminista norte-americana e ouça o último CD do Caetano Veloso.

 

 

14/12/2011. Se o Purgatório já começa aqui mesmo, as fábricas de motos têm contribuído bastante para aperfeiçoá-lo. Falo desses trecos rápidos e barulhentos que todos podem comprar, em troca de cem reais por mês. Mas essas multinacionais vão além: querem servir a dois senhores. Quantos motoqueiros não são despachados por dia, subitamente, de ponta cabeça, direto para os ínferos, sem tempo de se arrepender de suas motoquices? Entre as coisas que tornam o Céu tão sedutor, está a absoluta certeza de que Lá não haverá motos, motoqueiros, nem esses executivos que as deixam tão acessíveis aos mais apressados.

 

 

13/12/2011. Curiosamente, os velhos e melhores críticos literários não saíram dos cursos de letras. Eram jornalistas, advogados, médicos... Com uma hora semanal de literatura nos cursos de jornalismo, direito ou medicina, corremos o risco de ter de volta os leitores mais inteligentes. Literatura não combina com especialização; é, por natureza, refratária aos formalismos.

O principal eixo de um curso de letras tem de ser a literatura. Se você quiser matar a leitura inteligente, então monte um curso de letras e ensine linguística em vez de gramática, teoria literária em vez de literatura; dificulte o acesso à literatura universal e às humanidades. Um currículo de curso de letras que não se preocupe com filosofia, historia geral, historia das artes, sociologia, psicologia, irá sempre, forçosamente, formar leitores mancos.

De nada adiantam, porém, as melhores disciplinas e a melhor grade curricular, se o Estado continuar enviando para os cursos de letras os piores alunos do mundo, para depois exibir altos números nas estatísticas oficiais.

Mas a tragédia se consuma, mesmo, quando os piores alunos do mundo se associam a professores despreparados, intelectualmente preguiçosos, ideologicamente facciosos, incapazes de compreender a verdadeira natureza da literatura — esse tipo de “discurso” que, ao aproximar-se intuitivamente da realidade total, exige múltiplas vias de acesso para a sua compreensão.

 

 

12/12/2011. N’O jardim das cerejeiras, de Tchecov, não se fala em Deus, mas todos os personagens, sem exceção, são órfãos de Deus, menores abandonados com caras de adultos. Toda a Rússia pré-revolucionária está ali presente: o velho servo mergulhado no passado, com saudade da servidão, sem saber o que fazer da própria liberdade; os aristocratas decadentes, substituídos pelo burguês bem sucedido; e o socialista que, vivendo mais no futuro do que no presente, declara-se soberbamente acima do amor, numa profética antecipação do tipo de homem que comandaria aquele miserável país durante o século XX.

 

 

11/12/2011. Minha geração, que cresceu nos anos sessenta, aprendeu a “matar” o pai — do pai carnal  ao Pai Eterno — e a render vassalagem aos filhos. Ninguém podia estar acima de nós, exceto os que estavam justamente abaixo...

 

 

10/12/2011. No ofertório da velha missa latina, havia um momento em que os católicos pediam para pegar uma carona no majestoso cântico de louvor a Deus que reboava na Altura  Sanctus, Sanctus, Sanctus, Dominus Deus sabaoth. Pleni sunt cæli et terra gloria tua. Hosanna in excelsis. Benedictus qui venit in nomine Domini. Hosanna in excelsis. Santo, Santo, Santo, Senhor Deus do universo! O Céu e a Terra proclamam a vossa glória! Hosana nas alturas! —, saído da boca pura dos Anjos, da garganta (essa, sim, verdadeiramente profunda) das Dominações, Potestades e Virtudes.

Quando a cerimônia era de fato cantada, no mínimo um órgão, em geral desafinado, acompanhava o coro simples dos fiéis. E, desde a cidade mais perdida no mapa até a mais rica metrópole do litoral, Deus tinha o que merecia: a melhor música de que era capaz a espécie humana, destilada em dois mil anos de silêncios monacais. A única que podia pedir licença para acompanhar, com humildade, o coro angélico que enchia os espaços infinitos do sabaoth. 

Era a época da “roupa de ver Deus”. O pobre botava o seu melhor paletó, a mulher do pobre o seu melhor vestido, e, banho tomado, em jejum, devidamente confessados e perdoados, iam para a missa comungar e ouvir aqueles belos poemas sacros, escritos nos primeiros séculos dos cristianismo, numa língua que não entendiam, mas respeitavam como sendo a língua exclusiva de Deus. 

Hoje, continuamos a pedir carona no grande cântico de louvor a Deus que ribomba no Céu. Mas, com a maior cara de pau, entramos no coro celeste com a toadinha mais vagabunda da paróquia, acompanhada pelos acordes pops de um violão até simpático, mas completamente deslocado, com melodias mais apropriadas para dores de cotovelo ou sacanagens de motel.

Se o velho Tertuliano, o “sermonista” furioso de Cartago, presenciasse um troço desses, não tenho dúvida: respondia na bala!

 

 

09/12/2011. Um colega me contou, não faz muito tempo, uma piada sobre o nosso pobre mundinho acadêmico. Deus, depois que criou a universidade, com suas salas de aula, laboratórios, bibliotecas, departamentos, etc., foi vivamente aplaudido pelo público angélico do Céu, que deu glórias ao Altíssimo.

Mas Ele, que adora uma adversativa, logo tratou de avisar os anjos:

— Porém nem tudo será tão maravilhoso ali. Infelizmente, vou ser obrigado a criar o colega de departamento...

Não é, seguramente, a piada mais engraçada do mundo. Mas o assunto é sério: nunca, antes, o colega de departamento acadêmico foi algo tão problemático como hoje. A relação que mantém com outros do mesmo ofício é sobretudo burocrática, encontrando-se em longas e tediosas reuniões para divergir ou concordar a respeito da administração do campus. Debate de ideias é a última coisa que lhes passa pela cabeça, mesmo porque, no essencial, pensam muito parecido.

Colegas de departamento, em vez de espinhos na cabeça, como Cristo, os possuem na língua, agindo de preferência nas costas do adversário, como aliás todos os colegas do mundo, sejam departamentais ou não, do serviço público ou privado, mais pobres ou menos pobres.

O que é um colega, senão a pessoa com quem, embora não sendo da família, somos obrigados a passar uma parte considerável da nossa vida, quando não a maior parte? Alguns deles podem até virar amigos, quando se satisfazem os critérios misteriosos da amizade, mas, fora disso, em geral permanecem sempre colegas, odiando-se ou tolerando-se.

De companheiro de estudos a conviventes da mesma profissão, o arco da abrangência da “coleguice” (ou “colegagem”, como queiram os mais pessimistas) é muito amplo, passando pelos partidos políticos, que já chamaram os colegas hipocritamente de camaradas ou companheiros, até as religiões, que preferem, quando cristãs, rebatizá-los de irmãos, antecipando a terminologia que prevalecerá na Altura.

