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JOSÉ CARLOS ZAMBONI Notas, rascunhos & outros delitos A GAVETA TRANSPARENTE
10/05/2012. Qual era o verdadeiro Lima
Barreto? O que pretendia fazer uma literatura militante, ensinando às massas a
violência revolucionária, ou o que dizia ser a doçura a força principal do
mundo? Lênin ou Cristo? Morreu antes de definir-se, mas há um episódio de sua
vida que pode esclarecer bastante sobre sua verdadeira personalidade. Estava o escritor bebendo numa roda de amigos,
quando apareceu um almofadinha, conhecido de alguém do grupo, sentou-se e
pôs-se a brilhar. Lima não tardou a implicar com o sujeito, contradizendo-o
sistematicamente. O “burguês” não gostou e, a certa altura, perdeu a
paciência, jogando um copo na cara do opositor, ferindo-o de leve acima dos
olhos. No começo do bafafá, chegou um policial e já ia prendendo o
almofadinha, quando Lima intercedeu em favor do seu inimigo de classe,
alegando que se ferira sozinho... Em sua biografia há muitos fatos como esse, que
revelam sua dificuldade de conciliar, unitariamente, as razões da sua
consciência intelectual e as razões do seu coração judaico-cristão, cuja
terra deixou de ser cultivada com a morte das mãe, mal ele entrava na idade
da razão, perdendo, assim, a sua catequista natural, que já lhe tinha
ensinado, como ele mesmo confessou, a Ave Maria, a Salve Rainha e o Pai
Nosso... Era um sujeito bastante contraditório, mas a
impaciência revolucionária não conseguiu substituir, nele, a consciência
cristã da fragilidade humana. Em sua vida tão curta, não teve tempo de
resolver suas contradições; puxá-lo para esse ou aquele lado será sempre
temerário, como fazem os que o transformam em líder anarquista ou precursor
da militância negra. 09/05/2012. Militante não
descansa. A universidade a que pertenço estreia o primeiro curso de
pós-graduação no país para promover o homossexualismo. V. matéria do Estadão
sobre o assunto. Como “a sexualidade ainda é um assunto envolto em tabu e
a sociedade rejeita a discussão”, a formação de profissionais no setor pode
contribuir, segundo o coordenador do programa, para que “a população se torne
mais receptiva à conscientização de crianças e adolescentes.” Ai de quem tem
criança e adolescente nas imediações desses futuros profissionais da
sexologia! 08/05/2012. Um dia desses, numa
banca de universidade, um colega conservador implicou com o lema comteano da
bandeira nacional: — Ordem, tudo bem.
Mas, progresso?... Cada um de nós, que
não simpatiza muito com a ideia de progresso, deve ter um palpite para
substitui-la. Ou substituir o lema inteiro. Mas como isso não é fácil,
podemos pelo menos pensar nas consequências nefastas daquela permanente,
concisa e ingênua lição de fé no poder da humanidade, tremulando nos mastros
brasileiros desde a proclamação da República. 07/05/2012. Os parentes da tia
morta grudávamos os olhos tristes e espantados no chão, estranhamente
fascinados pelo buraco que, logo mais, envolveria para sempre o caixão e o
corpo dentro do caixão, que uma corda grossa, manejada por dois pedreiros
rudes, descia até o fundo da cova. O túmulo tinha sido
bem feito, preparado para receber toda a família em seus pequenos pavimentos
inferiores. Por que pensar nos caixões que imaginei descendo, futuramente,
por uma corda parecida àquela, levando toda a família sucessivamente ao chão
e, num buraco quase vizinho àquele, o meu próprio caixão? Por que só pensar
na morte, naquele instante supremo da vida? Eu sabia que a
pessoa amada, que acabava de nos deixar, olhava para a nossa tristeza e
também estaria triste, ao perceber a nossa incapacidade de, naquele momento,
pensar em outra coisa que não fosse nosso destino mortal. A tia sofria,
impotente, por não poder evitar nosso inútil sofrimento. Foi a primeira dor
profunda que sentiu a sua alma renascida. A primeira pedra que transportou
nos ombros, na entrada do Purgatório. A primeira dor plenamente útil,
carregadíssima de sentido, ainda que profundamente magoada, que ela
experimentou em toda a sua vida, pois não era mais um sentimento qualquer,
entre tantos que podiam perdê-la ou salvá-la no longo exame vestibular da
vida terrena. Era a dor de quem já estava salva; era a impotência de quem já
estava, de algum modo, nos braços do Onipotente. 06/05/2012. Conversinha de
médicos: — Ela morreu? — Não. Teve alta.
Alta divina. 05/05/2012. Ainda tenho, tão
bem guardado que já sei mais onde a enfiei, a página inteira do Jornal do Brasil — “Reflexões sobre um
quadro negro” — em que o escritor Osman Lins, lá por volta de 1976, então
professor de literatura na Faculdade de Ciência e Letras de Marília, interior
paulista, denunciava o extravio da vaca que terminaria fatalmente no brejo,
extravio bem estudado, vinte anos depois, pelo brejólogo e filósofo Olavo de
Carvalho: era a decadência do ensino universitário já revelada com franqueza,
como consequência da massificação cometida
pelos governos militares e brilhantemente continuada pelos governos
seguintes, principalmente os de esquerda. 04/05/2012. Lima Barreto, que
ficou algum tempo esquecido, já é autor canonizado na literatura brasileira,
filtrado pela peneira rigorosa do tempo. Que vestibulando já não leu obrigado
o Triste fim de Policarpo Quaresma,
sátira deliciosa do nacionalismo quixotesco ao mesmo tempo que condenação
veemente do despotismo materialista?
Ou o conto "O homem que sabia javanês", sobre a malandragem
intelectual? Ou ainda "A nova Califórnia", parábola do darwinismo
social, que a televisão deformou e transformou em novela das oito? Quase sempre visto
como "escritor social", preocupado com o Brasil, os pobres, os
pretos, há no entanto outro Lima Barreto, politicamente não tão correto como
se gostaria: um homem masoquista, bebedor contumaz que se arruinava a cada
dia, decidido a pagar com a própria saúde o pecado original da espécie. Ele mesmo
confessou: "Desde menino, eu tenho a mania do suicídio. De há muito
sabia que não podia beber cachaça. Ela me abala, combale, abate todo o
organismo. Já tenho sofrido muito com a teimosia de bebê-la." Cordeiro de si
mesmo, viveu na pele aquele impulso auto-imolador, que pensava ser coisa da
burguesia, para ele sempre carregada de culpa e remorso — classe social que,
na sua opinião um tanto perturbada pelo anarquismo e pelo marxismo,
provocaria a própria morte: "Não precisará de guilhotina", disse
certa vez, em alusão irônica ao eficiente instrumento usado pelos
revolucionários de 1789 para separar a cabeça do resto do corpo dos
aristocratas franceses. Lima Barreto trazia
na própria alma uma ferramenta pior do que guilhotina, com a qual se mutilava
a cada dia. "Levarei a cruz ao Calvário", escreveu no seu Diário. E acabou mesmo no Calvário do
hospício, depois de beber todas e experimentar o gosto amargo das sarjetas
(literalmente lambidas, sem metáfora). Essa obsessão, de redimir-se
pelo sofrimento, Lima Barreto já tinha encontrado no cristianismo de sua
formação e foi reencontrar depois em Dostoiévski, cuja leitura foi decisiva
na vida e na obra do escritor carioca, sobretudo as Recordações da Casas dos Mortos, que mudou sua visão de mundo, e
o romance Crime e castigo, que
considerava um modelo de literatura militante, a qual deve estar orientada (são palavras suas) "para um ideal imenso em que se soldem
as almas, aparentemente as mais diferentes, reveladas porém, por ela, como
semelhantes no sofrimento da imensa dor de serem humanos." Sim. Andava
seduzido pelo anarquismo e pelo socialismo, que impropriamente chamava de
maximalismo. Mas, em briga com as próprias ideias, esse homem pobre não
tolerava a própria família suburbana, em que reconhecia "uma tendência
baixa, vulgar, sórdida". Foi na verdade um grande narcisista,
confessando ser "impossível transformar essa simpatia literária,
artística, em vida comum com eles, pelo menos com os que vivo, que, sem
reconhecerem a minha superioridade, absolutamente não tem por mim nenhum respeito e nenhum amor que lhes
fizesse obedecer cegamente [grifo meu]" (Diário íntimo). Com que era então
revoltado Lima Barreto? Com as desigualdades sociais? Com o desprestígio do
intelectual na sociedade moderna? Com a elite republicana que não lhe
reconhecia a superioridade espiritual? E o mulato Lima
Barreto, escarnecedor das teorias de superioridade racial, parece que
gostaria de ter nascido com a pele mais clara, como se pode constatar de
outro trecho do Diário, de
surpreendente homofilia: "Nunca vi nas
mais lindas mulheres brancas daqui o tom doce de uma fisionomia de marinheiro
americano que me caiu sob os olhos. Entre nós, as fisionomias são mais secas,
contraídas, cheias de fogo, mas não têm a limpidez dessas fisionomias
saxônicas, que a gente vê nas reproduções dos quadros dos
pré-rafaelistas." Esse homem, que
teve todas as oportunidades para chegar à glória ainda em vida, como atestam
os amigos que sobre ele escreveram, preferiu no entanto o suicídio lento,
desde menino, até acabar-se de uma vez aos quarenta e um anos, depois de
arrastar a sua cruz bêbeda e trôpega. 10/04/2012. No velório da mãe. (Depois de reler o velho soneto de um amigo) Quatro filhos de
sentinela, Com lágrimas de
despedida, Em vão chamávamos
por ela, Imóvel, antes da
partida. Como entender essa
mudez Em nossa mãe de
todo dia, Quando, pela
primeira vez, A nenhum filho
respondia? Eram cuidados com a
viagem... Não essa viagem
para o chão Sombrio, sem
bússola e bagagem, Janela aberta à
escuridão; Não! Nossa mãe, de
passaporte Para a pátria
definitiva, Já trocava esta
vida em morte Pela outra vida,
eterna e viva. Ninguém, ali, para
avisar Às nossas pálidas
irmãs Que a mãe já estava
a respirar Outras mais límpidas
manhãs? O aço da morte fura
e corta: O irmão mais moço
parecia Muito mais morto do
que a morta — Morta que já
sobrevivia... 09/04/2012. Domingo da Páscoa,
fui à missa. O texto da missa, em minhas mãos, era efetivamente de uma missa
católica, mas celebrada por um padre que viajava tranquilamente, na maior
cara de pau, na contramão do folheto. Em nenhum momento,
em sua homilia, falou da Ressurreição como fato sobrenatural, para o outro mundo, nem falou do Cristo
como situado à direita do Pai, no Lugar Celeste, de onde voltaria em glória
para julgar vivos e mortos, secundum
Scripturas. O evento pascal, para o padre gordinho e carrancudo à nossa
frente, era só fonte libertadora das “mortes” deste mundo, sobretudo o que
chamou de “morte social”. 02/04/2012. As sete palavras do homem no mundo. Orgulho, Sai da frente
quando eu passar. Vaidade, Canta glórias em
meu louvor. Avareza, Diz que não estou
para ninguém. Gula, Mata um vitelo só
para nós dois. Ira, Ainda te quebro a
cara! Tristeza, Que estou fazendo
nesse mundo amargo? Luxúria, Transborda-me o
cálice com teu vinho doce do Porto... 01/04/2012. Há muitos que se
sentem incomodados com a inevitabilidade de Deus, mas O engolem, acabam
assimilando-O, pois é uma Coisa superlativa demais para contornar. Aceitam-No
como um alimento amargo, que não desce com gosto no tubo digestivo
espiritual. Este é o drama de
muitas pessoas, hoje: necessitam de Deus, sem abrir mão da autonomia
individual, do Ego feroz que não dobra a espinha a ninguém, exceto ao Estado
arrecadador e provedor. Só com muita relutância admitem a ideia do homem
possuir um Dono, um Senhor a quem dobrassem os joelhos — um Deus que poderia
reduzi-los a uma pasta de merda, se quisesse. 30/03/2012. O brasileiro Alceu
Amoroso Lima (que um dia foi, principalmente, Tristão de Athayde) era um
cidadão ocidental. Como ele, no século XX brasileiro, só mesmo Otto Maria
Carpeaux, e talvez tenha sido por isso que seus caminhos se cruzaram de
maneira tão curiosa: Alceu foi o primeiro brasileiro com quem Carpeaux falou
no Brasil, e o último livro de Carpeaux foi uma pequena e tosca biografia de
Alceu. Outro ponto de
cruzamento foi a militância esquerdista, a partir dos anos sessenta, depois
do golpe militar, e que nós, menos moderninhos, temos todo o direito de
desaprovar, sem que condenemos em bloco toda a obra desses dois grandes
intelectuais. Suas alianças com o marxismo — decisão da velhice, quando o
principal de sua produção já estava realizada — comprometem a beleza do
conjunto, mas não apagarão a permanente lição universalista que brotam
daqueles ensaios iluminadores, escritos entre os anos vinte e quarenta, no
caso de Alceu, e entre a década de quarenta e cinquenta, no caso de Carpeaux.
Escolhamos o nosso Alceu e o nosso Carpeaux... Num país em que os
principais críticos literários eram homens sem fé religiosa, a militância
católica de Alceu de Amoroso Lima foi uma grande novidade, a partir de 1928,
ano em que assumiu a direção do Centro Dom Vital e de sua revista A Ordem, criados em 1922 (mesmo ano da
exageradamente famosa semana paulista) pelo pascaliano Jackson de Figueiredo,
morto prematuramente em 1927 e principal responsável pela conversão de Alceu.
Creio que ainda
esteja por ser feito o estudo definitivo da importância, para o pensamento
brasileiro, do Centro Dom Vital e de sua revista, responsáveis pela criação
de uma mentalidade cultural cristã disposta a discutir a realidade
contemporânea e nela influir. E que certamente deixou marcas na corrente
literária dita espiritualista, mas basicamente católica, que reunia nomes
como Murilo Mendes, Jorge de Lima, Cornélio Pena, Lúcio Cardoso, Octavio de
Faria (cunhado de Alceu), Gustavo Corção, Plínio Salgado, Augusto Frederico
Schmidt, e até o Vinícius de Moraes da primeira fase (depois trocaria a
Congregação Mariana da juventude pelo animismo panteísta dos terreiros de
candomblé). Uma das principais
lições a extrair da vida e da obra de Alceu de Amoroso Lima é a paciência
dialética com os adversários. “Levarei para o túmulo um vício inveterado: não
faço uma afirmação sem sentir logo o protesto abafado das negações que ela
inspira”, declarou em 1954 o autor para a série dos Arquivos implacáveis, de João Condé, publicado pela revista O cruzeiro. Dialética, é bom
esclarecer, que Doutor Alceu aprendeu não com Hegel, mas com outro doutor, o
Angélico, cujo método de pensar considerava todas as objeções possíveis que
uma afirmação pudesse conter, antes de entronizá-la. Na salada mista do
pensamento brasileiro, Dr. Alceu ficou com a parte do bom senso burguês, cuja
base era a velha moral greco-romano-judaico-cristã, ou seja, a tradição
ocidental, necessária para equilibrar a tendência contemporânea para a
insensatez revolucionária. Nada seria mais utilmente dialético, por exemplo,
do que a republicação dos estudos sensatos do Dr. Alceu sobre o modernismo
brasileiro, cuja abordagem, infelizmente, costuma reduzir-se ao ponto de
vista dos seus admiradores acadêmicos, facilmente descambando para o
laudatório. O mito do modernismo brasileiro sai bastante humanizado quando
passa pelo crivo “burguês” do velho Tristão de Athayde. A figura de Alceu
de Amoroso Lima é sempre boa de recordar, pela dimensão universalista de sua
atuação como homem público e como escritor. Foi bastante ligado à música, que
estudou com Alberto Nepomuceno, o grande compositor pós-romântico. Escreveu
sobre literatura brasileira e universal (“Literatura universal” era o nome de
sua coluna, quando começou como crítico literário, em 1918), sobre questões
filosóficas, política, sociedade, educação, comportamento, Deus e a Igreja, o
Brasil e o mundo contemporâneo. E foi essa tendência expansivo-integradora
que o tornou entusiasta do pan-americanismo através da democracia cristã,
tendo sido amigo do chileno Eduardo Frei e publicado várias obras na
Argentina; e que também o levaria a apoiar, quando já andava seduzido pela
sereia esquerdista, o ecumenismo da Igreja Católica, a partir do Concílio
Vaticano II, em cuja abertura esteve presente, como membro da Delegação
Brasileira. Talvez a principal
lição a extrair do Dr. Alceu foi a convicção de que a literatura brasileira
era ilha de um arquipélago bem maior — cuja unidade Goethe percebeu bem, ao
chama-la de literatura universal —;
e a própria literatura como esforço de conhecimento incluído no círculo mais
amplo das humanidades (a teologia, a filosofia, as ciências humanas em geral
e as outras artes). Percebeu, como poucos, o imenso paradoxo que, como um
fantasma, rondaria os estudiosos contemporâneos das letras, condenados a
exagerar a especificidade da literatura (mais profissional do que
epistemologicamente), embora, nos casos mais honestos, sem poder fechar
completamente os olhos para a sua inevitável situação multidisciplinar, nesse
cruzamento de múltiplas vias em que se sempre encontraria, pois a literatura
jamais será uma coisa só. Se Alceu Amororo
Lima tivesse convidado Aristóteles para uma palestra sobre literatura, no
velho Centro Dom Vital, não chamaria só o autor da Poética, mas também o das duas éticas e da Metafísica. Pois, para ele, a literatura seria permanentemente um
negócio tríplex, um bicho de três pés, com
a pata do belo, a pata do bem e a pata da verdade. Fora desse tripé
fundante, a literatura manca, escorrega e tomba no vazio. 25/03/2012. Era um padre sábio,
como quase não há mais hoje. Disse certa vez a um primo meu, que andava
preocupado com a secura da própria fé: — Com o tempo ela
umedece. Vem à missa toda semana, confessa uma vez por mês, ajuda os pobres.
Vai se expondo à chuvinha rala dessa tua fé sem muita convicção. Um dia, você
estará encharcado de Deus, de tanto que caminhou sob a garoa fina... 24/03/2012. Eu e meu fígado
somos muito gratos ao Chico Anísio. A Globo mostrou episódios da Escolinha do prof. Raimundo, da década
de oitenta, quando o Brasil já estava começando a agonizar, mas os programas
de humor ainda podiam fazer graça com cachaceiros (hoje dependentes de
álcool) e veados (hoje homoafetivos). O politicamente correto é o câncer
terminal do humor. 23/03/2012. Vinícius de Moraes começou
Congregado Mariano e terminou Pai de Santo, imerso em uísque como picles no
vinagre. 22/03/2012. Apareceu aqui na
universidade um poeta revolucionário, para uma palestra revolucionária. Na
vida privada, porém, o poeta revolucionário é o sujeito mais metódico do
mundo: — Mudem a natureza
humana à vontade, mas devagarinho. Tenham um pouco de paciência com meus
velhos hábitos... 21/03/2012. A harmonia social
dos comunistas se baseava na eliminação das classes proprietárias. No
entanto, a mais bela harmonia, segundo o velho Heráclito, não é justamente
aquela que nasce da convivência dos contrários? 20/03/2012. Garante Ciro dos
Anjos, em suas deliciosas memórias de A
menina do sobrado (p. 370), que o rapaz “feio não se impõe facilmente.