Consola-nos saber que lá longe, se merecermos o Céu, não haverá essa coisa humana, asperamente humana, chamada colega. Seremos seletivamente, elitisticamente, todos irmãos — não importa que tenhamos sido, aqui embaixo, pedreiros de mãos calosas ou professores da voz educada.

 

 

08/12/2011. Se esta merda de vida

Não for uma tensão constante

Entre o eterno e o instante,

Não vale a pena ser vivida.

 

 

07/12/2011. Hoje todos falamos mal do politicamente correto, inclusive na universidade, seu centro gerador, mas não dá para esquecer que quem abriu caminho para melhor enxergar a imbecilidade da coisa, quase solitariamente, foi o filósofo Olavo de Carvalho, no início dos anos 90.

Lembro do colega que, em 1992 ou 93, apareceu com um recorte da Folha (quando ainda deixavam o Olavo escrever lá), sintetizando por escrito tudo o que ele e eu já começávamos a murmurar pelos corredores da Unesp, mas ainda sem coragem de enfrentar o establishment acadêmico com aquelas ideias na contramão.

O imbecil coletivo, primeiro livro de projeção do filósofo, vai ficar na história da cultura brasileira como marco decisivo da inteligência, toque de alarme para acordar o país já à beira do buraco. Mas o país não ouviu e mergulhou — fundo, fundo, fundo — na merda.

 

 

06/12/2011. A universidade pública, setor humanidades, não diminui o número de vagas, nem aumenta a nota de corte do vestibular. Por isso, continuam entrando nos cursos aqueles alunos despreparados para estudar letras, história, ciências sociais, psicologia, filosofia. Nós, professores que discordamos dessa política “democrática” de abertura total das porteiras, só temos duas alternativas: reprovar quem não conseguir estudar para a prova (e aí serão oitenta, noventa por cento de bombas, além dos mil problemas que uma reprovação em massa pode gerar); ou usar essa imensa manada, totalmente perdida nos campus, para iniciá-la no bê-á-bá das discretas ideologias revolucionárias — é o que acostuma acontecer com mais frequência — ou da vida moral, da qual chegam completamente analfabetos.

Embora não seja o melhor exemplo moral para ninguém, optei por essa última alternativa, pois não creio em ideologias. Uso a literatura como uma espécie de capa protetora para deixar entrar outros assuntos na sala de aula, o que não precisaria ocorrer se os alunos já chegassem mais forrados intelectualmente do ensino médio, com alguma noção da história e da geografia do mundo, algum domínio da escrita e da leitura, e os princípios morais básicos, aqueles que vêm do decálogo mosaico e sem os quais a convivência na sala de aula (e nas outras salas da vida) é simplesmente impossível.

Eu não tenho dúvida alguma de que essa facilidade de ingresso na universidade é parte da estratégia, combinada por gente lá de cima — por exemplo, entre reitores e secretários de educação que servem ao mesmo partido —, para dominar totalitariamente o sistema educacional: meu aluno de letras, daqui a quatro anos, sairá certamente despreparado para ensinar literatura ou gramática, mas altamente disponível para as políticas de manipulação de professores, da qual ele será vítima fatal na rede pública de ensino.

É desse jogo que estamos participando... Se ajudar a salvar do frenesi modernista e revolucionário uma única alma por sala de aula, já estou realizado.

 

 

22/11/2011. As palavras perdidas.

Como imbecil que unicamente fuma

Pra acompanhar no tédio a fumarada,

Tentei um dia a hipótese do Nada

Só pra poder segui-la a parte alguma.

Quando voltei, a Casa estava acesa

E as coisas no mesmíssimo lugar:

O Pai, os meus irmãos, a farta mesa

E as palavras que já não sei usar.

Que não mereço mais usar...

 

 

21/11/2011. Se o agnóstico considera riscos tanto a crença como a descrença em Deus, e por isso abstém-se da escolha definitiva, deve admitir que o maior risco ainda é a segunda atitude, pois inclui a possibilidade de vir a ranger os dentes no Inferno, contra a pura e simples libertação da matéria pela extinção da alma.

“E saudava a matéria que passava, liberta para sempre da alma extinta”, diz o verso herético do católico Manuel Bandeira (pois é assim, como católico, que o velho Bandeira deve ser visto; quem duvidar que folheie, mesmo displicentemente, o Estrela da vida inteira).

O conselho hamletiano parece mais prudente, no famoso monólogo, ao desaconselhar o suicídio, já que nenhum viajante do País da Morte teria voltado para dizer o que haveria por lá. O príncipe da Dinamarca estava tão desesperado, que se esqueceu do fantasma do rei, seu pai, que tinha sim voltado do País da Morte, muito provavelmente do setor infernal, para pedir vingança ao filho e para lá arrastá-lo, junto com Ofélia, a que não quis virar mãe de pecadores.

 

 

20/11/2011. Quatro décadas sem Lei,

Sem sombra de Deus por perto,

Como os hebreus eu passei

Quarenta anos no deserto.

 

 

19/11/2011. Queixa sabática da jovem aluna mais mergulhada no mundo que nos livros:

— A semana passou tão depressa, que nem vi crescer as unhas!

E então o sábado será todo dedicado a cuidar das unhas, que à noite irão brilhar como os olhos. Vai obviamente transar com o namorado, torcendo para não engravidar. Muitas alunas engravidam, deixam o curso, tentam ou não o aborto. Que página de livro sério poderia competir com tanto orgasmo?

 

 

18/11/2011. Na volta de Ribeirão Preto, vejo as máquinas do Estado preparando o terreno para mais uma cadeia brasileira, e, segundo fui informado por uma prima inconsolável que tem sítio ali perto, será de regime semiaberto. Se a política revolucionária, mesmo a que se disfarça de reformista, é essencialmente delinquente, o bandido deve ser visto, por ela, como um discreto aliado. Não convém maltratá-lo.

Cadeia de regime semiaberto é expressão desse carinho especial pelos fora-da-lei, para os quais a punição, principal função do presídio, não passa de um subitem num pacote que inclui a reintegração social dos presos, o cuidado com seu bem-estar, sua educação e profissionalização, acesso mais fácil a assistência jurídica, psicológica, social, médica, odontológica, religiosa e material — tudo isso muito louvável e desejável, não fosse a repetidíssima lengalenga de que a delinquência é produto da exploração de classes e o Estado deve compensá-la com um zelo que não dispensaria à população honesta.

 

 

17/11/2011. Eco, a ninfa grega, é a “santa padroeira” da universidade atual, condenada a repetir o que ouve.

 

 

16/11/2011. Talentoso, Ingmar Bergman sempre foi. É suficiente, porém, para construir uma obra definitiva? Maniqueísta, luterano sem Deus que nunca se livrou da peste da predestinação, refugiava-se no sexo quando sentia medo da morte. A única vez em que o seu cinema pareceu respirar um pouco de ar puro, foi quando filmou A flauta mágica, de Mozart.

 

 

15/11/2011. Matéria da revista Veja sobre a Rússia. Nada de novo no front. Continua muito mais fascinante a tese do Olavo de Carvalho, de que o comunismo foi só uma das faces de um monstro bem maior, que vem crescendo desde a Renascença quinhentista. É a vocação totalitária da modernidade.

 

 

14/11/2011. Há, nalgumas iluminuras medievais, representações de macacos inteligentes, lendo como os professores universitários de antigamente. Acreditavam, porém, que a proeza era obra do Divino Espírito Santo e não do naturalista Charles Darwin.

 

 

13/11/2011. Comprou uma tevê de sessenta polegadas e óculos para ver as imagens tridimensionais. 

 — E aí? — perguntou o amigo.

— E aí que estou gostando mais dela que da minha mulher.

 

 

11/11/2011. O Deus do Gênesis mandou a humanidade crescer e multiplicar-se. O Deus do espiritismo, ao contrário, é o primeiro malthusiano da história, adepto da anorexia demográfica. O reencarnacionismo seria só uma questão de troca de roupa, num eterno baile de máscaras. Iríamos, pelo tempo afora, colecionando heterônimos. E, enquanto os orientais procuram se livrar do sadismo reencarnacionista, ocidentais idiotas sonham fervorosamente com ele.

 

 

10/11/2011. Não há melhor representação de certos padres de hoje, do que a Predicação do Anticristo, de Signoreli. É um afresco da catedral de Orvieto. Nele, o falso Cristo é abraçado por um demônio, e a perfeita aliança da dupla se expressa num detalhe terrível do quadro: o braço esquerdo é o mesmo para os dois. Michael D. O’Brien, o escritor canadense que também é pintor, usa-o muito bem em seu romance Padre Elias.

 

 

07/11/2011.  O jeitinho não é invenção brasileira. É da espécie humana. O Brasil só aperfeiçoou a coisa.

 

 

04/11/2011. Se, como já foi dito, as riquezas que as pessoas jogam fora, neste mundo, são a poupança que vão fazendo para a outra vida, São Francisco de Assis é hoje uma das maiores fortunas do Céu. George Soros, ao contrário, vai ser um pobre mendigo de água fresca, eternamente rangendo os dentes.

 

 

03/11/2011. Teólogos moderninhos querem que a outra vida funcione como a escola pública brasileira, aprovando irrestritamente. Querem no Céu a progressão automática. Ninguém mais ficaria de recuperação, ou, como se dizia em minha época, de segunda época. Ninguém mais com zero, ninguém mais levando bomba. Nesse Céu multicultural, multimoral, multitudo, todos se sentariam à direita do Pai: São Francisco de Assis, o Fernandinho Beira-mar, a Xuxa, o lulu da madame e até o vasinho de flor do ambientalista. 

 

 

02/11/2011. Um dos casamentos mais estáveis do mundo é o da aparência com a essência. Um não vive sem o outro.

 

 

01/11/2011. Uma das melodias mais belas do Vila-Lobos não é dele, mas do compositor popular Anacleto Medeiros: o “Rasga coração”, do Choro nº 10. Mas se comparamos o seu arranjo da canção para orquestra e grande coro, com a interpretação que lhe deu o Vicente Celestino (v. no Youtube), concordaremos sem muito esforço que o principal compositor dessa peça, aquele que a fará entrar no céu da música, não é o criador inicial da melodia, por mais talentoso que fosse, mas quem soube vesti-la com o manto da música eterna.

 

 

29/10/2011. O cidadão tem todo o direito de acreditar que Deus não existe. Estupidez, mesmo, é o fundamentalismo ateu, tão nocivo quanto o das outras religiões.

 

 

28/10/2011. Hoje em dia, não é preciso ter nenhum talento especial para escrever artigos acadêmicos sobre literatura. Basta boa capacidade mimética, virtude que partilhamos com nossos amiguinhos irracionais da selva: o graduando que imita o mestre, que imita o doutor, que imita o livre-docente, que imita o titular, que imita o ilustre PHD visitante etc., como na quadrilha do poeta.

Salvas as honrosas exceções, o lixo que a academia produz, nas humanidades, está tão abaixo do nível mínimo, que nem pode entrar na categoria do reciclável. Não tem salvação. Vai ficar como mais um terrível testemunho do que nossa época conseguiu fazer com o espírito humano: transformar a sua própria e grotesca caricatura em substitutiva do original, e ainda sentir-se feliz por haver “democratizado” o acesso ao conhecimento e à “produção de conhecimento” (palavras que visitam a todo instante os documentos que recebemos para longas reuniões sobre coisíssima nenhuma).

Ora, isso nem é democracia, nem legítima produção de conhecimento, mas — para ficar com aquela imagem — a caricatura ora involuntária, ora intencional, dessas coisas que já foram respeitáveis. O pior é que, de caricatura em caricatura, a única proeza que a universidade brasileira consegue é habilitar-se para algum torneio mundial de circos.

 

 

27/10/2011. Para evitar o “grande assalto do Demônio”, só há uma saída: reforçar nossa guarda costeira com tropa de elite.

 

 

26/10/2011. Somos todos farinha do mesmo saco. Todos, todos, todos — à exceção dos santos e os gênios, que são feitos com farinha de trigo raro, refinada pelas próprias mãos do criador do mundo. Isso não significa que todo gênio seja um santo, ou vice-versa. Pior para os gênios; tanto faz para os santos. 

 

 

25/10/2011. Meu avô italiano e meu avô mineiro no Céu.

Fico pensando o que vovô Zezé

Conversaria com vovô Segundo

Sobre esse neto que, no chão do mundo,

Criou vergonha e retomou a fé.

Pois certamente eles se encontram Lá,

Nalgum lugar muito melhor que aqui:

Dando risadas vô Zezé estará,

Vô Segundo no máximo sorri.

Sem truques sujos, sem abracadabra,

Sem concessões de tribunal secreto,

Estão torcendo pra que um dia se abra

A porta de São Pedro para o neto

(Meus dois avôs que, embora corintianos,

Eram cristãos, católicos, marianos).

 

 

24/10/2011. É urgente salvar a “enciclopédia” escondida sob a confusão babélica da “wikipédia”. Não há como disfarçar: há coisas boas nesta, e muitas vezes duram pouco tempo, pois filhos da puta de plantão logo tratam de destruí-las. Os verbetes sérios deviam migrar para outro lugar, longe da escravidão desse Egito de todos e de ninguém que é a internet, rumando para a terra prometida do conhecimento honesto. Cada um pode fazer um pouco disto: quando você topar com um verbete sério, selecione, copie e salve, salve!

 

 

23/10/2011. Um poeta que sai à procura dos defeitos de Deus, nos dá todo o direito de procurar os seus próprios defeitos. É o caso do poeta Manuel de Barros, badaladíssimo nos meios acadêmicos.