Moças gostam de rapazes bonitos. Não digo que a feiura não as conquiste, mas
conquista-as devagar, espera que se acostumem com ela. Não ganha de saída:
ganha na segunda instância, em grau de apelação”. 19/03/2012. Está lá em João (VI, 1-15). Jesus fez a
multiplicação de pães e peixes, à margem do Tiberíades. Mas logo depois, para
evitar que a multidão de cinco mil pessoas viesse transformá-lo em líder dos
sem-pão e dos sem-peixe, tratou de fugir rápido para o monte mais próximo e
foi rezar. A teologia da libertação, quando passa perto desta passagem dos
Evangelhos, finge de ceguinha. 18/03/2012. O mundo da
imaginação e do sentimento é imponderável, disse certa vez o “maldito” Plínio
Salgado, fazendo coro com o bom senso de todas as épocas (sensatez que não
teve o criador do integralismo, que sempre foi muito melhor escritor do que
doutrinador político). Ora, a imaginação e
o sentimento são a matéria-prima fundamental da literatura, a qual, nas
últimas décadas, tem sofrido o permanente assédio dos mensuradores formalistas
— que ligaram o voltímetro linguístico nas válvulas dos poemas para
rebaixá-lo à condição de um produto humano qualquer. O melhor que faz o
professor é quase calar o bico e deixar que falem as palavras já ditas pelo
poeta, sem extrapolar o papel de médium, de simples expositor do milagre
poético, que deve se manifestar sem maiores interferências subjetivas ou
malabarismos formalistas. Que a coisa
poética, com sua misteriosa objetividade, se mostre quase por si mesma, com
um mínimo de chiado hermenêutico. 17/03/2012. A maldade
capitalista está cercada de liberdade por quase todos os lados, que pode
funcionar como seu freio natural. Já a “estratégica” maldade revolucionária,
imersa no ambiente totalitário, é simplesmente irrefreável, pois não conhece
limites morais. 16/03/2012. A editora É promete
lançar, para este ano de 2012, obras fundamentais do escritor americano
Russell Kirk, como A mentalidade
conservadora e uma reunião de suas famosas palestras no Heritage
Foundation, importante think tank conservador.
Desde dezembro de
2011, porém, o leitor brasileiro já pode saborear em português a obra de
Russell Kirk, que estreia em nossa língua com algumas e vergonhosas décadas
de atraso: refiro-me ao seu A era de
Eliot – A imaginação moral do século XX (É Realizações, 654 p.), em
tradução de Márcia Xavier de Brito e longo prefácio de Alex Catharino. É uma
biografia intelectual do poeta e ensaísta anglo-americano, publicada em 1971,
que não menospreza, antes ressalta, a guinada conservadora do autor de A terra desolada, aspecto que a
crítica acadêmica procura varrer para debaixo do tapete. Para se ter uma
ideia de como escreve e pensa Russel Kirk, basta um pulinho no blog aqui ao lado. A palestra da viúva do
escritor, Annette Kirk, com tradução para o português, está no site da
editora paulista. Clique
e assista. 15/03/2012. T. S. Eliot. Escrevo porque
gosto de falar Com mortos, coração
a coração, E com aqueles que
ainda nascerão Mas cujo espírito
já sinto no ar. O que é o tempo
presente? Quem escreve Para ser lido aqui,
neste momento? O agora é mais
efêmero que a neve E os livros passam
como passa o vento. Escrever é juntar
as permanentes Coisas que, pelo
tempo, estão dispersas — O belo, o amor ao próximo, a verdade — Perdendo-as pelo
chão como sementes. São murmúrios
inúteis? Vãs conversas? São reflexos sutis
da eternidade. 14/03/2012. A “revolução
cultural” é mais uma revolução dentro da revolução. Não propõe mais a mudança
sociológica, como no comunismo, ou biológica, como no nazismo, mas
existencial, fazendo a transfusão coletiva dos novos valores, através de uma
engenharia social bem mais sofisticada. O foco, agora, é a linguagem. É uma
revolução semiótica, baseada sobretudo na substituição de antigos “signos”
por outros, numa completa erradicação das velhas palavras da tribo ocidental. É uma revolução que
só tem a lucrar quando começa no próprio seio do mundo burguês. Seus
principais agentes são os “produtores de discurso” — professores,
jornalistas, publicitários, padres, secretários ou ministros da educação,
intelectuais em suma, devidamente treinados na universidade, que é seu
principal quartel-general. É um vento maligno
que vai levando tudo de enfiada. Quase ninguém mais consegue, nesse furacão,
aprender com os versos do purgatório dantesco: “Sê como a torre firme que não
pende/ Jamais a testa no soprar do vento” (Purgatório, V). 13/03/2012. O jejum do corpo,
mais que um treino de privação, é um exercício militar da alma para comandar
a tropa insubordinada das paixões. 12/03/2012. Em geral, a poesia
de Drummond já não me diz muita coisa, mas há alguns versos seus que levarei
por toda a vida, sobretudo aquele que, não querendo sair da alma do itabirano
e materializar-se em palavras, no entanto inundava toda a vida do autor. Um
quase verso que, mais que verso, era o sentimento lírico anterior à configuração
linguística concreta. 11/03/2012. Deus é um
permanente Sim Dito com toda a
firmeza: Fonte sem começo e
fim, Luz perenemente
acesa. 10/03/2012. Um estudo que
merece ser feito com urgência, se já não o foi, é o do Cristo politicamente
incorreto, mestre da linguagem dura quando necessária. Se fosse professor do
ensino básico, logo seria acionado pelos pais superprotetores; se atuasse na
universidade, o diretório acadêmico promoveria protestos permanentes contra
Ele; se exercesse o jornalismo, não pararia em nenhum órgão de imprensa.
Jesus foi seguramente o primeiro jesuíta. 09/03/2012. Os grandes homens
são obrigatoriamente paradoxais. Gustavo Corção, que para os esquerdistas
mais tolos não passava de um radical de direita, tinha certas atitudes que
desconcertava a plateia. O poeta Armindo
Trevisan conta em seu blog uma discussão que teve o pensador católico: “Nossa briga foi feia. Chegou um momento em que,
constrangidíssimo, tive de informar-lhe que eu precisava voltar à casa do
casal de amigos que me hospedavam no Rio de Janeiro. Corção, após indagar pelo endereço de meus amigos,
observou, com súbita e viril doçura: — Terei muito prazer em levá-lo até lá! Protestei, dizendo-lhe que apanharia um táxi, que... O escritor manteve-se irredutível. Daí a minutos,
dirigiu-se à garagem, tirou o carro de dentro dela... um fusca! Sim, o carro
dele era um fusca, de segunda mão. Convidou-me a
sentar ao seu lado, e lá nos mergulhamos no inferno enlouquecido dos decibéis
do Rio, o Rio daquelas eras, que ainda era — convenhamos — o dos bons selvagens de Rousseau. A viagem até à residência de meus amigos foi noutro
tom: o de irmãos apaziguados. Corção dirigia com perícia, talvez com
excessiva velocidade para um matuto de Santa Maria da Boca do Monte. Depois chegou a hora da despedida... Caros amigos, adivinhem como foi! Eu não devia contar nada. Mas conto. Para a glória
de meu saudoso amigo! A discrição
reservar-me-ia momentos de maior saboreio para a memória, já que a guardei
durante anos só para mim. Afinal, a memória estava na adega dos bons vinhos,
dos que costumam envelhecer no silêncio e na penumbra das cantinas,
guardando, porém, o aroma dos vinhedos ao sol. Sem dizer água vai, o escritor desceu, abraçou-me, com
aquele abraço sem subentendidos dos irmãos de sangue que se amam com sangue e
alma, mesmo quando brigam com certa
frequência, e se desentendem em política, e me disse, com acento de
inegável grandeza: — Sou um chato... Às vezes, me empolgo, e dá nisso.
Esqueça, esqueça, Trevisan! O principal é que somos irmãos na fé! Não
esqueça: é o que importa! Abraçou-me, outra vez, subiu no fusca, e sumiu no
sempre enlouquecido trânsito do Rio de Janeiro.” 08/03/2012. Tudo passa neste
mundo. Só permanecem os paradoxos, sobretudo os de Deus. Os paradoxos são o
principal indício da nossa radical incapacidade de compreender as coisas mais
profundas; são a expressão da humana impossibilidade de perceber os elos
ocultos da realidade. 07/03/2012. Assim escreveu o estóico
J. L. Borges sobre as motivações da escrita e o público literário: “Não escrevo para uma minoria seleta, que nada
significa para mim, nem para aquela adulada entidade platônica conhecida como
“As massas”. Essas duas abstrações, ambas tão caras aos demagogos, não são
parte das coisas em que creio. Escrevo para mim mesmo e para os meus amigos,
e escrevo para facilitar a passagem do tempo.” A passagem foi
citada por Graham Greene em sua pequena crônica “Em memória de Borges”, de
onde também extraio este outro trecho: “Era [Borges] um homem de grande coragem. Certa vez,
durante o segundo período de Perón, ele vivia com a velha mãe, e receberam um
telefonema misterioso. Uma voz de homem disse: ‘Vamos matar você e sua mãe’.
A mãe de Borges respondeu: ‘Eu tenho noventa anos, portanto é melhor vocês se
apressarem. Quanto ao meu filho, será fácil para vocês, pois ele é cego’.
Isso, creio eu, dá uma imagem do que era a sua família.” Greene e Borges,
dois grandes escritores, já estavam separados por um enorme abismo político.
Inglês que trocou na juventude o anglicanismo protestante pelo catolicismo
romano, o primeiro aproximava-se cada vez mais do socialismo, à medida que
envelhecia (o que talvez possa ser explicado pelo declínio das faculdades
mentais). O segundo sempre
foi adversário dos totalitarismos contemporâneos, atendessem pelo nome de
comunismo, nazismo ou fascismo. Enquanto Greene vangloriava-se dos amigos
católicos que tinham se unido aos comunistas para lutar contra Pinochet,
Borges teve a lucidez de perceber que o ditador chileno não tinha vocação
totalitária, mas só pretendia defender o Chile dos inimigos da liberdade. É
certo que essa defesa foi violenta, provocou mortes e torturas, o que não
alegrou nem um pouco aqueles que levam a sério o decálogo mosaico e a caritas
cristã (é nosso dever não incluir, nesse grupo, os católicos da teologia da
libertação). Mas o general estava num campo de batalha. Era matar ou morrer. O futuro deu razão
a Borges e a Pinochet. 06/03/2012. A porta da rua. Ideias boas e
más, Pelas calçadas
da mente Passam
permanentemente: Falam de guerra
ou de paz. Como fechar as
estradas À multidão
insistente? São públicas as
calçadas, A praça é de
toda a gente. Ideias ardendo
em brasa, Vêm do inferno
muitas vezes; Ficam semanas e
meses Batendo à porta
de casa. De todo lado
elas vêm! E a chave da
casa é tua: Abres a porta
da rua A quem queiras.
Pensa bem. 05/03/2012. Eu assinei com
letras garrafais a seguinte petição online, em apoio ao padre Paulo Ricardo,
um santo que, usando sabiamente a internet, faz pela Igreja Católica
brasileira o que a CNBB já desistiu de fazer. Não é hora do padre Paulo ser
martirizado por ser crítico destemido da teologia da libertação e da
banalização da palavra de Deus: ainda tem muito que nos ensinar. “No dia 27 de fevereiro de 2012, parte do clero e
dos religiosos da Arquidiocese de Cuiabá (27 ao todo) emitiram uma
"Carta Aberta" na qual se opõem — por motivos obscuros — ao
reconhecido e sério trabalho evangelizador do Pe. Paulo Ricardo de Azevedo
Júnior, e o caluniam de forma assustadora, chamando-o de "um homem
amargurado, fatigado, raivoso, compulsivo, profundamente infeliz e
transtornado" e que "não tem saúde mental" (sic), entre outras
aberrações. A carta, notadamente eivada de ódio e inspiração maléfica, tem
por objetivo pressionar o Arcebispo de Cuiabá, Dom Mílton Antônio dos
Santos,SDB, e a CNBB para que — mas letras da carta — "Padre Paulo
Ricardo de Azevedo Júnior seja imediatamente afastado das atividades de
magistério (...) que seja afastado de todos os meios de comunicação social em
todo e qualquer suporte", num desejo de censura ABSURDO e INFUNDADO. Nós, filhos espirituais do Pe. Paulo Ricardo,
simpatizantes do seu trabalho e todo o povo católico não podemos concordar
que isso aconteça. Seria uma perda INCOMENSURÁVEL para a Igreja no
Brasil, e uma INJUSTIÇA medonha contra o Pe. Paulo Ricardo. Por isso, com essa Petição Online, desejamos
manifestar a Dom Milton, e a toda a CNBB, nosso apoio total e irrestrito ao
Pe. Paulo Ricardo e ao seu benéfico trabalho de salvação de almas!” O link da petição é
o seguinte: http://www.peticoesonline.com/peticao/em-apoio-ao-pe-paulo-ricardo-de-azevedo-junior/395 Divulgue-o, que
Deus sorrirá do alto de sua benevolência. 04/03/2012. O Renascimento produziu
uma onda de retorno ao mundo pagão, que não para de crescer: tsunami de boca
aberta para engolir o Ocidente. Hoje, estamos bem próximos dos antigos
latinos: culto do corpo e da natureza, prática generalizada do aborto, defesa
da eutanásia, etc. Isso é velho como andar para a frente, mas ao homem que
emerge dessa grande onda chamam de Homem Novo. Ora, Homem Novo,
novo em folha, é unicamente aquele que é descrito nos evangelhos, em clara
refutação do humanismo latino: “Tendes ouvido o
que foi dito: amarás ao teu próximo, e aborrecerás a teu inimigo. Mas eu vos
digo: amai a vossos inimigos, fazei bem aos que vos tem ódio, e orai pelos
que vos perseguem, e caluniam; para serdes filhos de vosso Pai, que está nos
Céus, o qual faz nascer o seu Sol sobre bons e maus, e vir chuva sobre justos
e injustos. Porque se vós não amais senão os que vos amam, que recompensa
haveis de ter? Não fazem os Publicanos também o mesmo? E se vós saudardes
somente aos vossos irmãos, que fazeis nisso de especial? Não fazem também
assim os Gentios? (Mateus, V, 43-48). Eis o Homem Novo,
fruto da única revolução permanente: o que ama a si mesmo e ao próximo na
mesma clave. É fácil? Óbvio que não. Por isso, é uma revolução ainda em
processo, work in progress, como
diria o quase jesuíta James Joyce. O desafio dos desafios. 03/03/2012. Até o século XX, só
Deus sabia o que se passava no fundo das almas. Algumas vezes, concedia a
alguns poetas, como Dante, Shakespeare e Dostoievski, uma centelha desse
conhecimento. Agora, essa viagem ao fundo das almas é privilégio exclusivo
dos profissionais da psique: psiquiatras, psicólogos, psicanalistas. 02/03/2012. Uma verdadeira
introdução à literatura para jovens de hoje não pode restringir-se ao estudo
das formas literárias; deve ser, também, e antes delas, uma introdução ao mundo real que pré-forma aquelas
estruturas estéticas, que lhes dá sustentação com viga de carne e osso. 01/03/2012. Pecado original. Deus fez o
homem, deu-lhe a sede E deu-lhe a
fome. Mas, de graça, Logo
ensinou-lhe o pote e a rede. Deu-lhe uma
lança para a caça Do chão, seta
para a que voa, E ensinou como
se trespassa. E ele aprendia
à toa, à toa, Pois o Mestre
era muito bom E a lição era
sempre boa, Dita com calma,
em manso tom. Para cada
necessidade, Deus ia dando sempre
um dom. Eis que o
Príncipe da Maldade, Invejoso
daquele amor, Vestiu-se puro
como um frade E, num sermão
comovedor, Para além do
mal e do bem, Fez ver ao
homem que o Senhor Era injusto
como ninguém: Que o homem
tinha todo o direito De, igual a
Deus, ser Deus também. E foi lhe
ensinando o malfeito: A lança de
enfrentar perigo Já trespassava
humano peito; O fogo de
aquecer o abrigo, De cozer a
bendita caça, Queimava o
campo do inimigo. E assim,
desgraça após desgraça, A desumana
criatura Emporcalhava a
humana raça Que, feita para
ser tão pura Como o diamante
mais polido, Mergulhava en la noche oscura. Deus, como
amante preterido Sofrendo as
dores do abandono, Fez que o
deixou: pôs-se escondido... E o homem, como
um cão sem dono Numa noite de
chuva fria, Só ouvia o riso
do demônio Zumbindo como
vento bravo: — Já que Deus
não pudeste ser, Que tal
servir-me como escravo? 28/02/2012. Depois que
descobrimos pensadores claros e profundos, o que é perfeitamente possível,
nos recusamos a frequentar os obscuros, ainda que digam coisas fundamentais.
Mais cedo ou mais tarde, alguém com a virtude da paciência os traduzirá para
o idioma da clareza, para que os possamos aproveitar. Dizem que o esoterismo
escrito de Heidegger, verdadeiro suplício à leitura, nada tinha a ver com
suas aulas, como testemunharam Karl Jaspers, Ortega y Gasset e a própria
Hanna Arendt, que teve acesso a um Heidegger em versão mais exclusiva. Olavo de Carvalho,
que escreve muito bem, referiu-se certa vez à provisoriedade do texto
filosófico, condenado à superação parcial ou total pelo próprio autor ou pelo
inevitável balanço do tempo. Não são as questões de estilo que mais devem
preocupá-lo. A Platão ou Ortega, excelentes estilistas, não serão exigidas
credenciais retóricas na mesa-redonda das futuras discussões filosóficas. 27/02/2012. Qualquer pensamento
pode passar pela nossa cabeça, pois o espaço ali é irremediavelmente público:
entra quem quer no bordel, seja por associação de ideias ou tentação
demoníaca. Cabe a nós, depois, selecionar os que vão ter acesso ao coração e
virar ingredientes do ser pessoal. É bem verdade que, em certos indivíduos,
certos pensamentos intrusos permanecem mais tempo que o desejável, naquela
praça pública da mente; mas, para afastá-los, há ritos esconjuratórios de
todo tipo, como as preces (o rosário católico tem funcionado bem, nos últimos
quase mil anos, nesse papel de interpelação e refutação dos hóspede
indesejados). Há também os que necessitam de remédio para expulsá-los — esse
mágico rosário do homem contemporâneo, agindo talvez mais por efeito-placebo
do que propriamente químico. 26/02/2012. O principal enguiço
do darwinismo não está na hipótese evolucionista, que pode muito bem ter sido
o caminho pelo qual chegamos até aqui. Quem garante que não foi esta a
vontade de Deus? O problema é a dificuldade daquele pessoal em admitir uma
finalidade na miraculosa obra do universo. É doentiamente
pós-romântica, grotescamente dadaísta, esta insistência na casualidade do
ser, na ancestralidade visceralmente irracional do homem. Terrível atração
pelo informe. Gosto paradoxal da orfandade, da geração espontânea, do ser
filho de coisa alguma, algo como cuspir no prato em que se acabou de comer.
Incompreensível degustação do próprio abandono num mundo sem transcendência —
a derrelição heideggeriana que jogou os Sartres da vida e seus filhotes
intelectuais nos braços do alcoolismo, da droga, do sexo. O darwinismo é uma espécie
de atestado de maus antecedentes, visando justificar retrospectivamente a
aventura revolucionária. Esse tipo de
intelectual proíbe-se a si mesmo de considerar a possibilidade de Deus, pois
suas consequências seriam decentes demais para quem prefere a feiura e a
crueldade da arte moderna, da política moderna, da sociedade moderna. 25/02/2012. O espírito
revolucionário, cada vez mais, transforma o mundo na caricatura de si mesmo.