Manoel de Barros começou, na juventude, negando a ordem burguesa, para terminar mais tarde, depois do desencanto com o Partido Comunista, negando a própria ordem da realidade, através de uma arte que é, por excelência, criadora de realidades: a poesia.

Segundo ele, “há várias maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.” Ou seja, a poesia é o veículo mais autorizado para dizer coisas sérias sobre... nada. Talvez esteja aqui a chave para descobrir o encanto que os seus textos provocam em alunos e professores de literatura: a profunda sedução que, em nossa época, tem exercido o Nada e a negação.

Ninguém pode duvidar de sua habilidade verbal, apesar de nenhum domínio sobre a versificação tradicional (que era, também, a limitação do grande poeta católico, embora herético, Murilo Mendes). Manoel de Barros conseguiu traduzir em linguagem poética o clima mental da nossa época, muitas vezes com imagens interessantes e até divertidas. Por isso, o adoram os simpatizantes dos desconstrucionismos, dos relativismos, dos multiculturalismos de toda a espécie.

Sua defesa do ócio como condição da arte, e da arte como fim em si mesmo, é radicalizada ao ponto de transformar a poesia em expressão da mais convicta anulação da realidade. Não se trata da usual superação da realidade aparente, em nome da intuição de uma supra-realidade organizada poeticamente. Esse poeta pulveriza as coisas, com o único objetivo de botar em seu lugar alguns trocadilhos interessantes. É um Mallarmé populista, sem a refinada arte fin-de-siècle do grande niilista francês. Cada século tem o fim de século que merece.

No caso do nosso Manoel, o que parecia ser uma poesia sobre coisa nenhuma, era na verdade a demonstração mais enfática de uma tese: a de que este mundo não serve para nada, ou, no seu dialeto, serve exatamente para brincar de Nada. Essa poesia da coisa nenhuma encerra em si, claramente, uma poética do niilismo; é um esforço aparentemente lúdico, mas no fundo altamente comprometido com os valores mais negativistas da nossa época, visando esvaziar de sentido as palavras da tribo e as velhas coisas do mundo, aquelas mesmas que Javé, depois de criá-las, viu que eram boas. O poeta de Mato-Grosso deixou o Partidão para transformar-se num revolucionário ainda mais radical.

O que atrapalha a poesia de Manoel de Barros é essa pregação niilista, que acaba obstruindo a maior parte dos seus livros, como um “entulho” escondendo o que, nos textos, podia ser mágica revelação da realidade. O pouco que sobra é verdadeira poesia, jeito diferente de dizer as mesmas coisas que já sabíamos por outras maneiras, ou não sabíamos de modo algum.

A realidade, e não o Nada, é o que aparece em sua obras; a muito custo, mas aparece. Apesar de Manoel de Barros.

 

 

22/10/2011. A maior homenagem de Deus à nossa espécie foi haver tomado a forma humana — e nela ter sofrido até a morte. Isso prova que o poderoso chefão do universo — do universo, do pré-universo, do pós-universo — é de uma humildade desconcertante. Capaz de ser tudo o que É, e, ainda assim, viajar por trinta e três anos nas terras áridas da Judéia, montado num corpo humilde de nazareno; corpo que, transfigurado, ainda o acompanha e o acompanhará para sempre.  

O físico Steven Weinberg, que sabe fazer contas, mas pensa como um micróbio dos primeiros tempos, termina seu livro Os três minutos iniciais, lamentando que a prodigiosa obra do Universo venha a acabar-se, um dia. Para que foi feita, então? Ora, entre outras coisas, para dar uma forma humana a Deus, que em sua carteira de identidade celeste levará eternamente inscrito o nome de Jesus Cristo, que um dia foi pescador, e até judeu... Tantos bilhões de anos foram poucos para um gesto de tamanha humildade do Criador.

 

 

21/10/2011. Conversinha legal.

— Baixar livro do 4shared é crime?

— Crime é não ler.

 

 

20/10/2011. A primeira coisa que eu faria, se fosse o Capeta, era virar telenovelista da Globo. Aí o resto ficaria bem mais fácil.

 

 

19/10/2011. Utopia.

Ó saudade do passado!

Ó lágrimas de Epicuro!

Ó mundinho já desfeito,

Feito pra ser derrubado!

Que coisa mais doentia...

Só saudade do Futuro

— Futuro mais-que-perfeito —

É coisa humana e sadia.

 

 

18/10/2011. Ao ateu falta, sobretudo, sutileza. Quer que Deus lhe apareça cara a cara, dizendo:

— Olha aqui, cretino. Eu existo. Satisfeito agora?

Como Deus prefere as entrelinhas — Deus e os melhores poetas —, o ateu sai por aí dizendo que Ele não existe. Os ateus não mereceram a graça da verdadeira poesia.

 

 

17/10/2011. Está em Lucas, I, 26. Uma só e única vez, na história do Universo, algo de acidentalmente material uniu-se a algo substancialmente divino: foi depois que Maria, aceitando ser  “escrava do Senhor”, a Ele entregou o corpo virgem e a semente do Criador começou a crescer em seu ventre judaico.

Aconteça comigo o que diz a tua palavra — disse ela ao anjo Gabriel. — Mas como será isso, se nunca me deitei com homem?

O Espírito Santo descerá sobre ti, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra.

 

 

16/10/2011. Conceição.

Somente uma vez,

No universo inteiro,

O Verbo se fez

Carne (e de cordeiro).

Foi quando Maria,

De graça banhada,

Bem-aventurada

Pelo Criador,

Humilde aceitava

Ser a doce escrava

Do divino amor.

E, cheia de graça,

Disse a Gabriel:

— Pois em mim se faça

O que manda o céu!

E a dona mais rara,

Que não se deitara

Com homem nenhum,

Humilde entregou

Seu corpo ao Senhor,

Nosso Pai comum:

O Espírito Santo,

Cerrando a cortina,

Cobriu-a c’o manto

Da sombra divina.

E a piedosa, a doce

Esposa da luz,

Castamente trouxe

No ventre Jesus,

Cujo sangue veio

Daquela Maria

Que lhe dera o seio

Como a qualquer cria.

E aqueles que temem

Quem venceu a cruz,

Sabem que Jesus

Não nasceu de sêmen,

Mas da sombra santa

Que, ao cobrir Maria

Com divina manta,

De luz a envolvia...

 

 

15/10/2011. As palavras do Latim, tendo descansado por tanto tempo da voz e das porcarias humanas, foram lentamente se purificando — como as gotas que, na talha fresca, pingam do filtro sem nenhuma pressa, uma de cada vez; e hoje, mais que nunca, com o português completamente bostificado por esse Brasil que está aí, imerso nas drogas, na violência, na sodomia arrogante, na imbecilidade feliz, a língua latina é a mais adequada para matar a sede de Deus.

 

 

14/10/2011. O Papa é um maestro que deve garantir a unidade da orquestra católica, em meio à diversidade maluquíssima da Igreja real: violinos colidindo com violas, cellos com baixos, madeiras com metais, tímpanos com caixas. Já desafinou bem menos, a sala de concerto vai esvaziando cada vez mais — o público prefere o show de rock ou de breganejo.

 

 

13/10/2011. Profissão de fé.

Não quero a fé dos sábios, cheia

De pontos de interrogação.

Eu quero a fé que pastoreia

Ovelhas de bom coração;

A fé descalça do meu primo

João Paca, humilde camponês,

Que rimava bem mais que eu rimo

Na sua Folia de Reis;

A fé da minha bisavó

Cesira, que deixou os ermos

Tristes e frios do rio Pó,

Para entre nós curar enfermos;

A fé do bisavô Theodoro

Que decorava histórias sacras

Para contá-las no auditório

De pau-a-pique, ao som das vacas;

A ardente fé da tia Dita

Que caminhava sem lesão

(Quanta gente não acredita!)

Sobre fogueiras de São João.

 

 

12/10/2011. O acontecimento do dia, sem sombra de dúvida, é o sermão que proferiu — ou melhor, que expectorou  — o padre Paulo Ricardo de Azevedo Jr. sobre a vergonha de ser brasileiro, intitulado “Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Imperatriz do Brasil”. Imperdível, como dizia o velho Francis.

 

 

11/10/2011. Quando dizem que a Igreja Católica anda mais perdida que cego sem cachorro, não é para duvidar.

Um bom exemplo, nesta véspera do dia de Nossa Senhora, é o da editora católica Santuário, de Aparecida do Norte, que publicou em 1997 um Dicionário de Jesus e dos Evangelhos, do jornalista, romancista e historiador espanhol César Vidal, “un hombre de derechas”, porém de fé protestante. É um intelectual respeitável: tem ajudado a desmistificar a República esquerdista que provocou a guerra civil, é crítico implacável do relativismo moderno e de todos os totalitarismos do século XX.

Parece inconcebível haver um cristão espanhol que não seja católico, mas é verdade. Vidal, em 1993, já tinha publicado um livro, El mito de María, em que tentou mostrar como Nossa Senhora não passaria de uma fraude da Igreja, uma imperdoável heresia. E o verbete sobre mãe de Jesus, no dicionário publicado pela editora católica, é quase uma síntese de El mito de María, ou seja, um bom pedaço de mau caminho para destruir a fé em Nossa Senhora Aparecida — um tiro perfeito no próprio pé, para usar uma metáfora corrente. O escritor espanhol vai levar um belo puxão de orelhas da Virgem Santíssima, quando apertar o interfone da portaria de São Pedro.

No verbete, Vidal refere-se a Mateus e Lucas, que “apresentam-na como mãe virgem de Jesus, que engravidou antes de contrair matrimônio, mas já comprometida com José. Essa circunstância específica — a de sua maternidade messiânica — converte-a numa pessoa cuja bem-aventurança será contada pelas gerações futuras e sobre quem a graça de Deus manifestou-se de uma maneira absolutamente especial”.

Aceita a Natividade como cumprimento da antiga profecia messiânica de Isaías, não discute a virgindade da Mãe de Deus, elogia o Magnificat que resultou do seu encontro com a parenta Isabel, mãe de João Batista, mas sua intervenção nas bodas de Caná, avisando o Filho da falta do vinho, é vista como interferência indevida no ministério de Cristo, repetida mais tarde quando Ele, cercado pela multidão, recusou-se a receber a Mãe e os “irmãos” que, já temendo por Sua vida, queriam dissuadi-Lo da missão. Não esquece a cena ao pé da cruz, “profundamente comovedora”, mas observa que não há nenhuma referência a aparições de Cristo ressuscitado à própria Mãe.

“Nada mais sabemos de sua vida posterior”, diz o dicionarista, “e o mais possível — se aceitamos alguns restos arqueológicos do século I — é que foi sepultada em Jerusalém, tendo seu túmulo sido profanado no início do século II”. Para ele, "a história de sua estada em Éfeso, acompanhando João, o filho de Zebedeu, carece realmente de base histórica”. E foi “essa falta de dados históricos sobre Maria, sua família, sua vida anterior e posterior ao ministério de Jesus” que, segundo o protestante Vidal, “foi suprida pelo surgimento de lendas piedosas que teriam uma enorme influência na arte e no pensamento posteriores — principalmente durante a Idade Média —, mas cuja autenticidade histórica é extremamente duvidosa”.

É certo que rebate algumas acusações torpes de rabinos judeus no Talmud (munição de primeira para adolescentes modernos que precisam experimentar iconoclastia), que a viam como “adúltera e de ter tido Jesus como fruto das relações sexuais mantidas com um soldado estrangeiro chamado Pantera ou Pandera”, e que teriam surgido nos primeiros séculos do cristianismo, no contexto da disputa teológica judeus versus cristãos.

Não deixa, porém, de referir-se ao “aspecto idolátrico” que “os cristãos tributavam a Maria”. Não parece, no mínimo, jocoso, que a editora de Nossa Senhora Aparecida publique uma obra que negue a sua santidade?

 

 

04/10/2011. Se, um dia, decidir-se fazer um monumento ao passado da espécie humana, bastará gravar nele uma única inscrição: “Somos anões erguidos em ombros de gigantes” (Bernard de Chartres, século XII). E os ombros dos gigantes estarão cada vez mais à mostra com a internet, que é, sobretudo, uma grande biblioteca — a maior de todas —, equipada de um setor que não havia nas outras: o de compra e venda.

A principal mídia da modernidade vai revelando, lentamente, com ampla visibilidade, tudo o que antes se ocultava nos museus de todo tipo. Agora seremos todos eruditos, de preferência em bobagens, mas não obrigatoriamente: quem já tinha apetite de conhecimento, vai poder fartar-se com a nova boca-livre digital, e os eruditos de coisas sérias serão mais eruditos do que nunca, enquanto os fofoqueiros de sempre atingirão a plenitude do mexerico e da vacuidade.

Os dados (nos dois sentidos: da fortuna e da eletrônica) estão lançados. O futuro vai dizer que bode vai dar. Enquanto não chega o bode, as informações, falsas ou verdadeiras, estarão disponíveis a todos nós; se depender delas, e da nossa honestidade, a verdade terá a vitrina mais iluminada do mundo e poderá alimentar as ações humanas com combustível de primeira, não adulterado.

Difícil, mesmo, é ter olhos de ver e ouvidos de ouvir o corpo fluido de dona Verdade. Os tempos modernos simplificaram o dilema criando o relativismo, ou seja, a possibilidade de dois adversários estarem ambos corretíssimos em sua divergência pseudo-conceitual sobre o mesmo assunto. E, em vez de procurar-se, cada qual em seu bairro, o que está na origem de tanta dissensão, ficou combinado, com a maior cara de pau, que pode haver duas verdades para a mesma coisa ou o mesmo fato.