Em breve, tudo estará de ponta-cabeça ou pelo avesso, como nas “missas
negras”. 24/02/2012. Filosofia da cruz. O homem novo
acordar, dentro de nós, Não com berros
de um Nietzsche furibundo Sob o comando
do senhor do mundo, Mas escutando
humildemente a voz De Jesus. Mais
do que a filosofia, Seja grega,
francesa ou alemã, Cala mais fundo
aquela voz cristã Ressuscitada no
terceiro dia. Se o Cristo não
ressuscitou, a vida Não vale a pena e a dor de ser vivida, Gemeu Bandeira
(que é também Manuel...). Caro poeta,
Jesus ressuscitou; E, sem
tardança, em milagroso vôo, Subiu a seu
país natal: o Céu. 23/02/2012. Esse catolicismo
infuso de Carpeaux terá sido rigorosa obediência ao que ensinou o nazareno
(Mateus VI, 4-5): “... quando orais, não haveis de ser como os hipócritas,
que gostam de orar em pé nas Sinagogas, e nos cantos das ruas, para serem
vistos dos homens”, pois o Pai “vê o que tu fazes em secreto”. O homem que preferia ler
partituras a ouvir música, era o mesmo que não trocava sua liturgia
interiorizada, rezada no Missal que trouxe de Viena, pelas missas celebradas
em público. Convém, no entanto, não esquecer que tratou de revelar, no
próprio pseudônimo que escolheu para publicar no Brasil, a sua profunda
impregnação cristã: trata-se do Maria que incluiu entre o seu nome de
batismo, Otto, e o francês Carpeaux, plural de carpa, que traduziu do alemão
Karpfen, criadouro de carpas (e não esqueçamos, também, que a palavra “peixe”
sempre esteve associada ao Cristo). 22/02/2012. Em carta de 1943, a
Alceu Amoroso Lima, Otto Maria Carpeaux confessou claramente o seu catolicismo: “Com efeito, entre
homens que se dedicam sinceramente às coisas do espírito, haverá sempre
divergências de opinião, mínimas ou profundas, e a profissão pública de
escritor obriga, às vezes, a exprimi-las. Mas que podem significar essas
divergências em face da nossa fé comum, católica em todos os sentidos da
velha e venerável palavra, e que constitui a nossa comunhão no Espírito! É à
luz dessa fé que desaparecem todos os mal-entendidos possíveis, tanto mais os
possíveis mal-entendidos pessoais que já esqueci, há muito tempo, entre
tantas coisas inesquecíveis.” (Carta de 3 de abril de 1943, agora disponível
no site alceuamorosolima.com.br) Ainda em carta a
Alceu, mas agora de 1981, assinada por dona Helena Carpeaux, a viúva do
escritor austríaco fazia referência ao Missal
do marido, “com várias anotações dele (já quase apagadas pelo tempo); único
livro que Otto levou na precipitada fuga de Viena; uma medalha de São Bento
dada a Otto por uma amiga que, por acaso, estava em nossa casa no dramático
momento em que ele teve de abandona-la definitivamente. Otto pendurou essa
medalha no pescoço sem jamais tira-la; e nem na clínica deixou que a
tirassem, enquanto podia resistir.” (Carta de março de 1981 disponível no
site alceuamorosolima.com.br) 21/02/2012. O meu amigo padre
anda pensando seriamente em mudar de secretária. Dona Ellen, contratada pelo
pároco anterior, são três bolas de basquete superpostas: cabeça, barriga e
bunda. Cabeça aumentada pelo penteado armado, barriga e a bunda prejudicadas
pelo pecado da gula. Traz sempre, na bolsa, farta provisão de chocolates. Já
se aproxima dos sessenta anos, mas insiste em vestir-se como garotinha, roupa
justa, densa bijuteria. Parece querer competir não mais com a filha, que é a
mais disputada cabelereira da Colina, mas com a própria netinha
pré-adolescente. 20/02/2012. Até na hora da
morte, Jesus foi Deus e foi homem: homem apoiado em sua consciência divina,
Deus enfraquecido por seu calcanhar de Aquiles. Enquanto homem, sofreu na
cruz e se angustiou, teve sede, sentiu-se abandonado pelo Pai, mas não se
desesperou, como julgou Camus n’O homem
revoltado; continuou agindo como braço direito Daquele, resolvendo
pepinos do céu e da terra: banhado em sangue, ainda teve oportunidade de
perdoar os que não sabiam o que estavam fazendo, arranjar a salvação eterna
para o bom ladrão e encarregar o bom discípulo de cuidar de sua mãe (e sua
mãe, de todos nós). Só depois, entregou os pontos: — Pater, in manus tuas commendo spiritum meum. 19/02/2012. Uma das grandes
preocupações de quem escreve ficção é saber até que ponto pode ir, na mistura
de língua escrita e falada. Penso que, dos problemas linguísticos, é o mais
sério. Como fazer o diálogo soar natural? Como impedir que a narração não se
distancie demais das falas de personagens, nem fique por demais parecida com
elas? 18/02/2012. Ensinam os teólogos
que a alegoria bíblica do pecado original (alegoria, não tratado científico)
se refere à tendência pessoal do homem para a concupiscência, esse desejo
premente e insaciável das coisas materiais, que será ao mesmo tempo fonte de
prazer e de sofrimento. Não é nem preciso esperar pela idade da razão, em
torno dos sete e oito anos, para perceber essa terrível inclinação humana —
minha, tua, nossa. Santo Agostinho já falava da ânsia e do choro com que, mal
nascida, a criança já vai desesperada atrás do peito materno. Ou, pior ainda,
a experiência do ciúme: lembrava-se de um bebê que, ainda nem podendo falar,
já se empalidecia e olhava furioso a um irmão de leite, que lhe ameaçava
roubar a teta generosa. Quando teríamos
sido então inocentes, perguntava o santo, sem esperar resposta? O Éden
individual dura certamente muito pouco, talvez os nove meses em que passamos
confortavelmente no útero de mamãe. Para desagrado dos
evolucionistas, os católicos bem que podem, sem nenhuma culpa, transferir o
pecado original do âmbito da filogenia para a ontogenia, deixando em paz os
darwinistas com suas hipotéticas confabulações sobre o desenvolvimento da
nossa espécie; e, em vez de localizar o mancha genesíaca na origem da
História, como seu ponto alfa, trazê-la para a história individual de cada
ser humano, pois cada novo homem que é criado já revive o mito-verdade da
expulsão adâmica. Continuem os
cientistas localizando os elos da sisifiana cadeia evolutiva. Enquanto isso,
nós (e eles também, obviamente, embora quase não o saibam) continuaremos
brigando com nossos pecados, capitais ou periféricos, tentando torcer o
pescoço da concupiscência. É uma luta bem mais interessante... Verdade mais profunda
do que o pecado original, na Bíblia, só mesmo a da ressurreição cristã. 17/02/2012. Quadrinha de xícara na mão. E a milagrosa
harmonia De um café
recém passado Com aquelas
cores do dia, Lá fora, mal
começado? 16/02/2012. Se há um escritor brasileiro,
hoje esquecido, que merece voltar às livrarias, é o ensaísta Franklin de
Oliveira. Seus últimos livros publicados, quando ainda vivia, saíram em 1991
e 1993 pela Topbooks, respectivamente: A
dança das letras, coletânea de ensaios literários, e o polêmico A semana de arte moderna na contramão da
história. Sua posição era
muito parecida à de Otto Maria Carpeaux: socialista, sim, mas, ao contrário
dos socialistas de hoje, sem abrir mão da cultura humanista herdada da Idade
Média latina. Chamou de humanismo
socialista o princípio que orientava a sua obra, que foi principalmente
de crítica literária, mas também incluía sociologia, política e jornalismo,
que foi sua profissão até o final da vida. Escrevia
maravilhosamente bem. Lia em várias línguas. Ouviu todas a músicas e leu
quase todos os livros, como Carpeaux. Amigo íntimo do ensaísta austríaco, foi
quem primeiro tentou compreender com mais profundidade o fenômeno Carpeaux,
localizando-o em suas matrizes europeias, tendo escrito vários ensaios sobre
a sua obra, em especial a História da
literatura ocidental, posteriormente incluídos em dois livros seus: A fantasia exata e Viola d’amore. Franklin sacrificou
o poeta que havia nele pelo jornalismo. Deu de presente ao Brasil alguns
belos livros, entre os quais o Morte da
memória nacional, ensaio elegíaco denunciando a danificação do nosso
patrimônio histórico e da própria alma brasileira. Influenciado por Marx, não
se dizia marxista, ainda que andasse em companhia de gente como Leonel
Brizola, com quem trabalhou no governo do Rio Grande do Sul. Franklin era um
homem inteligente, mas mesmo pessoas inteligentes escolhem caminhos
equivocados. Como Carpeaux,
escreveu muito mais do que os livros publicados. Está à espera de garimpeiros
pacientes, dotados de um saco monumental, que se sujeitem aos alérgenos da
poeira e ao mau humor dos funcionários públicos. O Correio da manhã, O Globo
e, de 1977 em diante, até o final da vida, a Folha de São Paulo, são os principais esconderijos dos textos de
Franklin de Oliveira, além da revista Isto
é e inúmeros prefácios a obras publicadas, sobretudo, pelas editoras
Civilização Brasileira e Zahar (sem esquecer a colaboração para a
enciclopédia Mirador). Uma das lições de
sua reaparição, no Brasil de hoje, dominado por socialistas inimigos da
civilização, é mostrar ao país que, em passado não tão distante, era possível
a um escritor ser de esquerda e ao mesmo tempo respeitar o legado
multimilenar do Ocidente, sem pejo de nomear um livro com o hoje
politicamente incorretíssimo título de Literatura
e civilização (em cujo prefácio explica, entre outras coisas, por que o
conceito de civilização é superior ao de cultura). 15/02/2012. Se Ele partiu,
estamos solitários… De que nos serve o cogito ergo sum? Sozinhos somos
tantos... somos vários... E a soma de nós
todos não dá um... Para os apóstolos,
disse que iria: “Mais um pouco, e
entre vós não me vereis.” De fato, como
disse, foi-se um dia, Partiu, deixando
apóstolos e leis. E eis o que resta
vivo, em seu lugar De Deus ausente: a voz
dos evangelhos, Que permanentemente
irão falar Aqueles ditos que
não ficam velhos. No Verbo, derramado
sobre nós, Conosco está o
Senhor. Não vamos sós. 14/02/2012. Disse Camões, pela boca
do velho do rastelo, que Jesus temeu perder a vida, pois, como Deus, era seu
permanente doador: “temeu tanto perdê-la Quem a dá”. Na pressa de humanizar o
Cristo, e buscar consolo no fato Dele ter medo exatamente como nós,
esquecemos que, antes de tudo, era Deus; e que boa parte de sua angústia, que
começou no Horto e terminou na Cruz, era pela preciosidade da vida que via
escorrer como sangue de suas mãos. É claro que sentiu medo, mas lamentava,
sobretudo, o que as artes da maldade humana conseguiam fazer com a vida:
desnudá-la, flagela-la, coroa-la de espinhos, fazê-la carregar a própria cruz
em que seria crucificada. E disto não esqueceu o poeta, no momento de
lamentar o risco que corriam os portugueses ao descuidar de casa em nome do
mundo, sem temor de perder o Portugal que já tinham nas mãos — “Não tens
junto contigo o Ismaelita, com quem sempre terás guerras sobejas?” —, em nome do Portugal que ainda voava no céu
do possível. 13/02/2012. À sombra da cruz. Cheio de
angústia e de tribulação, Sentou-se um
dia à sombra do Senhor. Não se salvou
da morte nem da dor, Nem se curou da
humana condição, Mas descobriu
com quem compartilhasse Tão ácido
vinagre em sua boca; E viu que o
próprio sofrimento, em face Do Cristo preso
à cruz, é coisa pouca. Eis o descanso
dos que vêm sem nada, Cegos de
poeira, quase que sem voz: A sombra
refrescante de um cruzeiro. Basta saber
que, um dia, nessa mesma estrada, Alguém passou
para sofrer por nós, Passou alguém
para morrer primeiro. 12/02/2012. Falemos de Vós com
respeito, Senhor, mas em nossa linguagem viva, impregnada de impurezas e
pecados, sem o modo untuoso que pode comprometer as mais belas intenções
católicas — tom que, mergulhado nos santos óleos, passa uma ideia de
santidade que, em 99% dos casos, é só presumida e pode levar ao Inferno,
muito mais do que a fala dura de alguns jesuítas d’antanho. O palavrão em
santa ira pode levar ao Céu, assim como a palavra maviosa dos Paulo Evaristo
Arns pode ser o caminho mais curto para a perdição. Deus não é besta para se
deixar enganar por esses pequenos truquinhos da retórica. 11/02/2012. Funcionários
públicos são os padres e coroinhas da religião do Estado. A coisa que mais me
espantou, quando entrei para a universidade, foi o revestimento maçonicamente
cerimonial que havia na mais simples e tediosa reunião de departamento. O
ritual para defesa de tese, o único que podia se justificar, não existe mais,
pois o senso do ridículo prevaleceu e a água benta deixou de ser respingada
sobre teses, cuja redação pré-escolar faria sorrir de superioridade os alunos
do último ano do curso primário (aquele de antigamente, antes dos militares). 10/02/2012. O diabo também é
filho de Deus. Mas quem mandou andar em companhia de comunistas? Deu no que
deu. 09/02/2012. Os espíritas
acreditam que animais têm alma e reencarnam-se, dogma que muitos católicos já
incorporaram tranquilamente, incluindo a própria alma. Já está na hora da
Igreja oficializar o sincretismo e criar a catequese dos animais domésticos,
num gesto de deferência democrática à vontade popular. Quem sabe ainda tenho
tempo de matricular minha velha vira-lata Catarina e meu pastor-alemão Tuga
no catecismo da paróquia, e batizá-los, e crismá-los, e prepará-los para a
primeira comunhão e a vida eterna, ainda que caninamente nômades pelos
séculos dos séculos afora? Nada mais justo, não é? 08/02/2012. Conheço um padre,
para quem a encarnação cristã não passa de uma alegoria mitológica da
inevitável divinização da espécie humana, no turbilhão dialético do progresso
histórico. E as missas, que ele reza algumas vezes por semana, são unicamente
comemorações ritualísticas dessa transformação permanente da humanidade.
Celebra-as passivamente, como que cumprindo uma obrigação de funcionário
público. — Deus não está morto,
mas só transformado — disse-me um dia, em sua sala da capela do Rosário,
depois de discorrer longamente sobre Nietzsche. — Sua compaixão pelo homem O
recriou vivíssimo em bases históricas. Estamos reconstruindo Deus... 07/02/2012. Devia estar no catecismo
da Igreja: o primeiro passo para a conversão do ateu é trazê-lo para o
território mais neutro do agnosticismo, livrando-o primeiro dessa “crença”
irracional, sisifiana, de meter em fórmulas científicas a inexistência de
Deus. Há pelo menos dois
tipos de agnósticos: aquele que é um estado de intensa expectativa e
permanente campo de batalha entre a crença e a descrença, como Unamuno; e o
que se acomodou em seu plácido ceticismo, como o nosso Machado de Assis. 06/02/2012. Embora a História da literatura ocidental, de
Otto Maria Carpeaux, tenha sido publicada a partir de 1959, já estava pronta
em 1945, escrita por sugestão de José Lins do Rego para ser publicada pela
Casa do Estudante do Brasil. A editora faliu e a grande obra permaneceu
inédita, até que Herberto Sales a publicou pela O cruzeiro, quando dirigia a editora do Assis Chateaubriand. Se publicada quando
saiu do forno, anteciparia em pelo menos três anos a tese básica do livro de
Curtius, Literatura europeia e Idade
Média latina, publicada na Alemanha em 1948 e que mostrava, com fartura
de exemplos, a dívida do Ocidente moderno para com a Idade das Trevas... 05/02/2012. Se Carpeaux tem
razão quando afirma que está na Idade Média a origem da Literatura Universal
(imenso balaio de obras escritas em línguas tão diversas, mas a partir do
mesmo repertório estético-temático), qualquer introdução à literatura, em
cursos de letras, deve começar por aí: pela nossa tão desventurada dark ages, expressão inicialmente
cunhada para designar três séculos, da queda do Império Romano ao
renascimento carolíngio, e que acabou cobrindo mil anos, graças aos
maldizentes de sempre. Não foi na Idade
das Trevas que surgiu aquele repertório estético-temático? O romance, gênero
literário preferido da época moderna e contemporânea, é cria medieval. O
conto amadureceu ali. A maior parte da nossa poesia lírica, de franca e
justíssima vassalagem à mulher, não veio da Grécia nem da Roma pagãs, mas da
era que rezava de joelhos à Virgem Santíssima. A própria crítica literária parece
uma secularização da hermenêutica bíblica, que começou muito bem, com o
velhos padres da Igreja, e terminou muito mal, com os novos padres do
estruturalismo e do desconstrucionismo. 04/02/2012. Machado de Assis
tem um conto famoso, cujo título é altamente profético: “A Igreja do Diabo”.
Serve como luva para certo catolicismo de hoje, disposto a abrir as pernas
para o mundo. É provável que o profetismo pare aí, no título, pois o desfecho
da história machadiana — o mundo, dominado pelo demônio com a permissão de
Deus, enjoa-se de tanta maldade do tinhoso e decide voltar ao antigo Senhor
—, tem como ser evitado pela versão real do diabo: basta não dar tanto na
cara com suas diabolices e manter um certo verniz de coisa católica... 03/02/2012. Muito antes de João
Cabral de Mello Neto, outro poeta já tinha disposto o universo “com medida,
número e peso”, como podemos ler na Bíblia (Sabedoria, 11, 20). Chamava-se Deus, cuja poética, aliás, o autor
de A educação pela pedra abominava.
— É inspirado
demais — teria dito. 02/02/2012. O judeu convertido
Carpeaux via a missa, sobretudo, como glorificação de Deus — o Glória seria o
seu leitmotiv. Vejam o terceiro e
belo capítulo de sua História da
literatura ocidental, novamente recém lançado. Mas os católicos também
podemos ver, no drama litúrgico romano, o pedido de perdão e a defesa do mal. 22/01/2012. O filme Lourdes (2009), da austríaca Jessica
Hausner, é típica manifestação do pensamento gnóstico — Deus pode até
existir, mas não é justo — expresso no milagre recebido pela paralítica
Christine, que sofre de esclerose múltipla e vê o mundo pelo ângulo
desconfortabilíssimo de uma cadeira de rodas. Christine, apesar
do nome, óbvio demais em sua ironia, é cristã sem fé. Até a maneira como ela
aparece na cidade de Lourdes é gnóstico-existencialista: jogada ali como
coisa (“derelictada”, como diria o Heidegger gnóstico de Ser e tempo), não se sabe como, sem parentes ou amigos, cuidada
por uma enfermeira egoísta e leviana. Só depois, com a ajuda da internet,
ficamos sabendo que os peregrinos ali estão sob os cuidados da Ordem de
Malta, que todo ano organiza em Lourdes um “tour” de doentes (que, sem
exceção, parecem emprestados de algum filme de Bergman). “Há pouca,
pouquíssima luz em todo o filme, cuja clave cromática é o chumbo: nuvens
negras no céu até nas raras cenas exteriores”, viu bem Vittorio Messori, no
lúcido comentário ao filme publicado pelo Corriere
della sera (12 de fevereiro de 2010). No ambiente da história, oprimido
pela falta de luz, vida mesmo, segundo Messori, só havia na troca de olhares
entre as moças de véu e os rapazes de quepe, voluntários da Ordem de Malta, e
que parece encerrar a verdadeira mensagem da obra: a única saída, para o beco
sem saída desta vida, é o carpe diem. Sem fé, Christine
recebe a graça sobrenatural, ao contrário de outra jovem, também
“cadeirante”, que com ela compõe o par de contrastes do filme, acompanhada da
mãe que muito reza e parece muito crer. Parece ser este o objetivo do filme:
mostrar o irracionalismo do demiurgo brincalhão, e não o mistério de Deus. Nesse aspecto, é um
filme claramente contra Lourdes, mas, paradoxalmente, acerta justo onde
procura ser mais cruel: na sátira à nova Igreja e ao turismo religioso. O
padre do hotel é um idiota oportunista que joga cartas com o segurança e
exprime-se por chavões mal decorados no seminário. Os padres que, a certa
altura, celebram o culto do Santíssimo Sacramento, parecem um bando de
trapalhões esforçando-se, por ordem da diretora Jessica, para não exagerar no
pastelão. O único personagem decente da fita é uma velha estúpida da boca
torta, que, certamente, era por isso que ali estava: desentortar a boca. Vittório Messori,
no citado artigo, espanta-se que esse mesmo filme tenha recebido o Premio
Brian, da União dos Ateus e Agnósticos Racionalistas (para quem a obra da
sra. Hausner poderá ajudar a perder a fé, oferecendo uma visão desencantada e
cética aos que ainda não a conseguiram ter”), e o Prêmio Signis, concedido
por católicos de uma associação internacional reconhecida oficialmente pela
Santa Sé, além da atitude da Diocese de Milão, apadrinhando-o e difundindo-o
em suas paróquias. A Radio Vaticano
também não vê maldade nenhuma no filme
(http://www.radiovaticana.org/it1/Articolo.asp?c=357033). Exprimindo justamente
o ponto de vista daquela Igreja que é ridicularizada na obra, não enxerga as
intenções ideológicas do trabalho da cineasta austríaca. É “austero e
intenso, não quer tomar posição e muito menos criticar ou zombar, mas que, em
sua essencial e lúcida equidistância, produz um debate salutar, várias
reflexões sobre o milagre e as reações que despertam no coração das pessoas”. A revista Família cristã, versão italiana,
participa do coro e elogia (http://www.stpauls.it/fc/1007fc/1007fc74.htm). Um
filme controvertido, mas respeitoso, diz a matéria do periódico católico, que
não se incomodou nem um pouco com a Igreja ter sido ali representada por um
bando de tontos embotados pelo jargão ritualístico. E transcreve trechos de
uma entrevista da diretora, dos quais o seguinte me parece bastante
revelador: “Depois da minha primeira peregrinação a Lourdes, vendo o
sofrimento dos fiéis, ficava deprimida e queria abandonar o projeto. Mudei de
ideia quando tive contato com os voluntários da Ordem de Malta, atingida por
sua estrutura tão militaresca. Aquelas figuras me permitiram ampliar a
história, acrescentando uma pitada de ironia.” Os milagres e os doentes,
ilustrações estereotipadas dos pecados capitais, já contavam menos do que a
reprovável estrutura militaresca de “uma” associação filantrópica,
representante da vil repressão burguesa, e que, pela maneira como é mostrada
no filme, parece resumir metonimicamente “toda” a Lourdes. Terminemos com
Messori, para rir um pouco da coisa. O jornalista menciona uma conversa que teve
com o escritor e ateu Umberto Eco, ironicamente desiludido quando semelhantes
prêmios católicos (um deles da Universidade Loyola, a escola dos jesuítas
americanos) foram dados ao filme tirado do seu romance O nome da rosa: “Esforcei-me para
fazer um livro radicalmente agnóstico, senão ateu, esperando suscitar um
debate vivo. Ao contrário, esses padres me decepcionam, aclamando-me e
enchendo-me de prêmios. Chego a ter saudades dos belos e velhos tempos da
Santa Inquisição. Aqueles ásperos dominicanos eram menos aborrecidos do que
os frades e sacristães “maduros” de hoje, que aplaudem com entusiasmo o
escritor descrente”. 21/01/2012. O pensamento, a
vida e a prosa do crítico Antonio Candido parecem expressão de um espírito
sereno, mas é justamente o contrário, pois o move um profundo sentimento de
abandono cósmico e existencial, deixando-o plenamente convencido de que nossa
ordem moral é incompleta, sem coisas permanentes. Tudo deve fluir,
perenemente, pelos caminhos sempre enviesados da dialética, nos quais é
possível afirmar, ao mesmo tempo, que o comunismo soviético desviou-se da sã
doutrina, enquanto o cubano — com as mesmíssimas violações aos direitos
humanos — é a mais plena realização do ideal socialista. É claro que o
crítico sabe da profunda identidade que liga os dois totalitarismos, mas a
dialética autoriza-o a escamotear a verdade: tática perfeitamente válida, em
nome da sacrossanta estratégia revolucionária. Isso não é mentir... Mentira é
coisa de burguês. O socialista gramsciano está dispensado desses escrúpulos
conservadores. 20/01/2012. Et incarnatus est. Primeiro Deus me
apareceu na mente, Travestido de
ideias e equação. Mas eis que um dia
inesperadamente Transbordou-se
total no coração. Era o Deus dos
apóstolos, além Da régua, do
compasso e do conceito, Recém chegado de
Jerusalém Numa enxurrada que
alagava o peito. Verbo divino sob
humana voz, Deus, como nós, de
barro, e, como nós, Sujeito ao medo de
morrer na cruz. Amigo de humilhados
e ofendidos, De olhar severo e braços
estendidos, Mais perto que os
mais próximos: Jesus. 19/01/2012. Não há nenhum
problema grave se, no curso de psicologia, os alunos leem Freud e “adoram”
Lacan, pois numa sociedade secularizada cada um faz o que quer com sua mente,
que tanto pode virar cesto de lixo cultural ou cálice de coisas permanentes.
Quando, porém, um padre leu Freud e Lacan no seminário, e os incorporou na
própria visão de mundo, alguma coisa séria está acontecendo. Alguma coisa tremenda, para usar um adjetivo caro
ao recém mencionado Otto Maria Carpeaux. A Igreja não é universidade, mas
continuação terrena do corpo de Cristo, na bela metáfora paulina; e esse
corpo deve carregar nos ombros uma só cabeça, cujo sistema nervoso central
são os evangelhos. Se o seminarista é treinado por seu bispo para ser membro
amputado desse corpo, parte dissonante do conjunto, é porque o prelado
diocesano tem outros propósitos além dos religiosos. Tudo bem. Os
evangelhos, pelas artes mágicas da hermenêutica contemporânea, podem ser
relativisticamente interpretados segundo a vontade de cada um; e o
“personagem” Jesus pode ser visto até como precursor de Maio de 68... Quem
haveria de impedi-lo? Fuori le mura
da Igreja, que o seja. Mas o diabo é que o Diabo está entrando no coração do
Corpo Místico. De acordo com essa nova diretriz, paradoxalmente apontada pela
mão esquerda, os padres também têm direito a boa saúde mental (algo
indiscutível) mas que deviam, para tal, assumir plenamente sua sexualidade,
seja ela frontal ou traseira. Lembro bem, no início
dos anos 70, quando o velho Corção esbravejava n’O Estado de São Paulo contra o “modernismo” que invadia e botava
fogo nos velhos quintais da Igreja. Que adiantou? Tinha mídia poderosa, boa
audiência, um estilo admirável que fascinava até os que, como eu, já
começavam a trocar o sinal da cruz pelo sinal verde do livre pensamento. Hoje estamos aqui,
quarenta anos depois, sem capelas em que assistir a uma missa decente, com
música solene e o velho texto romano, se não no original, ao menos em
tradução integral. Se um bom romance em má tradução continua com muito de sua
força original, o mesmo valeria para o culto católico pós-conciliar que,
mesmo em vernáculo, louva a Deus, suplica-lhe perdão e continua oferecendo ao
público penitente o corpo de Cristo transubstanciado. Mas será mesmo? A
igreja pós-moderna, que já tomou de assalto a velha Igreja de sempre, quase
não bota mais os fiéis de joelhos, devidamente humilhados na hora da missa;
durante a light celebração, o fiel
quase não é mais vergastado pelo velho e implacável texto litúrgico; liberado
do sacramento da penitência, arrepende-se sumariamente dos pecados, e a
hóstia consagrada, que antes a boca recolhia da mão ritualisticamente
purificada do padre, agora é depositada em sua mão esquerda, com a direita a
coloca na língua e a ingere feliz, pois sabe que contém poucas calorias e não
lhe vai alterar a saúde; e, vantagem das vantagens, o candidato ao céu não é
mais envolvido por aquela música retrô, depressiva, de ranço conventual. Enfim, conseguiu-se
eliminar o mistério da celebração católica, antes “infusiva” e interiorizada,
e agora completamente efusiva, festiva, antropocêntrica, na qual só falta o
baile e o DJ. Há um filme do Buñuel em que, depois de um culto gnóstico no
meio do mato, os casais fogem para as moitas para uma rapidinha... Chegaremos
a isso? As capelas do futuro serão construídas com quartos laterais de motel,
alugáveis para melhorar o orçamento da paróquia? 18/01/2012. O jornalista Carlos
Heitor Cony foi amigo próximo de Carpeaux. Com ele viajou pelo Brasil, nos
anos sessenta, fazendo palestras contra os militares. De noite, no hotel,
lembra Cony, ”Luz apagada, fumando o último cigarro, eu notava que ele se
concentrava antes de dormir. Rezava? Talvez. Sempre suspeitei que Carpeaux tinha
um fundo religioso, embora criticasse todas as religiões.” Fundo religioso?
Quem lê a breve e tocante análise que ele faz da Liturgia Romana, no início
da História da literatura ocidental,
não tem dúvida disso: era um homem que acreditava naquelas terríveis e
consoladoras palavras latinas. A experiência traumática no início da Segunda
Guerra (segundo o mesmo Cony, teria presenciado a tortura de uma prima pelos
nazistas), justo no momento em que, recém convertido, estava visceralmente
ligado aos católicos austríacos, pode tê-lo afastado do cristianismo visível,
mas não do invisível. Se lhe faltava a
forma devota e ritualística, tinha um fundo profundamente religioso. Um livro
interessante, sob esse aspecto, seria uma antologia de seus ensaios
“religiosos”, que podia abrir com o belíssimo ensaio sobre Dante, cuja Divina comédia acompanhou-o pela vida
toda, sobretudo nos momentos mais difíceis, e fechar-se com os vários artigos
que dedicou a I promessi sposi, a
obra-prima mais desprezada do mundo não italiano (foi o único dos grandes
críticos brasileiros que escreveu com entusiasmo sobre o grande romance
católico de Manzoni). Se faltava alguma peça
nesse quebra-cabeça da religiosidade carpeauniana, a carta de sua viúva
Helena a Alceu Amoroso Lima cobre, de uma vez por todas, essa misteriosa
lacuna: o único livro que levou consigo, na fuga precipitada
de Viena, foi o seu Missal Romano, além da correntinha de São Bento, que
jamais tirou do pescoço. 17/01/2012. Por sugestão dos alunos
de Curitiba, do Instituto Olavo de Carvalho, que se reúnem para ler e estudar
Marques Rebelo, estou aqui à procura de um artigo, não me lembro de quem, em
que se relacionam, um a um, os principais nomes reais escondidos sob os
pseudônimos do romance-de-chave O
espelho partido (excelente obra para conhecer o período mais fértil da
literatura e da cultura brasileira). De cabeça, me recordo de alguns: Adonias Ferraz =
Cornélio Pena Mário Mora = pintor
Santa Rosa Altamirano =
Augusto Frederico Schmidt Julião Tavares =
Carlos Lacerda Francisco Amaro =
Francisco Inácio Peixoto Vasco Araújo = José
Olympio Gustavo Orlando =
Graciliano Ramos Luís Cruz = Gastão
Cruls João Soares =
Octavio de Faria? Pedro Morais =
Prudente de Morais, neto Ribamar Lasotti =
Armando Fontes? Antenor Palmeiro =
Jorge Amado Zagalo = Portinari? Martins Procópio =
Alceu Amoroso Lima Euloro Filho = José
Lins do Rego? Jacobo Giorgio=
Otto Maria Carpeaux Joaquim Borba =
Ciro dos Anjos Saulo Pontes =
Afonso Arinos? Aníbal Machado? Poeta = ora
Bandeira, ora Drummond Marcos Rebich =
Adolpho Bloch? 16/01/2012. Em geral, todo o
escritor conhece de perto o comportamento obsessivo-compulsivo, que pode ou
não se transformar em transtorno. Ele é particularmente invadido por pensamentos
ou ideias, imagens ou cenas, tão persistentes que até cria, ao longo da
vida, um modo de lidar com eles,
fazendo-os desaguar na criação literária. Em vez de inventar comportamentos
(ou manias) para neutralizá-los, aprende a cultivá-los nos jardins
subterrâneos da criação. A vida lhe seria
inimaginável sem esses probleminhas. Em vez de buscar eliminá-los com outros
atos ou pensamentos obsessivos, vítima de um movimento rotativo espiralar e
sem fim, trata-os com carinho, pois aprende com o tempo a transformá-los em
matéria-prima do jogo literário. Não os sente como estranhos nem intrusivos,
mesmo quando causem aumento de ansiedade e até grande desconforto, pois sabe
que seus textos lucrarão com eles e, por tabela, ele próprio. Ao contrário do esquizofrênico,
sabe que esses pensamentos vêm da sua mente, embora a tradição grega não
descarte a possibilidade de intervenção das musas (“daimons” ou entidades
espirituais, que soprariam 1% da inspiração, deixando os outros 99% para o
suor e a transpiração do poeta). O escritor cristão, que crê na ação do
Espírito Santo, também costuma aceitar a possibilidade do pessoal lá de Cima
interferir discretamente no trabalho artístico, como em qualquer outra
atividade, dependendo da vontade de Deus de conceder ou não a graça. Em vez de
considera-las coisas sem sentido, embora continue a perceber o caráter
irracional das obsessões, pois são desobedientes a seu comando racional, ele
aprende, digamos assim, a domesticá-las, e por isso não lhe atrapalham tanto
as atividades normais, embora geralmente reconheça que sua vida pessoal e seu
relacionamento familiar acabem de algum modo afetados por essas
excentricidades mentais. A maioria dos
escritores não aceitaria ser curada desses hábitos ou pensamentos
recorrentes, obsedantes. A atividade artística ou religiosa seria impensável
sem esse mecanismo, que termina por se transformar em caminho por onde podem passar estranhos veículos, que vão desde
uma generosa oferta das musas, até uma desconfortável mas espiritualmente
produtiva crise religiosa. Quando o caminho
fica por demais intrafegável, o escritor tem todo o direito de apelar para o
psiquiatra, que vai tapar os buracos da estrada ou recapeá-lo. Aí deve parar
a sua nobre função. Você consegue imaginar um psiquiatra que, para tornar um
Shakespeare mais “convivível” com seus parentes e amigos, procure
recondicionar suas obsessões, correndo assim o risco de secar a fonte de
inspiração do poeta? Ou então pensemos
em Jesus, aquele nazareno cheio de excentricidades, do qual os padres,
diariamente, obsessivamente, vivem falando... Vamos até admitir, para
facilitar a conversa, que Ele não seja Deus, como dizem os ateus ou os
Testemunhas de Jeová; que tenha sido só um homem diferente. Se o tivessem
levado a um psiquiatra, quando começaram as suas “manias” religiosas, a
civilização ocidental teria sido outra, inimaginavelmente mais pobre...
Felizmente, não havia psiquiatria na Judeia. Talvez a primeira
coisa que um jovem psiquiatra devia aprender, ao começar a especialização, é
que sua ciência não pode resolver todos os transtornos da mente e do
comportamento. Com essa humildade inicial, que qualquer pessoa normal
consideraria razoável, acaba-se abrindo espaço forçosamente a outras formas
de lidar com problemas desse tipo, concordemos ou não com elas — como, por
exemplo, a religião. Por que o psiquiatra, em vez de refutá-la cegamente, não
reconhece que ela é muito mais antiga, incomparavelmente mais antiga — nos
povos primitivos, o sacerdote e o médico eram uma só pessoa —, e poderia até
aprender com ela? Jung desconfiou que Freud tinha sido apressadinho demais em
seu diagnóstico da religião e foi atrás dos padres, dos magos, dos deuses.
Viktor Frankl, outro psiquiatra de bom senso, afirmava que a repressão do
nosso instinto religioso é muito mais maléfica do que repressão sexual. 15/01/2012. Meu amigo Hildo foi
a Ribeirão Preto confessar os pecados, mas não achou padre disponível: — Quando acabei de
subir as escadas da Catedral, logo vi o aviso na folha de sulfite, ao lado da
caldeira de água benta, impresso naquele horrível e desbotado tom cinzento de
quem quer economizar tinta de impressora: “Confissões só a partir de
fevereiro.” Desci os degraus com ira santa e procurei a papelaria mais
próxima, comprei um pincel atômico vermelho e voltei à igreja. Esperei uma
velhinha entrar, cuidei que não houvesse ninguém me observando, e escrevi
debaixo do aviso, com a cor do inferno: “Satanás está de férias.” 14/01/2012. Na entrevista “O socialismo é uma doutrina triunfante”, publicado originalmente na edição 435 do site Brasil de Fato, Antonio
Candido atribui ao socialismo (escondido no capitalismo
como um cavalo de Troia) aquilo que outros veem como consequência do próprio
capitalismo, em seus estágios mais avançados, quando foi possível ultrapassar
a barbárie do início, na revolução industrial, e tratar o operário com mais
dignidade. O impulso por justiça, que surgiu entre os trabalhadores, não é
visto por ele como algo inerente ao próprio capitalismo, uma dinâmica interna
de ação e reação, uma defesa do próprio corpo contra um elemento que poderia
destruí-lo, mas como algo de fora, uma poção quase milagrosa
que vem dos céus revolucionários para salvar o corpo
enfermo da sociedade. Clara influência gnóstica,
maniqueísta, que biparte a sociedade em dois lados radicais, um bom e outro
mau. 13/01/2012. Pensa Antonio
Candido que, se for necessária uma suspensão provisória dos direitos humanos
para alcançar justiça social, nada teria a opor. Quem quiser um
exemplo, na prática, de como funciona essa antoniocandida suspensão
provisória dos direitos humanos, basta ver o belo filme de André Wajda, Katyn, sobre o massacre de poloneses
no início da Segunda Grande Guerra, inicialmente atribuído aos nazistas, mas
depois restituído ao verdadeiro dono: os russos. Sobretudo a cena final,
quando os soviéticos furam o crânio de milhares de polacos à beira da vala
comum, recém aberta pela motoniveladora, muito semelhante às que foram
realizadas pelo governo cubano. Santo Deus! Por
que, ao lado das vítimas do capitalismo, continuar imolando um número
absurdamente maior de cordeiros, agora em nome de um futuro que Antonio
Candido sabe não vai ser glorioso, como ele mesmo disse na entrevista citada?