 

 

03/10/2011. Filme sobre Hugh Hefner, o dono da Playboy, não tem sacanagem! Mais uma produção do gênero fantástico.

 

 

02/10/2011. A ideia cristã já nasceu perfeita, porque pensada por Deus e desenvolvida pelos melhores homens. Tão perfeita que não aceita dialética: toda antítese que se aproxima, desaparece como um cisco, imediatamente, na combustão do pensamento divino.

Alguns filhos da puta tentaram empanar o seu brilho — sempre os houve na Igreja romana —, mas mesmo agora, neste estágio mais pagão do que cristão da civilização ocidental, ela ainda brilha como a estrela que sempre foi.

O brilho não é tão intenso como na Idade Média, pois a névoa do mundo é espessa e outra luz procura substituí-la, luz megalomaníaca de lamparina vagabunda, acesa com os óleos poluentes do Iluminismo.

Luz de estrela-guia. Estrela de luz própria e inextinguível. Que vai brilhar para sempre, pois já funcionava antes deste mundo e de qualquer outro mundo possível.

 

 

01/10/2011. No prefácio do seu recente Usos do pessimismo, Roger Scruton (que a Veja entrevistou há poucas semanas) faz uma lista grande de tudo o que, a partir do século XIX, deixava-se aparentemente guiar pelo espírito científico, mas que, na verdade, continuava a apoiar-se em crendices mal disfarçadas: os extermínios soviéticos fundamentados na pseudociência marxista, as doutrinas racistas disfarçadas de tosca eugenia científica, a revolução cultural chinesa baseada em falsas leis históricas, até chegar às mais recentes tapeações, como a promessa de milhões de mortos com a doença da vaca louca, o blecaute dos computadores na virada do milênio, a presença nociva de chumbo no petróleo, o perigo do fumo passivo. Sem falar da mais apocalíptica de todas, o aquecimento global, que agia com o fermento do pânico e transformou em herói da civilização um tipo como Al Gore. 

Tudo isso era sempre apresentado como coisa científica, sem margem para contestação. Driblavam-se as “evidências e os argumentos para favorecer uma conclusão pré-estabelecida, aceita porque fornecia direção e força ao movimento de massa dos justos, que se juntavam para expulsar os demônios de nossas vidas.” Quem se atrevia a duvidar, era logo transformado em bode expiatório e saía de circulação da mídia politicamente correta.

Quando essa espécie de pânico termina, conclui Scruton, “a multidão se dispersa, sem haver conseguido alívio ou conhecimento; a única coisa que obtém é uma disposição ideal para voltar a alarmar-se.

 

 

27/09/2011. Para o jesuíta espanhol Manuel Carreira, das três modalidades de conhecimento que temos à disposição — o raciocínio, a experiência e a crença no que ouvimos — 99,9 % de tudo o que sabemos provêm desta última. Com o diz-que-diz eletrônico das últimas duas décadas de internet, o volume de material oferecido a crença humana aumentou gigantescamente, e não é difícil concluir que estamos, cada vez mais, condenados à credulidade, sem a menor chance de averiguar além de uma pequena parte do que chega até nós.

É preciso aprender a acreditar corretamente...

 

 

26/09/2011. As brincadeiras do Tempo.

O velho Tempo está brincando

Com as árvores do quintal.

Disfarça-se de vento brando,

Mas logo empunha o vendaval

E ceifa a rosa com sua foice,

Gratuitamente, sem razão.

Quéde a rosa? Transfigurou-se

Em quinze pétalas no chão.

 

 

25/09/2011. Se a ciência é uma operação que visa o aspecto mensurável das coisas, há coisas na literatura que podem ser quantificadas — o aspecto mais propriamente linguístico das obras — e outras que não. Como entre essas últimas é que se encontra o mais importante, digamos a “alma” dos textos, então é forçoso admitir que nada de científico é possível afirmar sobre o que realmente vale a pena, a respeito das grandes obras literárias.

O que é que determina o nosso gosto literário? Em que medida o gosto influi no julgamento, ou as ideias são condicionadas pelo gosto? Quais os fatores que influenciam nossas escolhas literárias e artísticas? Os signos do Zodíaco? Os deuses do Olimpo? Ser rico ou pobre, empregado ou patrão? As relações infantis do leitor com sua mãe ou com seu pai?

Uma região importante do país da filosofia — a estética — tem-se preocupado com essas perguntas, além da psicologia e da sociologia. Enquanto essa gente teimosa tenta organizar respostas válidas ou inválidas à questão, continuaremos a mudar nosso gosto, nossa opinião, nosso julgamento, espantando-nos muito mais, no entanto, com as alterações no comportamento estético dos outros do que em nós mesmos.

Depois das últimas décadas, com o surgimento de metodologias críticas destinadas a expulsar o palpite do julgamento literário, sobretudo as apoiadas nas ciências da linguagem (como se para a criação literária bastassem palavras), o estudioso de literatura não tem mais o direito de opinar livremente sobre as obras e os autores, de equivocar-se no juízo estético, de quebrar amanhã o ídolo de ontem. O crítico formado na universidade transformou-se, definitivamente, naquele chato-boy a que se referia Oswald de Andrade, pensando em Antônio Cândido e congêneres.

 

 

24/09/2011. Versos homofóbicos.

Em qualquer hora do tempo,

Em qualquer ponto do chão,

Pode reiniciar-se a festa

Divina da criação:

Basta um corpo

Em terno abraço

Outro corpo

Convidar

Para com ele ocupar

O mesmo lugar no espaço.

Conditio sine qua non,

Não são dois corpos quaisquer:

O mais forte será um homem;

E o mais perfeito, mulher.

 

 

23/09/2011. Era uma vez, há muito tempo, quando a maioria das pessoas era religiosa e ia à missa, deixei de frequentá-la. Era aquela irresistível sedução adolescente, no fim dos anos sessenta, de pertencer a minorias. Depois, passados tantos anos, vi que a maioria religiosa tinha razão e decidi, outra vez, fazer parte dela: subi a escadaria da fé e voltei à Igreja, mas, para minha surpresa, a capela estava quase deserta — a velha maioria tornara-se religiosamente indiferente. E então, mas agora contra a minha vontade, continuei fazendo parte da minoria...

 

 

22/09/2011. Nos setent’anos do último jesuíta

(Ao prof. Carlos Fantinati)

Não vou falar da dívida, aqui,

Nos últimos trinta anos contraída

(Débito não de letras, mas de vida,

Que, nas horas mais francas, contraí).

Quero falar de crédito e de fé,

Das mãos abertas para tanta gente,

Recebendo-me generosamente,

E eu vindo de tão longe... um zé-mané...

Quero falar é da afeição imensa

Que você teve, sempre, pela diferença,

Na contramão dos falsos pedagogos.

Quero falar de ler, dessa franqueza

Que respeitava a nossa natureza

No que ela tinha de mais nobre: o logos.