Que estranha necessidade é esta de deixar girando a roda dos sacrifícios per onnia saecula saeculorum? É nesta hora que
deve cair em nossas cabeças caipiras, como jaca madura, a verdade cristã da
hora pascal: Jesus, o cordeiro, se deixou morrer para eliminar, de uma vez
por todas, o longevo bode expiatório das religiões pagãs, incluindo a
socialista. Foi o último bode expiatório, para desarmar para sempre o
mecanismo do bode expiatório, na bela interpretação do antropoteólogo René
Girard. 12/01/2012. Na entrevista “O socialismo é uma doutrina triunfante”, disse Antonio Candido: “Tenho temperamento conservador, atitudes liberais
e ideias socialistas.” Obediente a seu temperamento conservador, Antonio
Candido não usa computador nem internet, mas gosta de televisão. Fiel ao
método dialético, jura que a “A televisão é uma praga”, mas logo em seguida
“antitetiza” o pensamento anterior: “Eu adoro”. Mas é dialético só
quando lhe interessa. Segundo ele, os meios modernos de comunicação “são
muito venenosos (...) A televisão faz um inculcamento subliminar de dez em
dez minutos, na cabeça de todos (...) imagens de whisky, automóvel, casa,
roupa, viagem à Europa – cria necessidades. E claro que não dá condições para
concretizá-las. A sociedade de consumo está criando necessidades artificiais
e está levando os que não têm ao desespero, à droga, miséria...” Esquece-se, porém,
de lembrar, dialeticamente, que os
socialistas empregados das empresas de mídia, fiéis ao ensinamento
gramsciano, há muito tempo usa as mesmas técnicas de propaganda subliminar, e
mesmo ostensivas, em sentido que o crítico aprovaria sem hesitar: militância
feminista, pró-casamento gay, pró-aborto, ódio racial, luta de classes etc.
Estão nas novelas, nos noticiários, nas entrevistas, nos reality show. Somos obrigados a
perguntar: um homem inteligente e informado como ele não sabe que a televisão
é um forte aliado da revolução silenciosa? Ele mesmo diz que “O socialismo
deu certo onde não foi ao poder. O socialismo hoje está infiltrado em todo
lugar.” É provável que sim, que saiba; e, neste caso, estará agindo de má fé,
mais como militante do que como pensador. Tenho o direito de
desconfiar que toda aquela casca cordial que envolve o homem Antonio Candido,
intelectual orgânico no sentido gramsciano, não passa de disfarce, de uso
astutamente intencional, e aqui sim dialético,
que ele faz de seu “temperamento conservador” a serviço de sua militância
socialista. “O socialismo é o cavalo de Troia dentro do capitalismo”, disse
na mesma entrevista. O Antonio Candido conservador é o cavalo de Troia, para
uso e abuso de nós todos, cheio de soldadinhos socialistas prontos para
invadir os cursos de letras do Brasil. 11/01/2012. “Deixa-me contar algumas coisas sobre Adolf
Eichmann. Era um homem muito disciplinado. Não bebia nem comia
exageradamente. Era inteligente, falava com serenidade e modéstia, muitos
diriam até que era uma pessoa encantadora. Gostava de Mozart e de rosas.
Planejou a morte de vários milhões de pessoas. Não era caráter o que lhe
faltava.” (Michael O’Brien, Padre Elias)
10/01/2012. Visitei meio a
contragosto, por obrigação familiar, as cataratas do Iguaçu. Confesso que são
muito espetaculares para minha Weltanschauung
caipira. Os corguinhos do sítio do vovô Zezé me emocionavam muito mais. O show aquático de
Iguaçu virou santuário da nova religião panteísta que o ecologismo criou para
nós. A gente quase tropeça nos romeiros que descem pelas trilhas limpas e
cimentadas — argentinos, paraguaios, chilenos e até baianos. Há pessoas que
choram quando diante daquele portentoso efeito cenográfico, produzido pelo acaso
das erosões e domesticado pelo governo brasileiro, que cobra caríssimo pelas
visitas. Verdadeiramente
bela é a garça que pousou de leve na pedra molhada, lá embaixo. Branca e pura
como as hóstias do poeta Alphonsus de Guimarães. Meu Deus, estarei cometendo
racismo? 09/01/2012. Para-choque de caminhão filósofo, em
Maringá. Feliz foi Adão Que não teve sogra Nem televisão. 08/01/2012. “Ou você é cristão, ou é alemão. Não pode ser
as duas coisas ao mesmo tempo”, disse Adolf Hitler, que nem alemão era. 07/01/2012. Sempre que vejo,
pelas estradas, a placa “Trecho sujeito a neblina”, me lembro súbito dos
textos de Martin Heidegger. E quanto tempo perdi tentando decifrar aqueles parágrafos
nebulosos do baixinho de Messkirch, esperando que, depois da leitura, a chave
conceitual do universo fosse cair magicamente em minhas mãos... 06/01/2012. No Paraná, tudo é
possível. Inclusive um mosteiro carmelita fantasticamente perdido no meio do
agronegócio da soja. Quem duvidar, dê um pulo em Campo Mourão — e aproveite
para conhecer, nas imediações, o único rio do mundo que, em vez de nome, tem
número, como os presidiários de filme B. 05/01/2012. Quando digo que
perdemos, muitos de nós, o respeito pelo crítico
Antonio Candido, é preciso explicar que o repúdio não é pelo homem, mas por
suas ideias. O homem Antonio Candido o vi de perto, no final dos anos oitenta
— e me pareceu ser um homem bom, além da admirável destreza docente. Primeiro, foi em
1988, ao assistir a uma palestra sua, em Ribeirão Preto, quando ele criou
extraoficialmente o Estado da Mogiana — num impulso de criação literária, ele
que não é um criador —, reunindo um pedaço de Minas Gerais e outro de São
Paulo, compreendendo a área servida, antigamente, pela velha estrada de ferro
da Mogiana, permanentemente obrigada a
pronunciar e a ouvir o “r” mais terrível do Brasil. “Estado” ao qual pertence
a cidade em que vivo eu, Batatais, em que vive, por exemplo, o escritor Luiz
Vilela, Ituiutaba, e em que viveu o próprio Antonio Candido: Poços de Caldas
e Santa Rita de Cássia. Depois o vi num
curso de uma semana, em 1989, sobre Romantismo
e modernidade, na Unesp em que dou aulas. Tanta gente se inscreveu para
ver o célebre professor aposentado, que a única saída foi transferir as aulas
para o grande auditório da Faculdade. Nessa oportunidade, creio que no último
dia do curso, conheci o seu lado mais interiorano, desapegado do cerimonial
acadêmico. Foi quando, ao perceber que descia pelo corredor lateral um velho
de chapéu na mão, destoando completamente do perfil universitário, ele interrompeu as
digressões teóricas e saudou alegremente a inesperada visita. Tratava-se de
um primo que morava na Alta-Sorocabana e que há muito não via. O ilustre
professor obrigou o primo caipira a sentar-se a seu lado, na mesa de
conferência, onde ficou até o final da aula.
Tudo ocorreu muito naturalmente, sem que eu pudesse notar no fato
nenhum sinal revolucionário de quebra de protocolo. O poder de sedução do Antonio Candido, pessoal e escrito, é grande.
Era de uma época em que os intelectuais ainda não se envergonhavam da
erudição, aquela erudição própria dos intelectuais da velha guarda, muitos
deles com saber enciclopédico e aquele espírito universal herdado da
moribunda civilização judaico-cristã. Os mais íntimos garantem até que, além
de melômano, Antonio Candido é um bom tenor. É uma pessoa bem humorada, um
gentleman caipira, de discreta elegância, que quase não se vê mais nos meios
acadêmicos da dita pós-modernidade (ou hipermodernidade, como quer um certo
Lipovetsky). Colegas de faculdade, que foram seus alunos ou que com ele, de
algum modo, privaram, são unânimes em atestar a sua gentileza e cordialidade. 04/01/2012. Obrigado a soldar as obras lidas, se recentes, ao organismo vivo já
pré-existente da civilização ocidental; ou nesse mesmo organismo confirmar
obras mais antigas, que ele relia e reavaliava, tirando-as do injusto
esquecimento ou sepultando-as ainda mais na vala comum das coisas mortas, um
crítico literário sério nunca podia ser um gélido resenhista de livros, um
mero contabilista no comércio das ideias. Era, sobretudo, um juiz — permanentemente solicitado a condenar ou
absolver autores e obras. Médium entre a tradição e o momento, o perene e o
transitório, necessitava de “cultura geral” para a realização desse trabalho
reavaliativo: era um homem culto, transitando com desembaraço por todas as
ruas e becos das chamadas humanidades. Diante dos escritos de um cidadão desses, com tamanha responsabilidade
na formação do público, nada mais justo do que o leitor do passado
perguntar-se: o que pensa Sainte-Beuve ou Sílvio Romero a respeito de Deus,
da ciência ou da política? — O que pensa o contemporâneo Antonio Candido, guru de todos nós na
universidade brasileira, sobre Deus, ciência e política? Eis uma pergunta que todos temos o direito de repetir, hoje. 03/01/2012. Muita gente perdeu o respeito pelo crítico Antonio Candido quando, no
jornal Folha de São Paulo, início
dos anos noventa, abandonou pusilanimemente um debate com Miguel Reale,
depois de questionado pelo filósofo sobre sua conhecida ligação com Cuba. Foi
o meu caso: passei a dar razão ao Paulo Francis, que nunca caiu no pecado de
exagerar a importância do famoso crítico. Antonio Candido viu, paranoicamente, má fé na provocação do
adversário, uma inaceitável descida de nível, e saiu de campo ressentido. O
que tinha acontecido com ele? Quem conhece as suas opiniões políticas, sabe
que foi um opositor do estalinismo e adepto, desde os anos quarenta, de um
socialismo comedido. Cuba, porém, mexeu com o nosso homem, que depois foi a Havana e gostou
do que viu. Na polêmica da Folha,
pretendia que a discussão com Reale passasse esquizofrenicamente ao largo dessas
questões menores, subindo diretamente ao plano mais teórico do confronto
liberalismo versus socialismo, sem esbarrar no pessoal, no existencial. Ele sabia muito bem que, quando tivesse de atribuir as presumíveis
boas obras da revolução cubana ao totalitarismo do regime, ficaria numa
tremenda saia justa, e a única saída seria admitir, com a clareza por ele tão
respeitada, que a imolação do próximo é plenamente justificável quando o
objetivo é “nobre” (transtorno mental e moral devido ao uso imoderado de Marx
e Lenin). Preferiu, porém, não sair mal na foto, e nós, leitores, perdemos a
oportunidade de acompanhar um debate que podia tocar nas grandes questões
políticas e humanas daquela época. Pelo menos um dos lados da contenda, o de
Miguel Reale, estava disposto a isso. 02/01/2012. Variações sobre um salmo de Davi. Nada me falta se o pastor
é Deus. Em pastos verdes me faz
repousar; À refrescante fonte os
passos meus Conduz para o meu ânimo
voltar. Nos bons caminhos Deus é
quem me guia. Mesmo se eu for por
tenebrosos vales, Atormentado por terríveis
males, Não terei medo em Sua
companhia. Meus inimigos viram com
tremor Quando Ele convidou-me
para a mesa, Ungiu-me a testa e
transbordou-me a taça. Para onde eu vá,
misericórdia e amor Hão de seguir-me com toda
a certeza. Se Deus é o Pai, herdeiro eu sou da Graça. 28/12/2011. Prezado amigo ateu,
se você perceber que sua fé materialista anda meio abalada, tenho a solução
para o problema: assista a uma missa em minha cidade, e seu ateísmo estará
novamente em forma, pronto para continuar brigando com Deus. Se minha cidade
é muito longe da sua, não faz mal. Procure qualquer paróquia católica em sua
cidade, que o efeito será rigorosamente o mesmo. 27/12/2011. O comentarista
literário tem todo o direito de usar hipérboles para enfatizar juízos, mas é
completamente idiota afirmar o que afirmei na nota anterior: “Juro, pela
Santíssima Trindade e a Nossa Senhora, que o maior poeta brasileiro dos
últimos dois milênios é o Mário Quintana”. O leitor mais complacente vai
botar isso na conta do entusiasmo: — Como ele gosta do
poeta gaúcho! Já um leitor mais
suscetível irá ofender-se com minha tentativa de impor-lhe o meu gosto
pessoal, pronunciando em vão o nome de Deus; o que configura pecado grave,
mais um na minha longa lista. Agradeço ao leitor
complacente, dou razão ao suscetível, mas não resisto em repetir: — Acreditem em mim.
Mário Quintana é muito bom. E bom porque é “um
poeta enorme, uma alma imensa”, como bem sintetizou Gustavo Corção, o maior
prosador brasileiro dos últimos dois milênios. 25/12/2011. Juro, pela
Santíssima Trindade e a Nossa Senhora, que o maior poeta brasileiro dos
últimos dois milênios é o Mário Quintana. Ninguém foi mais inspirado,
cantasse as suas humanas dúvidas de Deus ou se atirasse crédulo aos pés do
Menino Jesus. O poeta que melhor nos ensinou a sorrir: um homem que, quando
sorria, sentia gosto de estrela na boca... Não rangia como Drummond e as
máquinas velhas. Não derramou o cálice bento como Schmidt. Não gaguejava como
Cabral, envergonhado da própria ligação
direta com as musas. Não constrangeu as virgens puras como Vinícius.
Não foi tão inacessivelmente etéreo como Cecília e, graças a Deus, não abusou
de Deus como Jorge ou Murilo. Conseguiu levar às estrelas mais distantes
aquilo que, por demais preso ao contingente, no velho Bandeira mal tinha
começado a levantar vôo (vôo escrito assim mesmo, com passarinho circunflexo,
desobediente à última reforma ortográfica e de um jeito que o Quintana
certamente aprovaria). Ousou fazer o infactível: aquela poesia simples e
profunda que somos obrigado a compartilhar com os leitores mais simples sem
que isso nos envergonhe um só milímetro. Não se casou com nenhuma prenda de
Alegrete ou Porto Alegre, nem teve filhos matriculados em clubes de tradição
gaúcha. Um invejoso dos pampas chamou-o de assexuado, quando podia tê-lo
classificado entre as ordens dos Anjos sem que houvesse um único pio de
discordância Lá em cima. Quando morreu, no dia 5 de maio de 1994, ofuscado
pela morte mais famosa de um ídolo das massas, foi imediatamente admitido no
coro angélico mais próximo de Deus, contrariamente à sua humilde vontade de
permanecer para sempre no Purgatório, como um Tântalo resignado, eternamente
sonhando com os frutos do Paraíso. 24/12/2011. Glosando o Quintana. No mundo milagroso
que o Senhor nos deu, Onde o próprio
milagre parece normal, Só há uma coisa
sobrenatural: O ateu. 23/12/2011. O cinema é a arte da
época? Poderia ser, se os bons assuntos tivessem mais chance de chegar aos
filmes. Por enquanto, de Hollywood à Globo, só lixo. Bons assuntos são
politicamente incorretos, não agradam ao público educado pela pedagogia
maquiavélica da Unesco e, portanto, não pagam dívidas. Resta ao conto, à
novela e ao romance continuar fazendo o dever de casa, ou seja, dando o
testemunho do circo enquanto pega fogo. O escritor faça a sua obrigação, e
registre — com raiva ou serenidade —
esta maldita hora presente que nos tocou viver, sem se importar com a
quantidade de leitores. Stendhal não se contentava com cem? Ao personagem
defunto do Machado não bastavam cinco? 22/12/2011. Alma Mahler, que
pretendeu ser compositora, mas entrou mesmo para a história das artes como colecionadora
de celebridades masculinas, passava pela cidadezinha de Lourdes, França, com
seu último troféu, o poeta e romancista judeu Franz Werfel, quando
testemunhou uma estranha promessa do seu mais recente marido: jurou escrever
um livro sobre santa Bernadete e os milagres da Virgem, se escapasse dos
cachorros enfeitados de suástica. Escapou. Foi parar
nos States. E cumpriu a promessa, pois promessa dessa espécie é dívida com
Deus. Escreveu e publicou, em 1941, o famoso romance A canção de Bernadete, que, para o desespero de outro refugiado,
Otto Maria Carpeaux, acabou atingindo o grande público e logo virou filme,
dirigido pelo competente Henry King, comovendo merecidamente todos os
católicos do mundo, ao mesmo tempo em que botou para funcionar todas as
fabriquetas de explicações materialistas. Se um dos riscos do
crente é imaginar demais, o que mais compromete o materialista é imaginar de
menos. No ateu, haverá sempre alguma desconfiança em relação à poesia, que
lhe parecerá coisa de criança; e, quando há espírito poético nalgum ateu,
pois tudo é possível neste mundo, saem poemas muitas vezes comprometidos com
a mão forte do Estado ou com os futuros vermes que roerão nossos cadáveres;
saem aqueles textos gagos e tortos de um João Cabral de Melo Neto ou o
lirismo anêmico de um Mallarmé. A maior injustiça da literatura contemporânea
foi aquela profusão imagística do Neruda ter sido gerada pela mesma cabeça de
jerico que apoiava o comunismo. 21/12/2011. Quem zomba da
Virgem de Fátima, por ter dito “Eu sou a Nossa Senhora”, em vez de “Eu sou a
Vossa Senhora”, tem todo o direito de não acreditar em virgens imaculadas,
mas não de corrigir o português da santa. Culpado pelo
deslize gramatical foi o governo esquerdista de Portugal, precursor dos
totalitarismos que deitariam e rolariam pelo século XX afora. Dizendo-se
amigo íntimo do povo simples e já há mais de cinco anos no poder, se
esquecera completamente de alfabetizar e educar a pastora Lúcia. Foi ela quem trocou
nosso por vosso. O filho famoso, que a torna poliglota quando necessário —
Maria já falou latim, espanhol, inglês, croata, japonês, francês, italiano e,
milagres dos milagres, até português —, não deixaria que fosse humilhada
pelos burocratas da gramática. Um milagre desses na boca da humilde nazarena
seria fichinha. Quem manda em todas as leis da física e pôde produzir o belo,
terrificante efeito cenográfico da Dança do Sol, diante de milhares de
crentes confirmados na fé e milhares de incréus sujando as calças, não ia
deixar a própria e imaculada mãe macular a última flor do Lácio, mesmo quando
se dirigisse ao pessoal rústico da Cova da Iria. 20/12/2011. Na época em que
adolescentes gostam de fazer a experiência de botar Deus abaixo de todas as
coisas — e eu fui um desses idiotas, na virada dos anos sessenta para os
setenta —, li no Otto Maria Carpeaux umas linhas que me marcaram
profundamente. Eram sobre um certo escritor (não me lembro quem, nem em qual
livro do ensaísta está), que se dizia ateu, mas continuava respeitando os dez
mandamentos e a maioria das lições da Igreja. Um ateu, portanto, católico. Eu, na época, achei
aquilo perfeito para o meu cirquinho pessoal e decidi transformar-me, dali
por diante, num ateu católico! Carpeaux, que sempre escreveu com muito
respeito sobre assuntos da Igreja — o único livro que levou consigo, na fuga
precipitada de Viena, foi o seu missal, além da correntinha de são Bento que
jamais tirou do pescoço (v. correspondência de dona Helena Carpeaux com Alceu
Amoroso Lima, no site http://www.alceuamorosolima.com.br)
—, me impediu de dar o passo decisivo para o buraco, pois foi aquele aparente
paradoxo que me guiou no caminho que comecei a aplainar para meu uso e
extravio pessoal, na noite escura da alma. Perdi a fé, mas
permaneci na barra da saia da Igreja. Mais do que as centenas de livros e
autores que fiquei conhecendo através de seus livros, devo a Carpeaux aquele
lembrete espiritual (podíamos negar Deus à vontade, mas não andaríamos um
milímetro sem topar com alguma consequência de Deus no mundo), numa época em
que os padres já estavam congelando a fé e desistindo de ajudar seminaristas
em dúvida. Conheci padres bem
de perto. Padre C., claretiano basco, sempre trazia terços e crucifixos para
meu pai consertar, e ficavam horas de conversa fiada. O sisudo e entediado
Monsenhor M., vigário da Matriz, também gostava do meu pai, que era
Congregado Mariano e lhe consertava de graça a perua Kombi quase caindo aos
pedaços. Certa vez, junto com o barril de vinho canônico que mandou vir de
Jundiaí pelo trem da Mogiana, veio outro, de vinho tinto seco, encomendado
por meu pai a instâncias do padre. Lembro-me de uma carona que me deu ao
seminário, num final de domingo, em que durante a meia hora que passei a seu lado,
no banco da frente da Kombi, comigo não trocou uma única e mísera palavra.
Estranha figura a daquele Monsenhor, cuja talvez principal virtude foi ter
implicado com a Via Sacra expressionista que o Portinari tinha pintado para a
sua igreja; considerava-a imprópria para o culto, no que tinha toda razão. Acredito que saí do
seminário por não ter visto, ali, nenhum padre que se parecesse com padre.
Padre N. ensinava educação física e era responsável pela Comunidade dos
Menores, à qual eu pertencia, mas jogava futebol bem melhor do que rezava
missa. Padre I., o reitor, era ótimo professor de boas maneiras, e nada mais.
Padre X. era boa gente, porém andava mais interessado em proezas
parapsicológicas do que em teologia. Houve até um padre, famoso pelo mau humor
e de cujo nome me esqueci, pois chefiava a Comunidade dos Médios — saí do
seminário, felizmente, antes de chegar à Comunidade dos Médios... —, que
preferia praticar um esporte que tanto envergonharia a Igreja atual e tanto
alegraria os seus inimigos: preferência sexual por adolescentes mal saídos
das fraldas. 19/12/2011. A lei moral está
inscrita na consciência do homem, desde que o homem é homem. Haverá,
certamente, representantes muito antigos da nossa raça — homens perdidos e
salvos de quinhentos mil anos —, seja no Inferno como no Céu. No filme Apocalypto, de Mel Gibson, os índios
pré-colombianos, antes de conhecerem a fé cristã, são submetidos a um
rigoroso exame de consciência moral, e alguns são aprovados, outros não. A
pequena tribo, que é destruída e escravizada pelos maias, não oferecia a seus
deuses os próprios semelhantes, ao contrário daqueles outros, que usavam e
abusavam do sacrifício humano. Mel Gibson, com a
mesma coragem que mostrou em Paixão de
Cristo, desagradando a gregos e troianos do politicamente correto, nesse
filme de 2006 provocou com vara curta a onça do estruturalismo
lévy-straussiano e do multiculturalismo relativista, ao revelar a crueldade
daqueles bons selvagens, que respingavam sangue por todo o lado na exuberante
paisagem dos trópicos: matavam e escravizavam como o faria qualquer filho do
Cão, antes ou depois da passagem de Cristo pela Palestina. A sabedoria do
diretor foi, depois de duas horas da mais primitiva violência, encerrar o
filme com a chegada das caravelas espanholas, empunhando a Santa Cruz que,
logo mais, no filme seguinte da História, começaria a botar ordem no barraco.
Gibson soube transformar a conquista europeia naquilo que ela sempre foi: a
chegada do mocinho (também sujeito a bandidagens) na terra do bandido (que
também tinha gente boa). Apesar de suas
inevitáveis concessões a Hollywood, é excelente filme para mostrar aos
aluninhos do ginásio, logo na primeira aula de história das Américas, no
momento em que suas cabeças adolescentes começam a sofrer aquela formidável
lavagem cerebral que todos conhecemos. 18/12/2011. Carlos Fuentes,
escrevendo sobre o Nazareno, disse que “a hipocrisia, o farisaísmo e a simonia (…) mancharam a Igreja criada em
seu nome” (Carlos Fuentes, En esto creo).
Tudo bem. Quem poderia negar? Mas a Igreja que não soube manter-se à altura
de Cristo — cazzo! que instituição
humana o conseguiria?! —, foi responsável por manter vivas, por quase dois
mil anos, as suas palavras e obras eternas. Uma coisa compensou quase
infinitamente a outra. Só um adolescente birrento e mimado para, só por isso,
condenar definitivamente o nosso velho e demasiado humano Vaticano. 17/12/2011. Grato, Luiz Vilela,
pelo livro que você mandou (Perdição,
Record, 2011, 400 p.). Chegou anteontem, folheei aqui e ali. Sua frase
continua límpida, com a absoluta redondez de sempre, discretamente elegante,
daquela elegância simples do pobre de antigamente que, aos domingos, botava a
roupa de ver Deus e ia à missa. O
paletó e gravata estão bem arranjados, a calça bem cortada e bem dado o laço
nos sapatos. Tudo muito limpo; até os palavrões e obscenidades estão
alvejadamente limpos aqui. Mas essa prosa de
ver Deus agora não vai à missa, mas ao culto evangélico. O romance Perdição — e não há nada mais atual —
é a história de um cidadão que vira pastor e depois desvira. Em breve, vou
lê-lo de verdade. 16/12/2011. No momento em que
Satã Limava o fio do
forcado Pra virar chefe de
Estado Da velha Rússia
cristã, Os três pastores da
Iria, Jacinta, Francisco
e Lúcia, Escutaram de Maria: — Consagrem a mim a
Rússia! Mas ninguém a
consagrou. Os papas do
Vaticano Preferem entrar
pelo cano, Que desagradar
Moscou. 15/12/2011. O terapeuta
perguntou ao cliente: — Quais são os seus
pecados, meu filho? E o cliente, pouco
à vontade no confortável confessionário de couro: — Cometi fantasias
incríveis com a mulher do meu melhor amigo. Pratiquei dois atos falhos
bastante comprometedores. Tive um sonho edipiano com a bisavó que não
conheci. Matei um pernilongo com uma crueldade de oficial da Gestapo. Submeti
minha querida esposa a um interrogatório estalinista. — Está arrependido
dos seus pecados, meu filho? — Mais ou menos,
doutor. — Assim está ótimo.
Como penitência, leia cinco poemas politicamente corretos de alguma feminista
norte-americana e ouça o último CD do Caetano Veloso. 14/12/2011. Se o Purgatório já
começa aqui mesmo, as fábricas de motos têm contribuído bastante para
aperfeiçoá-lo. Falo desses trecos rápidos e barulhentos que todos podem
comprar, em troca de cem reais por mês. Mas essas multinacionais vão além:
querem servir a dois senhores. Quantos motoqueiros não são despachados por
dia, subitamente, de ponta cabeça, direto para os ínferos, sem tempo de se
arrepender de suas motoquices? Entre as coisas que tornam o Céu tão sedutor,
está a absoluta certeza de que Lá não haverá motos, motoqueiros, nem esses
executivos que as deixam tão acessíveis aos mais apressados. 13/12/2011. Curiosamente, os
velhos e melhores críticos literários não saíram dos cursos de letras. Eram
jornalistas, advogados, médicos... Com uma hora semanal de literatura nos
cursos de jornalismo, direito ou medicina, corremos o risco de ter de volta
os leitores mais inteligentes. Literatura não combina com especialização; é,
por natureza, refratária aos formalismos. O principal eixo de
um curso de letras tem de ser a literatura. Se você quiser matar a leitura
inteligente, então monte um curso de letras e ensine linguística em vez de
gramática, teoria literária em vez de literatura; dificulte o acesso à
literatura universal e às humanidades. Um currículo de curso de letras que
não se preocupe com filosofia, historia geral, historia das artes,
sociologia, psicologia, irá sempre, forçosamente, formar leitores mancos. De nada adiantam,
porém, as melhores disciplinas e a melhor grade curricular, se o Estado
continuar enviando para os cursos de letras os piores alunos do mundo, para
depois exibir altos números nas estatísticas oficiais. Mas a tragédia se
consuma, mesmo, quando os piores alunos do mundo se associam a professores
despreparados, intelectualmente preguiçosos, ideologicamente facciosos,
incapazes de compreender a verdadeira natureza da literatura — esse tipo de
“discurso” que, ao aproximar-se intuitivamente da realidade total, exige múltiplas vias de acesso para a sua
compreensão. 12/12/2011. N’O jardim das cerejeiras, de Tchecov,
não se fala em Deus, mas todos os personagens, sem exceção, são órfãos de
Deus, menores abandonados com caras de adultos. Toda a Rússia
pré-revolucionária está ali presente: o velho servo mergulhado no passado,
com saudade da servidão, sem saber o que fazer da própria liberdade; os
aristocratas decadentes, substituídos pelo burguês bem sucedido; e o
socialista que, vivendo mais no futuro do que no presente, declara-se
soberbamente acima do amor, numa profética antecipação do tipo de homem que
comandaria aquele miserável país durante o século XX. 11/12/2011. Minha geração, que
cresceu nos anos sessenta, aprendeu a “matar” o pai — do pai carnal ao Pai Eterno — e a render vassalagem aos
filhos. Ninguém podia estar acima de nós, exceto os que estavam justamente
abaixo... 10/12/2011. No ofertório da
velha missa latina, havia um momento em que os católicos pediam para pegar
uma carona no majestoso cântico de louvor a Deus que reboava na Altura — Sanctus,
Sanctus, Sanctus, Dominus Deus sabaoth. Pleni
sunt cæli et terra gloria tua. Hosanna in excelsis. Benedictus qui venit in
nomine Domini. Hosanna in excelsis. Santo, Santo, Santo, Senhor Deus do universo! O
Céu e a Terra proclamam a vossa glória! Hosana nas alturas! —, saído da boca pura dos Anjos, da garganta (essa, sim,
verdadeiramente profunda) das Dominações, Potestades e Virtudes. Quando a cerimônia
era de fato cantada, no mínimo um órgão, em geral desafinado, acompanhava o
coro simples dos fiéis. E, desde a cidade mais perdida no mapa até a mais
rica metrópole do litoral, Deus tinha o que merecia: a melhor música de que
era capaz a espécie humana, destilada em dois mil anos de silêncios monacais.
A única que podia pedir licença para acompanhar, com humildade, o coro
angélico que enchia os espaços infinitos do sabaoth. Era a época da
“roupa de ver Deus”. O pobre botava o seu melhor paletó, a mulher do pobre o
seu melhor vestido, e, banho tomado, em jejum, devidamente confessados e
perdoados, iam para a missa comungar e ouvir aqueles belos poemas sacros,
escritos nos primeiros séculos dos cristianismo, numa língua que não
entendiam, mas respeitavam como sendo a língua exclusiva de Deus. Hoje, continuamos a
pedir carona no grande cântico de louvor a Deus que ribomba no Céu. Mas, com
a maior cara de pau, entramos no coro celeste com a toadinha mais vagabunda
da paróquia, acompanhada pelos acordes pops de um violão até simpático, mas
completamente deslocado, com melodias mais apropriadas para dores de cotovelo
ou sacanagens de motel. Se o velho
Tertuliano, o “sermonista” furioso de Cartago, presenciasse um troço desses,
não tenho dúvida: respondia na bala! 09/12/2011. Um colega me
contou, não faz muito tempo, uma piada sobre o nosso pobre mundinho
acadêmico. Deus, depois que criou a universidade, com suas salas de aula,
laboratórios, bibliotecas, departamentos, etc., foi vivamente aplaudido pelo
público angélico do Céu, que deu glórias ao Altíssimo. Mas Ele, que adora
uma adversativa, logo tratou de avisar os anjos: — Porém nem tudo
será tão maravilhoso ali. Infelizmente, vou ser obrigado a criar o colega de
departamento... Não é, seguramente,
a piada mais engraçada do mundo. Mas o assunto é sério: nunca, antes, o
colega de departamento acadêmico foi algo tão problemático como hoje. A
relação que mantém com outros do mesmo ofício é sobretudo burocrática,
encontrando-se em longas e tediosas reuniões para divergir ou concordar a
respeito da administração do campus. Debate de ideias é a última coisa que
lhes passa pela cabeça, mesmo porque, no essencial, pensam muito parecido. Colegas de
departamento, em vez de espinhos na cabeça, como Cristo, os possuem na
língua, agindo de preferência nas costas do adversário, como aliás todos os
colegas do mundo, sejam departamentais ou não, do serviço público ou privado,
mais pobres ou menos pobres. O que é um colega,
senão a pessoa com quem, embora não sendo da família, somos obrigados a
passar uma parte considerável da nossa vida, quando não a maior parte? Alguns
deles podem até virar amigos, quando se satisfazem os critérios misteriosos
da amizade, mas, fora disso, em geral permanecem sempre colegas, odiando-se
ou tolerando-se. De companheiro de
estudos a conviventes da mesma profissão, o arco da abrangência da
“coleguice” (ou “colegagem”, como queiram os mais pessimistas) é muito amplo,
passando pelos partidos políticos, que já chamaram os colegas hipocritamente
de camaradas ou companheiros, até as religiões, que preferem, quando cristãs,
rebatizá-los de irmãos, antecipando a terminologia que prevalecerá na Altura. Consola-nos saber
que lá longe, se merecermos o Céu, não haverá essa coisa humana, asperamente
humana, chamada colega. Seremos seletivamente, elitisticamente, todos irmãos
— não importa que tenhamos sido, aqui embaixo, pedreiros de mãos calosas ou
professores da voz educada. 08/12/2011. Se esta merda de
vida Não for uma tensão
constante Entre o eterno e o
instante, Não vale a pena ser
vivida. 07/12/2011. Hoje todos falamos
mal do politicamente correto, inclusive na universidade, seu centro gerador,
mas não dá para esquecer que quem abriu caminho para melhor enxergar a
imbecilidade da coisa, quase solitariamente, foi o filósofo Olavo de
Carvalho, no início dos anos 90. Lembro do colega
que, em 1992 ou 93, apareceu com um recorte da Folha (quando ainda deixavam o Olavo escrever lá), sintetizando
por escrito tudo o que ele e eu já começávamos a murmurar pelos corredores da
Unesp, mas ainda sem coragem de enfrentar o establishment acadêmico com
aquelas ideias na contramão. O imbecil coletivo, primeiro
livro de projeção do filósofo, vai ficar na história da cultura brasileira
como marco decisivo da inteligência, toque de alarme para acordar o país já à
beira do buraco. Mas o país não ouviu e mergulhou — fundo, fundo, fundo — na
merda. 06/12/2011. A universidade
pública, setor humanidades, não diminui o número de vagas, nem aumenta a nota
de corte do vestibular. Por isso, continuam entrando nos cursos aqueles
alunos despreparados para estudar letras, história, ciências sociais,
psicologia, filosofia. Nós, professores que discordamos dessa política
“democrática” de abertura total das porteiras, só temos duas alternativas:
reprovar quem não conseguir estudar para a prova (e aí serão oitenta, noventa
por cento de bombas, além dos mil problemas que uma reprovação em massa pode
gerar); ou usar essa imensa manada, totalmente perdida nos campus, para
iniciá-la no bê-á-bá das discretas ideologias revolucionárias — é o que
acostuma acontecer com mais frequência — ou da vida moral, da qual chegam
completamente analfabetos. Embora não seja o
melhor exemplo moral para ninguém, optei por essa última alternativa, pois
não creio em ideologias. Uso a
literatura como uma espécie de capa protetora para deixar entrar outros
assuntos na sala de aula, o que não precisaria ocorrer se os alunos já
chegassem mais forrados intelectualmente do ensino médio, com alguma noção da
história e da geografia do mundo, algum domínio da escrita e da leitura, e os
princípios morais básicos, aqueles que vêm do decálogo mosaico e sem os quais
a convivência na sala de aula (e nas outras salas da vida) é simplesmente
impossível. Eu não tenho dúvida
alguma de que essa facilidade de ingresso na universidade é parte da
estratégia, combinada por gente lá de cima — por exemplo, entre reitores e
secretários de educação que servem ao mesmo partido —, para dominar
totalitariamente o sistema educacional: meu aluno de letras, daqui a quatro
anos, sairá certamente despreparado para ensinar literatura ou gramática, mas
altamente disponível para as políticas de manipulação de professores, da qual
ele será vítima fatal na rede pública de ensino. É desse jogo que
estamos participando... Se ajudar a salvar do frenesi modernista e
revolucionário uma única alma por sala de aula, já estou realizado. 22/11/2011. As palavras perdidas. Como imbecil que
unicamente fuma Pra acompanhar no
tédio a fumarada, Tentei um dia a
hipótese do Nada Só pra poder
segui-la a parte alguma. Quando voltei, a
Casa estava acesa E as coisas no
mesmíssimo lugar: O Pai, os meus
irmãos, a farta mesa E as palavras que
já não sei usar. Que não mereço mais
usar... 21/11/2011. Se o agnóstico
considera riscos tanto a crença como a descrença em Deus, e por isso
abstém-se da escolha definitiva, deve admitir que o maior risco ainda é a
segunda atitude, pois inclui a possibilidade de vir a ranger os dentes no
Inferno, contra a pura e simples libertação da matéria pela extinção da alma. “E saudava a
matéria que passava, liberta para sempre da alma extinta”, diz o verso
herético do católico Manuel Bandeira (pois é assim, como católico, que o
velho Bandeira deve ser visto; quem duvidar que folheie, mesmo
displicentemente, o Estrela da vida
inteira). O conselho
hamletiano parece mais prudente, no famoso monólogo, ao desaconselhar o
suicídio, já que nenhum viajante do País da Morte teria voltado para dizer o
que haveria por lá. O príncipe da Dinamarca estava tão desesperado, que se
esqueceu do fantasma do rei, seu pai, que tinha sim voltado do País da Morte,
muito provavelmente do setor infernal, para pedir vingança ao filho e para lá
arrastá-lo, junto com Ofélia, a que não quis virar mãe de pecadores. 20/11/2011. Quatro décadas sem
Lei, Sem sombra de Deus
por perto, Como os hebreus eu
passei Quarenta anos no
deserto. 19/11/2011. Queixa sabática da
jovem aluna mais mergulhada no mundo que nos livros: — A semana passou
tão depressa, que nem vi crescer as unhas! E então o sábado
será todo dedicado a cuidar das unhas, que à noite irão brilhar como os
olhos. Vai obviamente transar com o namorado, torcendo para não engravidar.
Muitas alunas engravidam, deixam o curso, tentam ou não o aborto. Que página
de livro sério poderia competir com tanto orgasmo? 18/11/2011. Na volta de
Ribeirão Preto, vejo as máquinas do Estado preparando o terreno para mais uma
cadeia brasileira, e, segundo fui informado por uma prima inconsolável que
tem sítio ali perto, será de regime semiaberto. Se a política revolucionária,
mesmo a que se disfarça de reformista, é essencialmente delinquente, o
bandido deve ser visto, por ela, como um discreto aliado. Não convém
maltratá-lo. Cadeia de regime semiaberto
é expressão desse carinho especial pelos fora-da-lei, para os quais a
punição, principal função do presídio, não passa de um subitem num pacote que
inclui a reintegração social dos presos, o cuidado com seu bem-estar, sua
educação e profissionalização, acesso mais fácil a assistência jurídica,
psicológica, social, médica, odontológica, religiosa e material — tudo isso
muito louvável e desejável, não fosse a repetidíssima lengalenga de que a
delinquência é produto da exploração de classes e o Estado deve compensá-la
com um zelo que não dispensaria à população honesta. 17/11/2011. Eco, a ninfa grega,
é a “santa padroeira” da universidade atual, condenada a repetir o que ouve. 16/11/2011. Talentoso, Ingmar
Bergman sempre foi. É suficiente, porém, para construir uma obra definitiva?