 

 

18/09/2011. A esquerda só é dialética até chegar ao poder. Depois é ferozmente monológica.

 

 

17/09/2011. O Globo Repórter de ontem foi sobre as “experiências de quase morte”, EQM para os mais chegados. São todos brasileiros os entrevistados, vítimas de “quase morte” reanimadas nas UTI ou que, de algum modo, retornaram ao nosso mundo de aquém túmulo.

Segundo estudos do psiquiatra americano Raymond Moody (que, também professor de filosofia grega, andou depois interessado em metempsicose) e da psiquiatra suíça Elizabeth Kubler-Ross, a maioria dos que retornaram, entre os que se lembravam da viagem, voltou com boa impressão do lado de Lá; só um pequeno número não foi bem recebido, certamente os que logo iriam ajudar a cantar a famosa peça coral para choro e ranger de dentes. O documentário global respeitou, portanto, essa proporção no número das entrevistas mostradas.

Surpreendentemente, no momento de exibir o ponto de vista dos cientistas, foi dado pouco destaque para os céticos, para os quais aquelas visões não passam de delírios. Faltou, mas já seria pedir demais à Globo, lembrar um pouco daquilo que, há dois mil anos, a religião católica vem dizendo sobre o assunto, antecipando com o velho testemunho da fé a atual estatística científica das EQM, muito mais digna de crédito para o homem moderno.

A verdade é que o assunto, lentamente, vai ganhando o espaço acadêmico. Dr. Raymond Moody e Dra. Elizabeth Kubler-Ross ensinaram em respeitadas universidades americanas; os estudos da famosa médica suíça sobre as cinco etapas pelas quais passam as vítimas de tragédias (doentes terminais e parentes), o chamado modelo Kubler-Ross, são respeitados em faculdades de medicina. Um dos cientistas entrevistados pela Globo, Dr. Sam Parnia, hoje ensina em Nova York e é formado pela Universidade de Southampton, na Inglaterra, onde fundou o Human Consciousness Project, grupo de pesquisa multidisciplinar, com cientistas de vários países, empenhados no estudo da natureza da consciência em sua relação — de dependência ou independência? — com o cérebro humano. É a primeira tentativa mais ousada, em escala mundial, de envolver a universidade mainstream em assunto desse tipo, o qual, desde o Iluminismo francês, sempre esteve associado à Idade das Trevas.

Um dos componentes do grupo é o jovem neurocientista canadense Mario Beauregard, da Universidade de Montreal, autor da recente obra O cérebro espiritual, onde revela os resultados da sua pesquisa doutoral com monjas carmelitas, submetidas a eletroencefalogramas durante experiências místicas. Interessante documentário sobre essas experiências podem ser vistas aqui, no site do ONF, Office National du Film du Canada, no qual também é entrevistado um dos mais famosos ateístas contemporâneos, o Daniel Dennet, cofiando a sua venerável barba cética.

E são a esses últimos, cientistas ou não, a quem temos todo o direito de perguntar: por que também pessoas sem imaginário religioso enxergam e experimentam, nas EQM, as mesmas coisas que os crentes — desligamento inicial da consciência e do cérebro, sucção por um túnel com luz ao fundo, retrospecto da vida passada, encontro com “seres de luz”? Por que cegos de nascença relatam, depois da rápida e emocionante viagem, detalhes visuais do ambiente da “quase morte”, que jamais poderiam ver com os olhos mixurucas da carne?

 

 

13/09/2011. Associações que defendem vítimas da pedofilia querem que o Tribunal de Aia condene o Papa Bento XVI, crítico implacável do relativismo moderno, como responsável pelas sacanagens individuais dos padres e o descuido das dioceses.

É a manipulação de dados e informações a serviço do “pânico moral”, como explicou com clareza o sociólogo das religiões Massimo Introvigne (v. blog da Gaveta). Segundo o pesquisador italiano, que se baseou em estudos feitos nos EUA, “comparando a Igreja Católica dos Estados Unidos com as principais denominações protestantes, a presença de pedófilos é, dependendo das denominações, duas a dez vezes superior entre os pastores protestantes. A questão é relevante, porque mostra que o problema não é o celibato, dado que, na sua maioria, os pastores protestantes são casados. No mesmo período em que uma centena de sacerdotes católicos eram condenados por abusos sexuais de menores, o número de professores de educação física e de treinadores de equipas desportivas jovens, também quase todos casados, considerados culpados do mesmo delito nos tribunais americanos atingia os seis mil. Os exemplos podem multiplicar-se, e não só nos Estados Unidos. E o principal dado a ter em conta, de acordo com os relatórios periódicos do governo americano, é o de que dois terços dos abusos sexuais a menores não são feitos por estranhos, ou por educadores – incluindo os sacerdotes católicos e os pastores protestantes –, mas por membros da família: padrastos, tios, primos, irmãos e pelos próprios pais. E existem dados semelhantes relativamente a muitos outros países.”

 

 

12/09/2011. No terceiro salmo bíblico, atribuído a Davi, diz lá o salmista, referindo-se a Deus: “...golpeias no queixo todos os meus inimigos/ e quebras os dentes dos ímpios.” Os ímpios que aguardem a fúria do Pai. Salvando-se em tempo, ainda assim lavarão as privadas mais fétidas do Purgatório.

E quem é que não pode salvar-se? Mesmo o monstruoso Stalin, com seus sessenta milhões de assassinatos nas costas, quem garante que não se salvou, arrependendo-se verdadeiramente no último minuto? Em caso positivo — o que, cá entre nós, eu acho bem difícil, embora a nossa maior dificuldade seja a coisa mais simples para Deus —, o líder comunista deve estar hoje, com o queixo e todos os dentes quebrados, lavando a pior merda do Purgatório, na mesma e exata proporção dos males que causou.

 

 

11/09/2011. Publiquei, algum tempo atrás, o romance Consagro-vos a minha língua. Se for uma porcaria literária, o que é bem possível, lamento pelas pessoas que o compraram, pelo tempo que perderam (até onde a paciência os levou na leitura) e pelo editor que nele investiu. Também lamento, obviamente, não poder fazer algo melhor. Mas questões editoriais e literárias à parte, esse livro, que pode não significar nada para a literatura brasileira, foi a minha obra-prima existencial: com ela me reaproximei de Deus, através da nossa Advogada, depois de longa temporada do deserto. Fui mais um exilado filho de Eva bradando para os deuses errados, no pior vale de lágrimas que pode haver no mundo: o Brasil.

 

 

10/09/2011. Não há desrespeito maior a um gênio do que incensá-lo, numa atitude deificatória indigna de seres humanos para com outros seres humanos, mesmo superiores. Imagino uma coleção de livros, da mais urgente necessidade, só com obras dos detratores e antipatizantes de Machado de Assis: Sílvio Romero, Cruz e Souza, Hemetério dos Santos, Octavio Brandão, João Gaspar Simões, Agripino Grieco, para só citar os mais conhecidos. A unanimidade do mestre carioca é recente e burra, como toda unanimidade (e isso vale também para o próprio Nelson Rodrigues). Uma pesquisa, nos periódicos das últimas décadas do século XIX e primeiras do século passado, revelariam certamente apreciações interessantes, justas ou injustas, dos entusiastas de José de Alencar, Coelho Neto, Euclides da Cunha, escritores que dividiam com Machado os favores do público.