Maniqueísta, luterano sem Deus que nunca se livrou da peste da predestinação,
refugiava-se no sexo quando sentia medo da morte. A única vez em que o seu
cinema pareceu respirar um pouco de ar puro, foi quando filmou A flauta mágica, de Mozart. 15/11/2011. Matéria da revista Veja sobre a Rússia. Nada de novo no
front. Continua muito mais fascinante a tese do Olavo de Carvalho, de que o
comunismo foi só uma das faces de um monstro bem maior, que vem crescendo
desde a Renascença quinhentista. É a vocação totalitária da modernidade. 14/11/2011. Há, nalgumas
iluminuras medievais, representações de macacos inteligentes, lendo como os
professores universitários de antigamente. Acreditavam, porém, que a proeza
era obra do Divino Espírito Santo e não do naturalista Charles Darwin. 13/11/2011. Comprou uma tevê de
sessenta polegadas e óculos para ver as imagens tridimensionais. — E aí? — perguntou o amigo. — E aí que estou
gostando mais dela que da minha mulher. 11/11/2011. O Deus do Gênesis mandou a humanidade crescer e
multiplicar-se. O Deus do espiritismo, ao contrário, é o primeiro malthusiano
da história, adepto da anorexia demográfica. O reencarnacionismo seria só uma
questão de troca de roupa, num eterno baile de máscaras. Iríamos, pelo tempo
afora, colecionando heterônimos. E, enquanto os orientais procuram se livrar
do sadismo reencarnacionista, ocidentais idiotas sonham fervorosamente com
ele. 10/11/2011. Não há melhor
representação de certos padres de hoje, do que a Predicação do Anticristo, de Signoreli. É um afresco da catedral
de Orvieto. Nele, o falso Cristo é abraçado por um demônio, e a perfeita
aliança da dupla se expressa num detalhe terrível do quadro: o braço esquerdo
é o mesmo para os dois. Michael D. O’Brien, o escritor canadense que também é
pintor, usa-o muito bem em seu romance Padre
Elias. 07/11/2011. O jeitinho não é invenção brasileira. É da espécie humana. O Brasil só
aperfeiçoou a coisa. 04/11/2011. Se, como já foi dito,
as riquezas que as pessoas jogam fora, neste mundo, são a poupança que vão
fazendo para a outra vida, São Francisco de Assis é hoje uma das maiores
fortunas do Céu. George Soros, ao contrário, vai ser um pobre mendigo de água
fresca, eternamente rangendo os dentes. 03/11/2011. Teólogos
moderninhos querem que a outra vida funcione como a escola pública
brasileira, aprovando irrestritamente. Querem no Céu a progressão automática.
Ninguém mais ficaria de recuperação, ou, como se dizia em minha época, de
segunda época. Ninguém mais com zero, ninguém mais levando bomba. Nesse Céu
multicultural, multimoral, multitudo, todos se sentariam à direita do Pai:
São Francisco de Assis, o Fernandinho Beira-mar, a Xuxa, o lulu da madame e
até o vasinho de flor do ambientalista.
02/11/2011. Um dos casamentos
mais estáveis do mundo é o da aparência com a essência. Um não vive sem o
outro. 01/11/2011. Uma das melodias
mais belas do Vila-Lobos não é dele, mas do compositor popular Anacleto
Medeiros: o “Rasga coração”, do Choro
nº 10. Mas se comparamos o seu arranjo da canção para orquestra e grande
coro, com a interpretação que lhe deu o Vicente Celestino (v. no Youtube),
concordaremos sem muito esforço que o principal compositor dessa peça, aquele
que a fará entrar no céu da música, não é o criador inicial da melodia, por
mais talentoso que fosse, mas quem soube vesti-la com o manto da música
eterna. 29/10/2011. O cidadão tem todo
o direito de acreditar que Deus não existe. Estupidez, mesmo, é o
fundamentalismo ateu, tão nocivo quanto o das outras religiões. 28/10/2011. Hoje em dia, não é
preciso ter nenhum talento especial para escrever artigos acadêmicos sobre
literatura. Basta boa capacidade mimética, virtude que partilhamos com nossos
amiguinhos irracionais da selva: o graduando que imita o mestre, que imita o
doutor, que imita o livre-docente, que imita o titular, que imita o ilustre
PHD visitante etc., como na quadrilha do poeta. Salvas as honrosas
exceções, o lixo que a academia produz, nas humanidades, está tão abaixo do
nível mínimo, que nem pode entrar na categoria do reciclável. Não tem
salvação. Vai ficar como mais um terrível testemunho do que nossa época
conseguiu fazer com o espírito humano: transformar a sua própria e grotesca
caricatura em substitutiva do original, e ainda sentir-se feliz por haver
“democratizado” o acesso ao conhecimento e à “produção de conhecimento”
(palavras que visitam a todo instante os documentos que recebemos para longas
reuniões sobre coisíssima nenhuma). Ora, isso nem é democracia,
nem legítima produção de conhecimento, mas — para ficar com aquela imagem — a
caricatura ora involuntária, ora intencional, dessas coisas que já foram
respeitáveis. O pior é que, de caricatura em caricatura, a única proeza que a
universidade brasileira consegue é habilitar-se para algum torneio mundial de
circos. 27/10/2011. Para evitar o
“grande assalto do Demônio”, só há uma saída: reforçar nossa guarda costeira
com tropa de elite. 26/10/2011. Somos todos farinha
do mesmo saco. Todos, todos, todos — à exceção dos santos e os gênios, que
são feitos com farinha de trigo raro, refinada pelas próprias mãos do criador
do mundo. Isso não significa que todo gênio seja um santo, ou vice-versa.
Pior para os gênios; tanto faz para os santos. 25/10/2011. Meu avô italiano e meu avô mineiro no
Céu. Fico pensando o que
vovô Zezé Conversaria com
vovô Segundo Sobre esse neto
que, no chão do mundo, Criou vergonha e
retomou a fé. Pois certamente
eles se encontram Lá, Nalgum lugar muito
melhor que aqui: Dando risadas vô
Zezé estará, Vô Segundo no
máximo sorri. Sem truques sujos,
sem abracadabra, Sem concessões de
tribunal secreto, Estão torcendo pra
que um dia se abra A porta de São
Pedro para o neto (Meus dois avôs
que, embora corintianos, Eram cristãos,
católicos, marianos). 24/10/2011. É urgente salvar a
“enciclopédia” escondida sob a confusão babélica da “wikipédia”. Não há como
disfarçar: há coisas boas nesta, e muitas vezes duram pouco tempo, pois
filhos da puta de plantão logo tratam de destruí-las. Os verbetes sérios
deviam migrar para outro lugar, longe da escravidão desse Egito de todos e de
ninguém que é a internet, rumando para a terra prometida do conhecimento
honesto. Cada um pode fazer um pouco disto: quando você topar com um verbete sério,
selecione, copie e salve, salve! 23/10/2011. Um poeta que sai à
procura dos defeitos de Deus, nos dá todo o direito de procurar os seus
próprios defeitos. É o caso do poeta Manuel de Barros, badaladíssimo nos
meios acadêmicos. Manoel de Barros
começou, na juventude, negando a ordem burguesa, para terminar mais tarde,
depois do desencanto com o Partido Comunista, negando a própria ordem da
realidade, através de uma arte que é, por excelência, criadora de realidades:
a poesia. Segundo ele, “há
várias maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.” Ou
seja, a poesia é o veículo mais autorizado para dizer coisas sérias sobre...
nada. Talvez esteja aqui a chave para descobrir o encanto que os seus textos
provocam em alunos e professores de literatura: a profunda sedução que, em
nossa época, tem exercido o Nada e a negação. Ninguém pode
duvidar de sua habilidade verbal, apesar de nenhum domínio sobre a
versificação tradicional (que era, também, a limitação do grande poeta
católico, embora herético, Murilo Mendes). Manoel de Barros conseguiu
traduzir em linguagem poética o clima mental da nossa época, muitas vezes com
imagens interessantes e até divertidas. Por isso, o adoram os simpatizantes
dos desconstrucionismos, dos relativismos, dos multiculturalismos de toda a
espécie. Sua defesa do ócio
como condição da arte, e da arte como fim em si mesmo, é radicalizada ao
ponto de transformar a poesia em expressão da mais convicta anulação da
realidade. Não se trata da usual superação da realidade aparente, em nome da
intuição de uma supra-realidade organizada poeticamente. Esse poeta pulveriza
as coisas, com o único objetivo de botar em seu lugar alguns trocadilhos
interessantes. É um Mallarmé populista, sem a refinada arte fin-de-siècle do grande niilista
francês. Cada século tem o fim de século que merece. No caso do nosso
Manoel, o que parecia ser uma poesia sobre coisa nenhuma, era na verdade a
demonstração mais enfática de uma tese: a de que este mundo não serve para
nada, ou, no seu dialeto, serve exatamente para brincar de Nada. Essa poesia
da coisa nenhuma encerra em si, claramente, uma poética do niilismo; é um
esforço aparentemente lúdico, mas no fundo altamente comprometido com os
valores mais negativistas da nossa época, visando esvaziar de sentido as
palavras da tribo e as velhas coisas do mundo, aquelas mesmas que Javé,
depois de criá-las, viu que eram boas. O poeta de Mato-Grosso deixou o
Partidão para transformar-se num revolucionário ainda mais radical. O que atrapalha a poesia
de Manoel de Barros é essa pregação niilista, que acaba obstruindo a maior
parte dos seus livros, como um “entulho” escondendo o que, nos textos, podia
ser mágica revelação da realidade. O pouco que sobra é verdadeira poesia,
jeito diferente de dizer as mesmas coisas que já sabíamos por outras
maneiras, ou não sabíamos de modo algum. A realidade, e não
o Nada, é o que aparece em sua obras; a muito custo, mas aparece. Apesar de
Manoel de Barros. 22/10/2011. A maior homenagem
de Deus à nossa espécie foi haver tomado a forma humana — e nela ter sofrido
até a morte. Isso prova que o poderoso chefão do universo — do universo, do
pré-universo, do pós-universo — é de uma humildade desconcertante. Capaz de
ser tudo o que É, e, ainda assim, viajar por trinta e três anos nas terras
áridas da Judéia, montado num corpo humilde de nazareno; corpo que,
transfigurado, ainda o acompanha e o acompanhará para sempre. O físico Steven
Weinberg, que sabe fazer contas, mas pensa como um micróbio dos primeiros
tempos, termina seu livro Os três
minutos iniciais, lamentando que a prodigiosa obra do Universo venha a
acabar-se, um dia. Para que foi feita, então? Ora, entre outras coisas, para
dar uma forma humana a Deus, que em sua carteira de identidade celeste levará
eternamente inscrito o nome de Jesus Cristo, que um dia foi pescador, e até
judeu... Tantos bilhões de anos foram poucos para um gesto de tamanha
humildade do Criador. 21/10/2011. Conversinha legal. — Baixar livro do 4shared é crime? — Crime é não ler. 20/10/2011. A primeira coisa
que eu faria, se fosse o Capeta, era virar telenovelista da Globo. Aí o resto
ficaria bem mais fácil. 19/10/2011. Utopia. Ó saudade do
passado! Ó lágrimas de
Epicuro! Ó mundinho já
desfeito, Feito pra ser
derrubado! Que coisa mais
doentia... Só saudade do
Futuro — Futuro
mais-que-perfeito — É coisa humana e
sadia. 18/10/2011. Ao ateu falta,
sobretudo, sutileza. Quer que Deus lhe apareça cara a cara, dizendo: — Olha aqui,
cretino. Eu existo. Satisfeito agora? Como Deus prefere as
entrelinhas — Deus e os melhores poetas —, o ateu sai por aí dizendo que Ele
não existe. Os ateus não mereceram a graça da verdadeira poesia. 17/10/2011. Está em Lucas, I,
26. Uma só e única vez, na história do Universo, algo de acidentalmente
material uniu-se a algo substancialmente divino: foi depois que Maria,
aceitando ser “escrava do Senhor”, a
Ele entregou o corpo virgem e a semente do Criador começou a crescer em seu
ventre judaico. — Aconteça comigo o que diz a tua palavra
— disse ela ao anjo Gabriel. — Mas como
será isso, se nunca me deitei com homem? — O Espírito Santo descerá sobre ti, e a
virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. 16/10/2011. Conceição. Somente uma vez, No universo
inteiro, O Verbo se fez Carne (e de
cordeiro). Foi quando Maria, De graça banhada, Bem-aventurada Pelo Criador, Humilde aceitava Ser a doce escrava Do divino amor. E, cheia de graça, Disse a Gabriel: — Pois em mim se
faça O que manda o céu! E a dona mais rara, Que não se deitara Com homem nenhum, Humilde entregou Seu corpo ao
Senhor, Nosso Pai comum: O Espírito Santo, Cerrando a cortina,
Cobriu-a c’o manto Da sombra divina. E a piedosa, a doce Esposa da luz, Castamente trouxe No ventre Jesus, Cujo sangue veio Daquela Maria Que lhe dera o seio Como a qualquer
cria. E aqueles que temem Quem venceu a cruz, Sabem que Jesus Não nasceu de
sêmen, Mas da sombra santa Que, ao cobrir
Maria Com divina manta, De luz a
envolvia... 15/10/2011. As palavras do Latim,
tendo descansado por tanto tempo da voz e das porcarias humanas, foram
lentamente se purificando — como as gotas que, na talha fresca, pingam do
filtro sem nenhuma pressa, uma de cada vez; e hoje, mais que nunca, com o
português completamente bostificado por esse Brasil que está aí, imerso nas
drogas, na violência, na sodomia arrogante, na imbecilidade feliz, a língua
latina é a mais adequada para matar a sede de Deus. 14/10/2011. O Papa é um maestro
que deve garantir a unidade da orquestra católica, em meio à diversidade
maluquíssima da Igreja real: violinos colidindo com violas, cellos com
baixos, madeiras com metais, tímpanos com caixas. Já desafinou bem menos, a
sala de concerto vai esvaziando cada vez mais — o público prefere o show de
rock ou de breganejo. 13/10/2011. Profissão de fé. Não quero a fé dos
sábios, cheia De pontos de
interrogação. Eu quero a fé que
pastoreia Ovelhas de bom
coração; A fé descalça do
meu primo João Paca, humilde
camponês, Que rimava bem mais
que eu rimo Na sua Folia de
Reis; A fé da minha
bisavó Cesira, que deixou
os ermos Tristes e frios do
rio Pó, Para entre nós
curar enfermos; A fé do bisavô
Theodoro Que decorava
histórias sacras Para contá-las no
auditório De pau-a-pique, ao
som das vacas; A ardente fé da tia
Dita Que caminhava sem
lesão (Quanta gente não
acredita!) Sobre fogueiras de
São João. 12/10/2011. O acontecimento do
dia, sem sombra de dúvida, é o sermão que proferiu —
ou melhor, que expectorou — o padre
Paulo Ricardo de Azevedo Jr. sobre a vergonha de ser brasileiro, intitulado
“Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Imperatriz do Brasil”. Imperdível,
como dizia o velho Francis. 11/10/2011. Quando dizem que a
Igreja Católica anda mais perdida que cego sem cachorro, não é para duvidar. Um bom exemplo,
nesta véspera do dia de Nossa Senhora, é o da editora católica Santuário, de
Aparecida do Norte, que publicou em 1997 um Dicionário de Jesus e dos Evangelhos, do jornalista, romancista e
historiador espanhol César Vidal, “un hombre de derechas”, porém de fé
protestante. É um intelectual respeitável: tem ajudado a desmistificar a
República esquerdista que provocou a guerra civil, é crítico implacável do
relativismo moderno e de todos os totalitarismos do século XX. Parece inconcebível
haver um cristão espanhol que não seja católico, mas é verdade. Vidal, em
1993, já tinha publicado um livro, El
mito de María, em que tentou mostrar como Nossa Senhora não passaria de
uma fraude da Igreja, uma imperdoável heresia. E o verbete sobre mãe de
Jesus, no dicionário publicado pela editora católica, é quase uma síntese de El mito de María, ou seja, um bom
pedaço de mau caminho para destruir a fé em Nossa Senhora Aparecida — um tiro
perfeito no próprio pé, para usar uma metáfora corrente. O escritor espanhol
vai levar um belo puxão de orelhas da Virgem Santíssima, quando apertar o
interfone da portaria de São Pedro. No verbete, Vidal
refere-se a Mateus e Lucas, que “apresentam-na como mãe virgem de Jesus, que
engravidou antes de contrair matrimônio, mas já comprometida com José. Essa
circunstância específica — a de sua maternidade messiânica — converte-a numa
pessoa cuja bem-aventurança será contada pelas gerações futuras e sobre quem
a graça de Deus manifestou-se de uma maneira absolutamente especial”. Aceita a Natividade
como cumprimento da antiga profecia messiânica de Isaías, não discute a
virgindade da Mãe de Deus, elogia o Magnificat
que resultou do seu encontro com a parenta Isabel, mãe de João Batista, mas
sua intervenção nas bodas de Caná, avisando o Filho da falta do vinho, é
vista como interferência indevida no ministério de Cristo, repetida mais
tarde quando Ele, cercado pela multidão, recusou-se a receber a Mãe e os
“irmãos” que, já temendo por Sua vida, queriam dissuadi-Lo da missão. Não
esquece a cena ao pé da cruz, “profundamente comovedora”, mas observa que não
há nenhuma referência a aparições de Cristo ressuscitado à própria Mãe. “Nada mais sabemos
de sua vida posterior”, diz o dicionarista, “e o mais possível — se aceitamos
alguns restos arqueológicos do século I — é que foi sepultada em Jerusalém,
tendo seu túmulo sido profanado no início do século II”. Para ele, "a
história de sua estada em Éfeso, acompanhando João, o filho de Zebedeu,
carece realmente de base histórica”. E foi “essa falta de dados históricos
sobre Maria, sua família, sua vida anterior e posterior ao ministério de
Jesus” que, segundo o protestante Vidal, “foi suprida pelo surgimento de
lendas piedosas que teriam uma enorme influência na arte e no pensamento
posteriores — principalmente durante a Idade Média —, mas cuja autenticidade
histórica é extremamente duvidosa”. É certo que rebate
algumas acusações torpes de rabinos judeus no Talmud (munição de primeira para adolescentes modernos que
precisam experimentar iconoclastia), que a viam como “adúltera e de ter tido
Jesus como fruto das relações sexuais mantidas com um soldado estrangeiro
chamado Pantera ou Pandera”, e que teriam surgido nos primeiros séculos do
cristianismo, no contexto da disputa teológica judeus versus cristãos. Não deixa, porém,
de referir-se ao “aspecto idolátrico” que “os cristãos tributavam a Maria”.