 

 

09/09/2011. Mãe e filha falam-se de igual para igual. São velhas amigas de infância.

 

 

08/09/2011. A fita métrica de Oswald de Andrade era pequena demais para medir a grandeza de Bernanos ou Carpeaux, sobre os quais disse várias asneiras. Espantosamente, soube no fim da vida reconhecer o valor de Gustavo Corção, cuja prosa equiparou à de Machado de Assis. Os inimigos do Corção diriam que o autor das Memórias sentimentais de João Miramar já estaria gagá, àquela altura da vida; e os inimigos do Oswald, que ele não era tão idiota como parecia.

 

 

07/09/2011. Um colega referiu-se, há alguns dias, a certa Funalfa. Gostei do nome e fui conferir na internet. Para minha decepção, descobri tratar-se de uma fundação cultural de Juiz de Fora. Era uma sigla, santo Dio! E eu que julgava fosse nome de gente, de gente feminina, de preferência velha e solteirona: dona Funalfa.

Se eu fosse contista, faria um conto ambientado em Minas, na primeira metade do século XX, sobre uma velhinha fofoqueira e banguela chamada dona Funalfa.

 

 

06/09/2011. O romantismo oitocentista não criou só a estética da autopiedade, mas também a política da autopiedade: o socialismo.

 

 

05/09/2011. O direito e a moral nem sempre caminham na mesma direção. Há pessoas nas quais confiamos até prova em contrário; e, até prova em contrário, há outras das quais somos obrigados a prudentemente desconfiar.

 

 

04/09/2011. São diferentes as concepções que têm da família os dois poetas mais famosos do Brasil: Bandeira e Drummond. Para o primeiro, que não se casou nem teve filhos, família era uma coisa boa de recordar, para sempre perdida na infância pernambucana. Já o poeta mineiro, que se casou e teve uma única filha, jamais conseguiu se livrar de uma coisa má chamada família, que estava morta e enterrada na Minas que não havia mais, mas cujo incômodo fantasma transportou por toda a vida.

Se estava convencido da inutilidade e do anacronismo da instituição familiar, Drummond devia ter criado a sua própria segundo os novos moldes do comunismo, a que serviu fielmente nos anos 30 e 40. E até que tentou. Na verdade, foi um híbrido mal composto de senhor medieval e revolucionário dos anos 60. Mais ou menos como o pai do poema narrativo “Caso do vestido”, o poeta durante trinta anos deixou a esposa em casa, para encontrar-se com a amante bibliotecária. Nisso, foi um mineiro exemplar, e não tem por que ser condenado. Com a filha, porém, tentou aproximar-se do modelo revolucionário, segundo testemunho de seu genro Octavio Mello Alvarenga, que foi casado com Maria Julieta Drummond e disse coisas horríveis do Carlos Drummond pai, no livro Rosário de Minas (Lidador, 2003): Drummond teria com a filha um relacionamento quase incestuoso, mais de namorado ciumento do que de pai mineiro.

 

 

03/09/2011. Timor mortis.

Na fuga do carpe diem,

Entre o mulherio salgado

E taças de vinho azedo,

Os anacreontes riem

O risinho amarelado

Do medo.

 

 

02/09/2011. O romantismo oitocentista criou a estética da autopiedade.

 

 

01/09/2011. Lembro-me, nas missas da infância, de certos indivíduos que voltavam da comunhão mais com a barriga, do que com a alma cheia de Deus. Pelas laterais da igreja, vinham quase arrotando o divino, como se viessem de um churrasco qualquer.

 

 

 

jc.zamboni@hotmail.com

 

1. ENSAIOS & RESENHAS

 

A PEQUENA REVOLUÇÃO NIILISTA DE MANOEL DE BARROS

 

GEORGES BERNANOS DE VOLTA AO BRASIL

Notas para uma palestra na É Realizações

 

EM DEFESSA DO MELHOR ABANDONADO

O que estamos fazendo com os alunos mais inteligentes?

 

NOTAS SOBRE O POLITICAMENTE CORRETO

No contexto do movimento revolucionário, segundo Olavo de Carvalho

 

A SOLUÇÃO FINAL PARA O PROBLEMA DA EDUCAÇÃO

Reflexões sobre o nobre métier de ensinar

 

O BRASIL DOS ANOS 30

Resumo de uma palestra

 

OS EXUMADORES DO QORPO

Sobre os exageros na reavaliação de Qorpo Santo

 

PEQUENA INTRODUÇÃO A UM GRANDE ROMANCE

Prefácio ao romance Dados biográficos do finado Marcelino, de Herberto Sales, publicado em 2009 por É Realizações

 

HERBERTO SEM RETOQUES NEM BERLOQUES

Prefácio ao livro Subsidiário 1, de Herberto Sales, publicado em 2009 por É Realizações

 

HÁ CINQUENTA ANOS PARTIA-SE O ESPELHO

Homenagem aos 50 anos de O espelho partido, de Marques Rebelo

 

BÓRIS E DORES

Resenha de uma novela de Luiz Vilela

 

NOTAS SOBRE O QUIXOTE

 

AS ÚLTIMAS CRÔNICAS DE OTTO LARA RESENDE

 

GASTÃO CRULS

 

OCTÁVIO DE FARIA

 

UM AMIGO BRASILEIRO DE BORGES

 

CIVILIZAÇÃO DO UAI

 

AMIGOS E INIMIGOS DO CARPEAUX

 

PAULO FRANCIS,SEMPRE CONTEMPORÂNEO

 

MÁRIO QUINTANA COMPLETO

 

ABAIXO WILLIAM SHAKESPEARE!

 

 

2. LIVROS

 

DALAI NO PAÍS DA LAMA

Frases, minicontos, minicrônicas etc.

 

O ANJO ATRASADO

Contos

 

O HOMEM DE DUAS PALAVRAS

Novelas

 

A COISA CORDIAL

Poemas

 

MARQUES REBELO

Ensaio

 

 

3. VÍDEOS & ÁUDIOS

 

NO LANÇAMENTO DE UM LIVRO DE GEORGES BERNANOS

Palestra com José Carlos Zamboni

 

DEBATE SOBRE GEORGES BERNANOS E ROBERT BRESSON

Participação de José Carlos Zamboni

 

NO LANÇAMENTO DE DOIS LIVROS DE HERBERTO SALES

Palestra com José Carlos Zamboni

 

PRESENTE DE ANIVERSÁRIO

Leitura de poema

 

CONCEIÇÃO

Leitura de poema