Não parece, no mínimo, jocoso, que a editora de Nossa Senhora Aparecida
publique uma obra que negue a sua santidade? 04/10/2011. Se, um dia,
decidir-se fazer um monumento ao passado da espécie humana, bastará gravar
nele uma única inscrição: “Somos anões erguidos em ombros de gigantes”
(Bernard de Chartres, século XII). E os ombros dos gigantes estarão cada vez
mais à mostra com a internet, que é, sobretudo, uma grande biblioteca — a
maior de todas —, equipada de um setor que não havia nas outras: o de compra
e venda. A principal mídia
da modernidade vai revelando, lentamente, com ampla visibilidade, tudo o que
antes se ocultava nos museus de todo tipo. Agora seremos todos eruditos, de
preferência em bobagens, mas não obrigatoriamente: quem já tinha apetite de
conhecimento, vai poder fartar-se com a nova boca-livre digital, e os
eruditos de coisas sérias serão mais eruditos do que nunca, enquanto os
fofoqueiros de sempre atingirão a plenitude do mexerico e da vacuidade. Os dados (nos dois
sentidos: da fortuna e da eletrônica) estão lançados. O futuro vai dizer que
bode vai dar. Enquanto não chega o bode, as informações, falsas ou
verdadeiras, estarão disponíveis a todos nós; se depender delas, e da nossa
honestidade, a verdade terá a vitrina mais iluminada do mundo e poderá
alimentar as ações humanas com combustível de primeira, não adulterado. Difícil, mesmo, é
ter olhos de ver e ouvidos de ouvir o corpo fluido de dona Verdade. Os tempos
modernos simplificaram o dilema criando o relativismo, ou seja, a
possibilidade de dois adversários estarem ambos corretíssimos em sua
divergência pseudo-conceitual sobre o mesmo assunto. E, em vez de
procurar-se, cada qual em seu bairro, o que está na origem de tanta
dissensão, ficou combinado, com a maior cara de pau, que pode haver duas
verdades para a mesma coisa ou o mesmo fato. 03/10/2011. Filme sobre Hugh
Hefner, o dono da Playboy, não tem sacanagem! Mais uma produção do gênero
fantástico. 02/10/2011. A ideia cristã já
nasceu perfeita, porque pensada por Deus e desenvolvida pelos melhores
homens. Tão perfeita que não aceita dialética: toda antítese que se aproxima,
desaparece como um cisco, imediatamente, na combustão do pensamento divino. Alguns filhos da
puta tentaram empanar o seu brilho — sempre os houve na Igreja romana —, mas
mesmo agora, neste estágio mais pagão do que cristão da civilização
ocidental, ela ainda brilha como a estrela que sempre foi. O brilho não é tão
intenso como na Idade Média, pois a névoa do mundo é espessa e outra luz
procura substituí-la, luz megalomaníaca de lamparina vagabunda, acesa com os óleos
poluentes do Iluminismo. Luz de
estrela-guia. Estrela de luz própria e inextinguível. Que vai brilhar para
sempre, pois já funcionava antes deste mundo e de qualquer outro mundo
possível. 01/10/2011. No prefácio do seu
recente Usos do pessimismo, Roger
Scruton (que a Veja entrevistou há
poucas semanas) faz uma lista grande de tudo o que, a partir do século XIX,
deixava-se aparentemente guiar pelo espírito científico, mas que, na verdade,
continuava a apoiar-se em crendices mal disfarçadas: os extermínios
soviéticos fundamentados na pseudociência marxista, as doutrinas racistas
disfarçadas de tosca eugenia científica, a revolução cultural chinesa baseada
em falsas leis históricas, até chegar às mais recentes tapeações, como a
promessa de milhões de mortos com a doença da vaca louca, o blecaute dos
computadores na virada do milênio, a presença nociva de chumbo no petróleo, o
perigo do fumo passivo. Sem falar da mais apocalíptica de todas, o
aquecimento global, que agia com o fermento do pânico e transformou em herói
da civilização um tipo como Al Gore. Tudo isso era
sempre apresentado como coisa científica, sem margem para contestação.
Driblavam-se as “evidências e os argumentos para favorecer uma conclusão
pré-estabelecida, aceita porque fornecia direção e força ao movimento de
massa dos justos, que se juntavam para expulsar os demônios de nossas vidas.”
Quem se atrevia a duvidar, era logo transformado em bode expiatório e saía de
circulação da mídia politicamente correta. Quando essa espécie
de pânico termina, conclui Scruton, “a multidão se dispersa, sem haver
conseguido alívio ou conhecimento; a única coisa que obtém é uma disposição
ideal para voltar a alarmar-se.” 27/09/2011. Para o jesuíta
espanhol Manuel Carreira, das três modalidades de conhecimento que temos à
disposição — o raciocínio, a experiência e a crença no que ouvimos — 99,9 %
de tudo o que sabemos provêm desta última. Com o diz-que-diz eletrônico das
últimas duas décadas de internet, o volume de material oferecido a crença
humana aumentou gigantescamente, e não é difícil concluir que estamos, cada
vez mais, condenados à credulidade, sem a menor chance de averiguar além de
uma pequena parte do que chega até nós. É preciso aprender
a acreditar corretamente... 26/09/2011. As brincadeiras do Tempo. O velho Tempo está
brincando Com as árvores do
quintal. Disfarça-se de
vento brando, Mas logo empunha o
vendaval E ceifa a rosa com
sua foice, Gratuitamente, sem
razão. Quéde a rosa?
Transfigurou-se Em quinze pétalas
no chão. 25/09/2011. Se a ciência é uma
operação que visa o aspecto mensurável das coisas, há coisas na literatura
que podem ser quantificadas — o aspecto mais propriamente linguístico das
obras — e outras que não. Como entre essas últimas é que se encontra o mais
importante, digamos a “alma” dos textos, então é forçoso admitir que nada de
científico é possível afirmar sobre o que realmente vale a pena, a respeito
das grandes obras literárias. O que é que
determina o nosso gosto literário? Em que medida o gosto influi no julgamento,
ou as ideias são condicionadas pelo gosto? Quais os fatores que influenciam
nossas escolhas literárias e artísticas? Os signos do Zodíaco? Os deuses do
Olimpo? Ser rico ou pobre, empregado ou patrão? As relações infantis do
leitor com sua mãe ou com seu pai? Uma região
importante do país da filosofia — a estética — tem-se preocupado com essas
perguntas, além da psicologia e da sociologia. Enquanto essa gente teimosa
tenta organizar respostas válidas ou inválidas à questão, continuaremos a
mudar nosso gosto, nossa opinião, nosso julgamento, espantando-nos muito
mais, no entanto, com as alterações no comportamento estético dos outros do
que em nós mesmos. Depois das últimas
décadas, com o surgimento de metodologias críticas destinadas a expulsar o
palpite do julgamento literário, sobretudo as apoiadas nas ciências da
linguagem (como se para a criação literária bastassem palavras), o estudioso
de literatura não tem mais o direito de opinar livremente sobre as obras e os
autores, de equivocar-se no juízo estético, de quebrar amanhã o ídolo de
ontem. O crítico formado na universidade transformou-se, definitivamente,
naquele chato-boy a que se referia Oswald de Andrade, pensando em Antônio
Cândido e congêneres. 24/09/2011. Versos homofóbicos. Em qualquer hora do
tempo, Em qualquer ponto
do chão, Pode reiniciar-se a
festa Divina da criação: Basta um corpo Em terno abraço Outro corpo Convidar Para com ele ocupar O mesmo lugar no
espaço. Conditio sine qua non, Não são dois corpos
quaisquer: O mais forte será
um homem; E o mais perfeito, mulher. 23/09/2011. Era uma vez, há muito tempo, quando a maioria das pessoas era
religiosa e ia à missa, deixei de frequentá-la. Era aquela irresistível
sedução adolescente, no fim dos anos sessenta, de pertencer a minorias.
Depois, passados tantos anos, vi que a maioria religiosa tinha razão e
decidi, outra vez, fazer parte dela: subi a escadaria da fé e voltei à
Igreja, mas, para minha surpresa, a capela estava quase deserta — a velha
maioria tornara-se religiosamente indiferente. E então, mas agora contra a
minha vontade, continuei fazendo parte da minoria... 22/09/2011. Nos setent’anos do último jesuíta (Ao prof. Carlos Fantinati) Não vou falar da dívida, aqui, Nos últimos trinta anos contraída (Débito não de letras, mas de vida, Que, nas horas mais francas, contraí). Quero falar de crédito e de fé, Das mãos abertas para tanta gente, Recebendo-me generosamente, E eu vindo de tão longe... um zé-mané... Quero falar é da afeição imensa Que você teve, sempre, pela diferença, Na contramão dos falsos pedagogos. Quero falar de ler, dessa
franqueza Que respeitava a nossa natureza No que ela tinha de mais nobre: o logos. 18/09/2011. A esquerda só é
dialética até chegar ao poder. Depois é ferozmente monológica. 17/09/2011. O Globo Repórter de
ontem foi sobre as “experiências de quase morte”, EQM para os mais chegados.
São todos brasileiros os entrevistados, vítimas de “quase morte” reanimadas
nas UTI ou que, de algum modo, retornaram ao nosso mundo de aquém túmulo. Segundo estudos do
psiquiatra americano Raymond Moody (que, também professor de filosofia grega,
andou depois interessado em metempsicose) e da psiquiatra suíça Elizabeth
Kubler-Ross, a maioria dos que retornaram, entre os que se lembravam da
viagem, voltou com boa impressão do lado de Lá; só um pequeno número não foi
bem recebido, certamente os que logo iriam ajudar a cantar a famosa peça
coral para choro e ranger de dentes. O documentário global respeitou,
portanto, essa proporção no número das entrevistas mostradas. Surpreendentemente,
no momento de exibir o ponto de vista dos cientistas, foi dado pouco destaque
para os céticos, para os quais aquelas visões não passam de delírios. Faltou,
mas já seria pedir demais à Globo, lembrar um pouco daquilo que, há dois mil
anos, a religião católica vem dizendo sobre o assunto, antecipando com o
velho testemunho da fé a atual estatística científica das EQM, muito mais
digna de crédito para o homem moderno. A verdade é que o
assunto, lentamente, vai ganhando o espaço acadêmico. Dr. Raymond Moody e
Dra. Elizabeth Kubler-Ross ensinaram em respeitadas universidades americanas;
os estudos da famosa médica suíça sobre as cinco etapas pelas quais passam as
vítimas de tragédias (doentes terminais e parentes), o chamado modelo
Kubler-Ross, são respeitados em faculdades de medicina. Um dos cientistas
entrevistados pela Globo, Dr. Sam Parnia, hoje ensina em Nova York e é
formado pela Universidade de Southampton, na Inglaterra, onde fundou o Human
Consciousness Project, grupo de pesquisa multidisciplinar, com cientistas de
vários países, empenhados no estudo da natureza da consciência em sua relação
— de dependência ou independência? — com o cérebro humano. É a primeira
tentativa mais ousada, em escala mundial, de envolver a universidade mainstream em assunto desse tipo, o
qual, desde o Iluminismo francês, sempre esteve associado à Idade das Trevas. Um dos componentes
do grupo é o jovem neurocientista canadense Mario Beauregard, da Universidade
de Montreal, autor da recente obra O
cérebro espiritual, onde revela os resultados da sua pesquisa doutoral
com monjas carmelitas, submetidas a eletroencefalogramas durante experiências
místicas. Interessante documentário sobre essas experiências podem ser vistas
aqui, no site do ONF,
Office National du Film du Canada, no qual também é entrevistado um dos mais
famosos ateístas contemporâneos, o Daniel Dennet, cofiando a sua venerável
barba cética. E são a esses últimos,
cientistas ou não, a quem temos todo o direito de perguntar: por que também
pessoas sem imaginário religioso enxergam e experimentam, nas EQM, as mesmas
coisas que os crentes — desligamento inicial da consciência e do cérebro,
sucção por um túnel com luz ao fundo, retrospecto da vida passada, encontro
com “seres de luz”? Por que cegos de nascença relatam, depois da rápida e
emocionante viagem, detalhes visuais do ambiente da “quase morte”, que jamais
poderiam ver com os olhos mixurucas da carne? 13/09/2011. Associações que
defendem vítimas da pedofilia querem que o Tribunal de Aia condene o Papa
Bento XVI, crítico implacável do relativismo moderno, como responsável pelas
sacanagens individuais dos padres e o descuido das dioceses. É a manipulação de
dados e informações a serviço do “pânico moral”, como explicou com clareza o
sociólogo das religiões Massimo Introvigne (v. blog
da Gaveta). Segundo o pesquisador
italiano, que se baseou em estudos feitos nos EUA, “comparando a Igreja
Católica dos Estados Unidos com as principais denominações protestantes, a
presença de pedófilos é, dependendo das denominações, duas a dez vezes
superior entre os pastores protestantes. A questão é relevante, porque mostra
que o problema não é o celibato, dado que, na sua maioria, os pastores
protestantes são casados. No mesmo período em que uma centena de sacerdotes
católicos eram condenados por abusos sexuais de menores, o número de
professores de educação física e de treinadores de equipas desportivas
jovens, também quase todos casados, considerados culpados do mesmo delito nos
tribunais americanos atingia os seis mil. Os exemplos podem multiplicar-se, e
não só nos Estados Unidos. E o principal dado a ter em conta, de acordo com
os relatórios periódicos do governo americano, é o de que dois terços dos
abusos sexuais a menores não são feitos por estranhos, ou por educadores –
incluindo os sacerdotes católicos e os pastores protestantes –, mas por
membros da família: padrastos, tios, primos, irmãos e pelos próprios pais. E
existem dados semelhantes relativamente a muitos outros países.” 12/09/2011. No terceiro salmo
bíblico, atribuído a Davi, diz lá o salmista, referindo-se a Deus:
“...golpeias no queixo todos os meus inimigos/ e quebras os dentes dos
ímpios.” Os ímpios que aguardem a fúria do Pai. Salvando-se em tempo, ainda
assim lavarão as privadas mais fétidas do Purgatório. E quem é que não
pode salvar-se? Mesmo o monstruoso Stalin, com seus sessenta milhões de
assassinatos nas costas, quem garante que não se salvou, arrependendo-se
verdadeiramente no último minuto? Em caso positivo — o que, cá entre nós, eu
acho bem difícil, embora a nossa maior dificuldade seja a coisa mais simples
para Deus —, o líder comunista deve estar hoje, com o queixo e todos os
dentes quebrados, lavando a pior merda do Purgatório, na mesma e exata
proporção dos males que causou. 11/09/2011. Publiquei, algum
tempo atrás, o romance Consagro-vos a
minha língua. Se for uma porcaria literária, o que é bem possível,
lamento pelas pessoas que o compraram, pelo tempo que perderam (até onde a
paciência os levou na leitura) e pelo editor que nele investiu. Também
lamento, obviamente, não poder fazer algo melhor. Mas questões editoriais e
literárias à parte, esse livro, que pode não significar nada para a
literatura brasileira, foi a minha obra-prima existencial: com ela me
reaproximei de Deus, através da nossa Advogada, depois de longa temporada do
deserto. Fui mais um exilado filho de Eva bradando para os deuses errados, no
pior vale de lágrimas que pode haver no mundo: o Brasil. 10/09/2011. Não há desrespeito
maior a um gênio do que incensá-lo, numa atitude deificatória indigna de
seres humanos para com outros seres humanos, mesmo superiores. Imagino uma
coleção de livros, da mais urgente necessidade, só com obras dos detratores e
antipatizantes de Machado de Assis: Sílvio Romero, Cruz e Souza, Hemetério
dos Santos, Octavio Brandão, João Gaspar Simões, Agripino Grieco, para só
citar os mais conhecidos. A unanimidade do mestre carioca é recente e burra,
como toda unanimidade (e isso vale também para o próprio Nelson Rodrigues).
Uma pesquisa, nos periódicos das últimas décadas do século XIX e primeiras do
século passado, revelariam certamente apreciações interessantes, justas ou
injustas, dos entusiastas de José de Alencar, Coelho Neto, Euclides da Cunha,
escritores que dividiam com Machado os favores do público. 09/09/2011. Mãe e filha falam-se
de igual para igual. São velhas amigas de infância. 08/09/2011. A fita métrica de
Oswald de Andrade era pequena demais para medir a grandeza de Bernanos ou
Carpeaux, sobre os quais disse várias asneiras. Espantosamente, soube no fim
da vida reconhecer o valor de Gustavo Corção, cuja prosa equiparou à de
Machado de Assis. Os inimigos do Corção diriam que o autor das Memórias sentimentais de João Miramar
já estaria gagá, àquela altura da vida; e os inimigos do Oswald, que ele não
era tão idiota como parecia. 07/09/2011. Um colega
referiu-se, há alguns dias, a certa Funalfa. Gostei do nome e fui conferir na
internet. Para minha decepção, descobri tratar-se de uma fundação cultural de
Juiz de Fora. Era uma sigla, santo Dio! E eu que julgava fosse nome de gente,
de gente feminina, de preferência velha e solteirona: dona Funalfa. Se eu fosse
contista, faria um conto ambientado em Minas, na primeira metade do século
XX, sobre uma velhinha fofoqueira e banguela chamada dona Funalfa. 06/09/2011. O romantismo
oitocentista não criou só a estética da autopiedade, mas também a política da
autopiedade: o socialismo. 05/09/2011. O direito e a moral
nem sempre caminham na mesma direção. Há pessoas nas quais confiamos até
prova em contrário; e, até prova em contrário, há outras das quais somos
obrigados a prudentemente desconfiar. 04/09/2011. São diferentes as
concepções que têm da família os dois poetas mais famosos do Brasil: Bandeira
e Drummond. Para o primeiro, que não se casou nem teve filhos, família era
uma coisa boa de recordar, para sempre perdida na infância pernambucana. Já o
poeta mineiro, que se casou e teve uma única filha, jamais conseguiu se
livrar de uma coisa má chamada família, que estava morta e enterrada na Minas
que não havia mais, mas cujo incômodo fantasma transportou por toda a vida. Se estava
convencido da inutilidade e do anacronismo da instituição familiar, Drummond
devia ter criado a sua própria segundo os novos moldes do comunismo, a que
serviu fielmente nos anos 30 e 40. E até que tentou. Na verdade, foi um
híbrido mal composto de senhor medieval e revolucionário dos anos 60. Mais ou
menos como o pai do poema narrativo “Caso do vestido”, o poeta durante trinta
anos deixou a esposa em casa, para encontrar-se com a amante bibliotecária.
Nisso, foi um mineiro exemplar, e não tem por que ser condenado. Com a filha,
porém, tentou aproximar-se do modelo revolucionário, segundo testemunho de
seu genro Octavio Mello Alvarenga, que foi casado com Maria Julieta Drummond
e disse coisas horríveis do Carlos Drummond pai, no livro Rosário de Minas (Lidador, 2003):
Drummond teria com a filha um relacionamento quase incestuoso, mais de
namorado ciumento do que de pai mineiro. 03/09/2011. Timor mortis. Na fuga do carpe diem, Entre o mulherio
salgado E taças de vinho
azedo, Os anacreontes riem O risinho amarelado Do medo. 02/09/2011. O romantismo
oitocentista criou a estética da autopiedade. 01/09/2011. Lembro-me, nas
missas da infância, de certos indivíduos que voltavam da comunhão mais com a
barriga, do que com a alma cheia de Deus. Pelas laterais da igreja, vinham
quase arrotando o divino, como se viessem de um churrasco qualquer. |
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1. ENSAIOS & RESENHAS A PEQUENA REVOLUÇÃO
NIILISTA DE MANOEL DE BARROS GEORGES
BERNANOS DE VOLTA AO BRASIL Notas para uma palestra na É Realizações EM DEFESSA DO MELHOR ABANDONADO O que estamos fazendo com os alunos mais inteligentes? NOTAS
SOBRE O POLITICAMENTE CORRETO No contexto do movimento revolucionário, segundo Olavo de Carvalho A
SOLUÇÃO FINAL PARA O PROBLEMA DA EDUCAÇÃO Reflexões sobre o nobre métier de ensinar Resumo de uma palestra Sobre os exageros na reavaliação de Qorpo
Santo PEQUENA INTRODUÇÃO A UM GRANDE ROMANCE Prefácio ao romance Dados
biográficos do finado Marcelino, de Herberto Sales, publicado em 2009 por
É Realizações
HERBERTO SEM RETOQUES NEM BERLOQUES Prefácio ao livro Subsidiário 1, de
Herberto Sales, publicado em 2009 por É Realizações
HÁ CINQUENTA ANOS PARTIA-SE O ESPELHO Homenagem aos 50 anos de O espelho
partido, de Marques Rebelo
Resenha
de uma novela de Luiz Vilela AS ÚLTIMAS CRÔNICAS DE OTTO LARA RESENDE PAULO FRANCIS,SEMPRE CONTEMPORÂNEO 2. LIVROS Frases, minicontos, minicrônicas etc.
Contos
Novelas
Poemas
Ensaio
3.
VÍDEOS & ÁUDIOS NO LANÇAMENTO DE UM LIVRO DE GEORGES BERNANOS Palestra
com José Carlos Zamboni DEBATE SOBRE GEORGES BERNANOS E ROBERT BRESSON Participação
de José Carlos Zamboni NO LANÇAMENTO DE DOIS LIVROS DE HERBERTO SALES Palestra com José Carlos Zamboni
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